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segunda-feira, 13 de setembro de 2010

Uma nova vida em Londres - Tudo em Si

Bem, chegou ao fim mais uma história do Dupé publicada neste blog. Mais uma vez, a última parte não é publicada. Num futuro próximo poderão ter uma resposta mais efectiva quanto à parte final e também quanto à parte inicial desta história. Esperar para ver.


No entanto dou algumas pistas:

 - A última parte chama-se: "A água é o sangue da vida"
 - A música de fundo está relacionada com esta última parte.


Bem, já disse muito. Divirtam-se :)

Sempre mais que vinte (LI) - Uma nova vida em Londres

Carlos pegou na sua folha de papel pautado e limpou as lágrimas. Depois foi à casa-de-banho e, com água das rosas, ajustou e pensou retirar tudo o que estava a mais de lágrimas sobrantes e limpar alguma impureza que tal primeiro papel lhe tinha depositado.

Ele, depois disso, continuou a arrumar as malas. Começou a encaixotar os cadernos, os livros, as lâmpadas, os cartões de telemóvel que ele tinha em excesso e a caixinha sentimental onde ele guardava os textos que mais gostava. É de esperar que Carlos se mantenha com a caixinha durante muitos, muitos anos. Naquele momento pegou num deles e começou a lê-lo:

Sempre mais que vinte, mas menos de trinta. O facto é que menos de vinte é pouco e mais de trinta é muito. Estava tudo na proporção ideal. Parece que três anos não são muito, mas convertendo tais anos em dias, temos por volta de mil e noventa e cinco. Tantos dias que me fizeram pensar em vocês, achar que estavam bem, que não o estavam. O que mais precisavam, o que era preciso fazer? Muitas foram as conversas, as chatices e as reprimendas. Muitos foram os nãos, os agoiros e as dedicações indirectas. Mas, o importante é que era tudo para vocês. Nada era directo, não fosse eu o senhor mistério, que primeiro que se decifre algo meu, leva-se tempo e tempo e tempo. Não muito para os mais experientes, mas para quem não estava habituado torna-se complicado tal tempo ser pequeno. Acontece o descrédito do desafio, ou ainda, a pouca vontade em descobrir a segunda fase do mistério, mas tudo isso tem uma resposta: paciência.

Sem ela a vida era como a de um animal não racional, e ainda nos questionaríamos mais porque é que pensávamos. Se pensamos também temos a capacidade de sermos pacientes. E se somos pacientes temos a chave para o futuro rápido e com menos dos muitos obstáculos da vida.

A seguir o que vem, é a dispersão. Uma dispersão que é importante para o crescimento, para a vida, para nos tornarmos adultos, homens e mulheres feitas, e de preferência com cabeça.

A espera ainda é muita, faltam duas a quatro provas por aluno para pensarmos onde vamos marcar a bolinha em tal site de internet ou em tal papel de candidatura, mas uma resposta é certa, vamos acabar o Ensino Secundário e, para mais de 90% de nós, tal facto significa sair do nosso concelho apanhar mais transportes, acordar mais cedo. Se é fácil ou não, a resposta será dada por vocês, não por mim e nunca agora.

Todas as memórias são impossíveis de apagar da massa cinzenta à qual chamamos cérebro, e ainda acrescento que, além das memórias, o sorriso, a boa disposição e, a força de vontade serão sempre características que deverão manter.

Um grande abraço do vosso Delegado de Turma.

O choro de Carlos parou depois da leitura deste texto e começaram ainda mais memórias a surgir. Os desafios a Roberta, a paisagem magnífica que ele tinha num dos quadros do quarto, que com um símbolo de céu azul, contrastava sempre com o carregado da janela ao lado. Algo se pensava que aí vinha, quando a campainha toca e, a chuva pára.

Pumpum... Pumpum... Pumpum... (L) - Uma nova vida em Londres

A noite é passada na cama a escrever até certa altura, quando o sono era tanto e a mão já não seguia uma linha recta. Não existia limite para a imaginação naquela altura, Carlos tinha entrado no mundo dos sonhos, onde tudo é possível e nada é impermitido. Até novas palavras e novo vocabulário é válido, velhas tendências de moda, novos comportamentos, velhos hábitos; tudo, mas mesmo tudo é válido, passível de existir e fácil de alcançar.

O sono foi breve. O despertador tocou e ele levantou-se. Sem rabugice, com vontade de viver mais um dia, igual a tantos outros, mas completamente diferente dos sonhos que ele tinha, onde, uma vez mais, tudo era fácil.

Carlos entrou na banheira e começou a pensar como é que podia ver realizados tais sonhos com tanta dedicação que ele tinha para tais assuntos. Não foi fácil. Mas passou tal questão. A mente tinha ficado mais limpa e menos carrrancuda naquele assunto com a passagem da água e dos sais pelo corpo dele. Espremia uma borbulha aqui, coçava outra borbulha acolá (ainda por causa de ter estado na terra junto à estação) e, ao sair do banho, vestiu-se de forma formal, com a bata branca na mão e foi de transportes para o hospital onde trabalhava.

Quando lá chegou estava tudo arrumado. Parecia que nada do que ele tinha desfeito no outro dia naquele gabinete estava partido. Ainda melhor, estava a prenda de Roberta em cima da mesa como nova e, um novo peixinho no seu aquário. Carlos começou a assinar todos os despachos e a enviar para publicação as novas regras e as novas ordens de serviço. Entrou também em contacto com a Ministra da Saúde daquele país, quanto à questão dos internatos hospitalares. Fora uma manhã cansativa, mas à tarde, já existiam respostas: breves e objectivas.

O chefe convocou para o dia seguinte uma reunião geral de médicos internistas de todos os anos, à excepção do último ano. A sala do auditório estava sobrelotada para ouvir falar tal douturado em logística com três ou quatro cursos em gestão hospitalar. Ouvia-se naquele local bafos quentes de dentes mal lavados e de quem estava ali há mais de vinte e quatro horas. Por outro lado existiam bafos frescos, principalmente femininos, de médicos que tinham entrado ao serviço à meia hora e teriam o resto do dia pela frente.

Carlos começou a reunião com a frase: "Vocês são o fundo do hospital. Qualquer coisa que vos seja pedida tem de ser feita". Mas rapidamente mudou de discurso. Passou a respeitar os direitos e os deveres daqueles que poderiam ser seus colegas, se ele tivesse conseguido entrar em medicina no final do secundário. Daquela reunião prolongada, de mais de hora e meia, sairam os internos felizes, contentes, com a boa-nova de que não poderiam prolongar os turnos e que a sexta-feira à tarde era descanso para ambos até ao final do quarto ano. Desta forma, ele tinham uma vida mais simples, menos carregada, para poderem não só disfrutar da vida fora do hospital, mas também para garantir a segurança dos pacientes que atendiam. Estavam mais frescos, menos cansados e não viam a meia-noite de sexta-feira como a hora de fazerem "filinha" para picar o ponto e poderem ir de fim-de-semana.

Ele regressou ao gabinete. Ainda tinha a prenda por abrir, e já se passavam alguns dias. A verdade é que ele estava confuso. Carlos queria abrir a prenda, mas não sabia o que ali estava. Algo bom, ou algo mau. Algo que lhe fazia ler o resto do livro à noite ou algo que o mantinha com lágrimas na cara, dentro daquela monotonia de arrumação.

Começou-se a ouvir tic tac's mais profundos. As válvulas cardíacas estavam a trabalhar com mais força. A respiração estava descontrolada. E ele continuava confuso. Abre a prenda finalmente. Vê algo que lhe chama definitivamente à atenção, mas acaba por deixá-la ali, sem abrir o segundo invólcro de papel de embrulho e saí do gabinete. Vai passear pelo hospital, tentando encontrar Roberta, mas não tem sorte. Ela tinha sido chamada para ir assistir a uma cirurgia demorada e o coração dele continuava com uns batimentos acelerados. Pumpum Pumpum Pumpum...

Até ele sair daquele sítio, assim foi. Chegou a casa, despiu a bata, depois de ter vindo nos transportes públicos com ela vestida e vai fazer contas ao dinheiro que tem. Chega à conclusão que tem o dobro do dinheiro que pensava ter, mas continua com ele guardado ali, naquela segunda gaveta, onde as coisas não têm muita importância. Abre a primeira e tira os lenços. Começa a chorar...

domingo, 12 de setembro de 2010

Podemos viver (XLIX) - Uma nova vida em Londres

Carlos depois daquele lindo texto que ele tinha escrito para Joaquim e de um forte abraço, levanta-se, sorri e acompanha o amigo até à estação mais próxima. Ambos apanham o comboio, Joaquim em direcção ao canal da Mancha e Carlos em direcção a Londres, voltando assim a casa.

Ele, com as mãos sujas de estar sentado junto a uma zona com terra, senta-se num comboio comprado com a sua assinatura, durante o tempo da sua presidência na empresa de transportes. Rapidamente ele tira isso da ideia.

Já era noite quando ele chegou a Tower Hill e daí caminhou até casa. Quando ele chegou a tal enormidão, vai para o quarto e verifica as escalas dos internos do segundo ano, onde estava Roberta. Ela tinha dobrado o turno de forma a ter a sexta-feira livre, e dessa forma não podia ir dormir a casa. Carlos ficou um bocadinho reticente, era uma noite sem a grande amiga dele, mas tudo se passava. À hora de se ir deitar foi ler o livro que Joaquim lhe tinha oferecido no décimo primeiro ano e que ele nunca tinha tocado até àquele preciso momento. Parou de ler tal magia literária ligada à ciência precisamente à meia-noite, quando chegou ao sexto capítulo. Fechou o livro e tira da primeira gaveta da mesa de cabeceira um bloco de notas. Começou-se ali a expressar:

 - Tantos beijos em diversos locais do corpo. Nós somos especiais!
 - Tinha e tenho ideias de poder passar o resto da minha vida contigo. Morto ou vivo acho que o vou fazer.
 - Temos uma casa muito grande. Para o futuro, gabinetes. Para o passado, uma passagem secreta.
 - Temos uma magia na vida. Para dar e vender.
 - Podemos sorrir juntos. Para os bons e os maus momentos.
 - Podemos dar as mãos. Estando contentes ou tristes.
 - Podemos ir à Lua e voltar. Porque a amizade não tem limites.
 - Podemos ser amigos. Porque a amizade é Universal.
 - Podemos ser humanos. Porque pensamos.
 - Podemos ser... o que nós quisermos. Porque.... somos livres.
 - Podemos morrer. Porque temos um tempo de vida.
 - Podemos viver!

Mas para isso é melhor ter qualidade de vida. Uma companhia. Um motivo para estarmos alegres e pensar em boas coisas. Que vamos conseguir aquilo que ambicionamos, que alguém nos ajuda quando precisamos.
Acho que tenho isso tudo. Mas não sei até que ponto é correcto o que estou a fazer.... Quero ser feliz!

Não muitos, mas alguém (XLVIII) - Uma nova vida em Londres

Naquele corredor ferroviário, estava ele sozinho, sem ninguém a caminhar. De quinze em quinze minutos passava um comboio e apitava. Buzinanços atrás de buzinanços, avisos atrás de avisos, Carlos continua a viagem até avistar uma estação ao longe. Quando a começa a ver pára. Ele atreve-se a passar as oito linhas de comboios que antecediam a estação para o outro lado e ficar na parte verdejante e mais limpa. Fica assim a ver de frente a cidade monumental. O tempo continua nublado, como habitualmente. Ele sentado começa a olhar em seu redor. Mais calmo com a vida já a reinar e o sentimento da morte desfeito. Sem vontade de se cruzar com ninguém conhecido.

Mal ele se sentou naquele sítio passou um comboio para a estação mais próxima. O comboio pára, larga as pessoas e alguém que sai naquela paragem foi a correr para junto de Carlos. Um rapaz. De estatura média e nada anafado. Tudo na forma e na posição correcta. Ele parou a meio do caminho. Verificou se ele conhecia a pessoa que ali estava sentada sossegadamente a mexer na vida não-humana ali existente. Depois de um período parado, o rapaz começa a correr para junto de Carlos e começa a  gritar : CARLOS! CARLOS!.

Carlos ali na calmaria, olha para o seu lado esquerdo e vê Joaquim. Não lhe punha a vista em cima há meses, desde aquele episódio em que Carlos tinha dado pontapés às prostitutas na parte mais obscura de Londres. Ele baixa-se para cumprimentar o amigo de longa data que ali estava sozinho a pensar na vida. Vai ao bolso do casaco que levava vestido e em vez de um lenço, encontra um papel. Um papel diferente dos outros, já bastante amarelado, com o que ali tinha escrito muito sumido. Mal se via. Além disso ainda uma lágrima de preocupação de Joaquim.

A respiração dele começou a acalmar. Já estava mais normalizada e nessa altura ele abre o papel e começa a lê-lo. Rapidamente se apercebe que foi algo que Carlos lhe tinha escrito há oito ou nove anos, ainda adolescentes ambos:

Além das coisas, és diferente. Mais responsável, mais humano, mais amigo do mundo adolescentício que rodeia a população portuguesa. E esta estapa da tua vida é marcante para ti e apara a tua família: novo sítio de aprendizagem, novos amigos, novas pessoas, novas felicidades, outros meios de transporte, mais cansaço, mais irritação e passas assim a integrar também os movimentos pendulares da capital.

Cresceste, desde o V ao T, passando pelo S, sem dúvida alguma que crescente. Que tomaste consciência que nada era fácil, que nem as músicas relativas ao poker eram tão simples como o acto de jogar tal jogo.

Partilhámos angústias, momentos bons, chatices com a família, preocupações com os avós. Acho que ambos marcámos o outro. Nem que seja por uma simples coisinha minúscula que fica guarda durante muito tempo na nossa caixinha sentimental, o coração. Não foram só dias, foram meses e um ano e certeza e sem dúvida. Se o ciúme foi a palavra inicial para que uma amizade começasse, não pode existir nenhuma para que a mesma termine, mas sim devem existir imensas para que ela, mesmo à distância se mantenha de pé, não reduza de grau e que quando um precisar do outro, se lembre dele. Que os Natais e os Novos Anos sejam passados na companhia da família, mas sempre com os amigos e inclusive comigo na cabeça.

Tendo uma frase, já adaptada de alguém que conhecemos bem, não esquecer nunca que as paixões vão e vêm, mas as amizades perduram; não esquecer que a família é nossa e não a podemos escolher, mas os amigos antes de serem nossos são alvos de testes minúnciosos para ver se são nossos.

Pergunto-me neste preciso momento como te irás sentir? Se perderei a confiança que depositei numa pessoa respeitosa que és, porque te afastas e segues o curso natural da vida ou então se perceberei que assim é o teu desejo e manter-me-ei calado, no meu cantinho, à espera de um dia em que precises de algo e que te lembres da minha pessoa.

Não muitos, mas alguém é sempre especial. O género não interessa. Mas sim a pessoa, a amizade.

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

Have a bad day (XLVII) - Uma nova vida em Londres

Roberta não vai ao gabinete do chefe e ele também não a volta a chamar. Com o ar que tinha no estômago, de comer à pressa, vem-lhe à boca um arroto, muito grande, de porporções inimagináveis. Carlos não tinha aprendido com a cirurgia. Tinha ficado a comer depressa na mesma, uma vida stressante e, estar fechado dentro de quatro paredes, estas um pouco diferentes das anteriores.

Sem mais nem menos, o chefe tem um ataque de raiva, seguido com um de choro. Antes de o ter, e já a pensar que iria ser assim o resto do seu dia de trabalho tranca a porta e faz das suas. A primeira coisa a ir para o chão é a prenda de Roberta. Depois vem a mesa onde estavam os despachos assinados à espera que fossem distribuídos pelos departamentos clínicos. E por fim, e com a raiva já no ponto máximo, manda a cadeira contra a parede. Depois de tudo, e já com a cara toda enlargimada, com um corte limpo no braço esquerdo, com uma direcção não definida de um aquário que ele tinha partido e que um pedaço tinha raspado no corpo de Carlos.

Naquele labirinto até chegar ao chefe, era necessário passar o documento identificativo duas vezes e seguir em frente numa porta blindada com código que, secretamente, estava em todos os cartões dos trabalhadores dos hospitais, na parte de trás, por baixo da banda magnética.

Carlos, senhor dos mistérios, descobriu no primeiro dia de chefe, após aquela desarrumação, que no canto direito do gabinete havia uma saída directa, através de um elevador para o local onde ele estacionou o carro. Ultimou a sua saída, apagou a luz do seu espaço, avisando a sua secretária que se tinha ido embora. Desceu no elevador metalizado, que anunciava o tempo que faltava até à chegada ao parque de estacionamento, e ao entrar nele, rebenta. Diz tudo! O que queria e o que não queria, frases correctas e frases sem sentido. Palavrões e palavras científicas.

Sai, naquele dia, do parque de estacionamento, a uma velocidade extrema, não seguindo os conselhos do médico português. Quase que ia atropelando uma pessoa, mas o sistema de travões automáticos do carro protegeu o utente que não tinha culpa do chefe estar enervado. Parecia um cão raivoso.

Chega a casa e Carlos começa a fazer as malas. A meio de tal actividade pára, desfá-las, põe tudo no sítio e volta a sair de casa, ainda danado, muito introvertido e com umas bochechas completamente cheias de ar, sinal que dava a entender a grande fartura, cansado da monotonia, fora de si. Desce à rua principal e pega na primeira mulher que vê. Agarra-a pelas costas e beija-a. Descarrega ali a força emocional que tinha, no roçar de lábios quase que obrigatório e não desejado por ele, mas que ele fez sem pensar. Depois deixa-lhe um papel no bolso esquerdo de trás das calças e pede-lhe desculpa. Brincou com os sentimentos dela, tal como lhe haviam feito há uns anos. Sem força de vontade, e com uma cara chorosa, vai à estação do DLR mais próxima, ainda com traços de novidade, e põe as pernas na plataforma onde o comboio iria chegar dentro de pouco tempo. Mas ele não se lembrava que àquela hora as carruagens não obrigavam o condutor a chegar ao fim da linha e, neste caso, aquele comboio ficou no meio da plataforma, devido à sua dimensão.

Para Carlos aquele, foi um sinal de fracasso, mas também um sinal positivo, que devia continuar com a sua vida. Ele tira as pernas dali. Levanta-se do local de onde estava e põe-se a caminho do fim da plataforma para conversar com o motorista que estava do outro lado do "help point", mas, quando ele ia carregar no botão, o comboio partiu. O que ele ouviu do outro lado foi apenas ruído, sem possibilidade de perceber alguma voz humana decente.

Ele fecha os olhos e imagina-se no céu, acima das nuvens, deitado nelas, ao lado de uma rapariga bonita, e ao fundo um jardim, como que fosse o paraíso, a utopia da vida, a não chatice ilimitada. Mas de repente regressa a Terra, cá a baixo onde a não-utopia é viver, devido ao barulho que existe em tudo, as fricções de placas tectónicas e a nua e crua da verdade.

Mas algo ele tinha pensado... Percebido que a realidade não eram estratagemas, mas sim aquilo, de forma directa... Então depois de pensar tudo isso, põe-se a caminhar sobre os carris, roçando nos balastros de cor clara contrastando com outros de cor já escura, sujas de óleo. Todos os comboios que ali passam apitam para ele sair dali, mas ele continua junto à linha, a passos curtos, em direcção ao Sul.

terça-feira, 7 de setembro de 2010

O reinício da rotina londrina (XLVI) - Uma nova vida em Londres

Roberta não respondeu ao que Carlos queria. Não lhe deu a resposta mais óbvia, ou que tinha gostado ou que tinha detestado. Ficou calada no meio daquelas quatro paredes em tudo já rotineiras e sem ânimo, monótonas entre o chão e o tecto e iguais da esquerda para a direita.

O tempo vai passando, Carlos tem alta ao fim de mais de mais uma quinzena. Era início de Outubro quando ambos entram no avião e acenam aos pais de Roberta, no aeroporto, em Faro. No meio da viagem, o silêncio reinou até Roberta tocar no assunto dos pais de Carlos. Quando ela começa a falar deste assunto, ele interrompe-a, dizendo que já sabia que a mãe e os avós tinham morrido e que estava sozinho, não só na esfera azul e verde, com combinações castanhas, mas também no restante Universo. Roberta pega no joelho de Carlos e aperta-o, dizendo de seguida que Carlos também a tinha. Independentemente de todo o passado, era importante saber que um bom e grande amigo não se esquece, nem pode desaparecer de um momento para o outro.

A viagem de avião termina onde tudo começou, num aeroporto de Londres. Eles, naquele local tão enorme e tão movimentado foram abalroados pela polícia inglesa devido a um atentado bombista que existia naquele terminal. Carlos ignora o aviso e, ainda com a mão no estômago pega na mão de Roberta e corre com ela para a sub-cave do edifício onde estava a limusina à espera deles. Ao passar para a escada rolante que os levava lá são visto por um dos elementos da quadrilha. Devido à mala que Roberta trazia e que tinha posto ao seu peito, não foi alvejada e conseguiu ela, e Carlos, escapar àquela infinita espera que seria, minutos atrás de minutos, horas atrás de horas, e não sabendo e pondo a possibilidade, dias após dias.

Chegaram a casa. O tempo, lá fora era como o escuro e o dentro da casa era como o claro. Havia a razão do oito e do oitenta, a diferença era enorme. Na rua, a monotonia da chuva, em casa, a iluminação raiava em todas as divisões com pessoas.

Carlos diz a Roberta que está com dúvidas quanto à continuidade dela no especialização , porque tinha faltado um mês do seu segundo ano como médica a 90%. Aquele dia chegou ao fim, deixando a cama aberta e pronta para ambos irem descansar, cada um em seu quarto, mas ambos com caras sorridentes.

Na manhã seguinte, é de louvar a capacidade de Carlos para ir trabalhar, o médico português tinha-lhe dado autorização para tal e ele, tinha de ficar a fazer as revisões oncológias no hospital onde iria ser o máximo chefe. Quando chegou ao seu novo gabinete era um grande monte de tralha para assinar. Os papéis já começavam a amarelar de estar ali três meses sem despacho. Os médicos começavam a perguntar o atraso do novo chefe. A primeira coisa que Carlos fez foi uma reunião geral. Com isso, é de perceber o atraso e todo o hospital ficou a saber da situação oncológica dele. Mas não havia hipótese. Quando ele regressou ao seu espaço tinha uma prenda de Roberta bem identificada com um embrulho com o símbolo do Metro Londrino. Ele põe a prenda de lado e chama-a ao seu gabinete...

sexta-feira, 3 de setembro de 2010

Mais uma tarde maravilhosa (XLV) - Uma nova vida em Londres

A pedido de Carlos, o médico colocou por debaixo da caixinha do textos um deles. Quando Roberta regressou Carlos pediu-lhe para ler em voz alta. O título era: Mais uma tarde maravilhosa.

Comecei o dia com dores de cabeça e com um nó no estômago. Tive uma manhã atribulada e super ocupada, aviar medicamentos, fazer o teste do colesterol. Acabei transpirado, quando cheguei a casa, já esgotado e ainda com mais dores de cabeça. Disseste-me para ficar em casa, mas apresar de tudo não aceitei. Queria ver-te e não aguentava mais as saudades que tinha de ti. Queria entregar-te o que era para ti hoje. Fui almoçar a tal canjinha com gelatina. Por sorte encontrei uma colega que me deu ibuprofeno. Era algo desconhecido para o meu corpo. Apenas tinha tomado paracentamol... Era ali a derradeira altura para uma reacção alérgica. Por sorte, não aconteceu.
Depois, pensava que ainda estavas na saída desde manhã e mandei-te uma SMS à qual não respondeste. Eu tinha ido para a minha escola de línguas, e de repente reparo que tinhas mandado uma SMS a dizer que nos encontrávamos junto ao centro comercial ao pé da tua rua. Respondo de forma afirmativa e continuo as minhas lições.
O tempo ia passando e eu olhava para o relógio. Na última vez, quando tinha acabado a primeira de três lições daquela unidade, olho para o relógio do 'speaking centre' e vejo que ainda eram 15 horas. Não liguei aos minutos. Saí de lá pensando que ainda tinha tempo para ir ao fórum comprar uma garrafa de água. Pus uma camada de bâton do cieiro e, depois segui para ir ter contigo ao sítio combinado. Antes de fazer a esquina do banco, vi-te ao longe. Passo a estrada e ao fazer a esquina de novo, mas do outro lado do passeio, deparo-me com alguém a chamar-me. Pensei que fosses tu, alguém me chamou, ou pelo menos pensei isso. Não estava à espera de te encontrar tão cedo, mas vieste sem óculos de Sol. Parecia que adivinhavas que apesar de te ficarem bem, gosto de te ver a cara toda sem óculos.
Girei em 180º em direcção de novo ao fórum. A primeira coisa que faço é ver se és mais alta que eu, da mesma altura ou mais baixa. Não chego a nenhuma conclusão e na minha cabeça, com os batimentos cardíacos mais acelerados começam a colocar-se questões: Será que ela vais gostar da prenda? Será que ela vai gostar da saída? Será que ela já não está ofendida comigo? E se encontrarmos alguém? Como vai ser? Será que lhe vou ler o texto?.
Passamos o fórum por dentro e sentámo-nos no acimentado que existe ao pé da farmácia. Pergunto-te qual é a prenda que queres primeiro: a cinzenta ou a castanha. Depois de responderes que era indiferente, dizes que queres a de Lisboa, ou seja a cinzenta. Entrego-ta e quando abres reparo que estava trocada. Não devia ter dito, mas foi instantâneo na minha cabeça. Saiu-me aquilo.
Depois vem a prenda castanha. Aí ainda tive mais receio se ias gostar. De repente começas a adivinhar tudo o que havia para adivinhar e, vem a parte dos textos. Aquele que eu te queria ler, mas como estava Sol, acudi ao teu pedido e disseste-me que o lerias em casa. Espero que quando o leres, sorrias como eu sorri quando estive contigo.
Saímos daquele sítio e começamos a passear pelo fórum. Vamos a várias lojas e antes de entrarmos numa mexo-te no cabelo e faço-te cócegas. De seguida, digo que estava com saudades tuas. Era para te pedir um abraço nesta altura mas engoli o pedido e ouvi a tua resposta. Tu respondeste, com uma pequeno espaço de tempo para pensar, que eras como mel. Eu respondo que não era uma abelha, mas sim uma vespa. Se calhar arrependo-me, mas nos próximos dias de certeza que pensarei melhor no que disse. Corrigiste-me de forma tão rápida e eu era um zângão e não uma vespa.
Entrámos numa loja de roupa, onde tinhas comprado algo que eu tinha de adivinhar. Não foi à primeira, mas digo-te que o que compraste deve ficar estupendamente bem! Mas eu não me deixei ficar e coloquei-te o mesmo desafio depois. Descemos e depois de vermos as minhas colegas do ensino básico, entramos numa das lojas e desafiei-te a adivinhar a peça que lá tinha comprado e que levava vestida na altura. Perguntaste-te os tipos! Eu não respondi. À primeira chegaste lá, sem te dizer nada. Sim, tu viste o ano passado quando te dei a outra prenda e não, se fosse o outro tipo, não me importava nada de mostrar. Porque eras tu!
Saímos de lá e fomos à livraria. Depois de te lembrares do aniversário da tua mãe, e ainda juntos, comecei a recordar o momento em que te dei as duas prendas e que me disseste que não me trazias nada. Eu digo-te agora que dá-me um sorriso enorme e dias após dias de boas conversas que me fazem feliz. É a melhor prenda que me podes dar. Além disso, e a olhar, de forma discreta para o relógio pensei como estavas igual na cara, com tudo como eu te tinha visto em Julho antes de irmos de férias.
Falei-te de um livro acerca de rapazes e compraste-o. Eu queria oferecer-to, mas não fui explícito o suficiente. Acabaste por o comprar e no caminho para a caixa acabei por te dizer que ia pôr os meus contactos a funcionar. Mas não o vou fazer. Porque, como amigo teu, tenho de te respeitar e penso, e afirmo com quase 100% de certeza que se tivesses algo de importante para me dizer acerca de ti, me dizias, de qualquer assunto. Saímos e como não viste ninguém, entrámos na loja ao lado. Aí deste por falta do teu outro telemóvel e, ligaste para quem ali deveria estar e não estava e depois essa pessoa liga-te. Saíste da loja dizendo para ficar lá até me mandares SMS. Esperei pela mensagem e após lê-la, fui-me embora, nunca olhando para trás. A minha cabeça pensava que tinha de ir para o autocarro!
Já na carreira 7 comecei a pensa em tudo o que se tinha passado, nas nossas conversas, nas cócegas, nos textos, nas prendas, no tempo que passei contigo e que adorei. No fundo achei-o pouco. Queria passar mais tempo contigo. Uma manhã ou uma tarde inteira, só os dois!!!! Depois perguntei-me se querias passar tal tempo comigo e o que é que iria fazer nessa altura. Não obtive resposta. Mas o que sei é que, foi alegre e bastante amicíssimo.

Por tudo isto, dedico-te este bocadinho de texto, dentro dos outros milhentos que gostas que são meus para ti...

Depois de Roberta acabar de ler, Carlos pede-lhe opinião acerca do texto e a cabeça dela levanta-se. Roberta diz que...

sexta-feira, 27 de agosto de 2010

A memória praiana (XLIV) - Uma nova vida em Londres

Passadas duas semanas, Roberta traz as cartas todas que estavam no correio para Carlos. O que é de realçar é a alteração da proposta que o hospital londrino lhe fez. Ele passaria a ser o número 2 do hospital. Ele sorriu bastante com tal comunicação. Outra era relativa aos amigos que ele tinha em Odeceixe.

Carlos ainda estava confuso com os novos órgãos, mas a cabeça dele mantinha-se a mesma. Ele, ao ler a primeira carta, pede a Roberta para se sentar. E começa a falar:

- Dear, eu não te contei nada, mas um hospital em Londres fez-me uma proposta para ir trabalhar para lá. Não te contei, porque ainda tenho uma grande mágoa de não ter conseguido seguir o meu sonho respeitante à profissão. Depois daquele dia em que eu dei a conferência de imprensa aos londrinos, recebi a tal carta, à qual respondi que aceitava o cargo de membro do Conselho de Administração, dependendo da minha doença, sem prejuízo de despedimento. Eles não responderam e, ao que parece, esta é resposta. Não consigo desfazer este nó que aqui tenho, daí te ter escondido.

Roberta continua calada e refere que ele não ia a Odeceixe há dois anos e que agora tinha recebido uma carta de lá. Carlos chama Roberta para mais perto dele e começa a ler a carta que tinha recebido.

“Olá Carlos,

Já é o segundo ano que não passas férias por cá. Guardei a morada dos teus avós, há uns anos e, dessa forma, decidimos este ano contactar-te. Aqui continuamos com a mesma rotina. Ir à praia de manhã e ficar lá até à noite, almoçar, por vezes, ao restaurante ao lado da casa onde moravas, a jogar à sueca. Tudo como antigamente.

Sentimos a tua falta, porque animavas um pouco o “pessoal” e pensámos que te tinha acontecido algo. Esperemos que recebas a nossa carta o mais breve possível e que respondas.



Beijinhos da malta de Odeceixe”.

Carlos, com ar de saudade, diz a Roberta que aqueles amigos que ele tinha, eram grandes companheiros deles e que até havia uma rapariga no grupo deles com o mesmo nome de Roberta, pelo menos o primeiro e o segundo.

- Ajudas-me a escrever a resposta, por favor? As mãos, hoje, não estão num bom dia, diz Carlos.

Roberta responde afirmativamente e Carlos começa a falar:

Olá Família Antunes e Oliveira,

Espero que esteja tudo bem convosco. Agradeço que me tenham enviado uma carta de preocupação, à qual eu estou a responde com muito gosto. Certamente perguntar-se-ão o que se passa comigo, já que há 2 anos que não vou a Odeceixe passar férias. De facto, o ano passado tive atarefado com a minha partida para Londres e tive de regressar a casa no meio de Agosto. Apenas vi o Sandro e a D. Antónia ao longe. Este ano é mais complicado. Apesar de estar de férias e em vias de pertencer ao Conselho de Administração de um hospital londrino conceituado, o cancro que tinha no estômago e nos intestinos alastrou de mais e tive de ser operado. Estou no Hospital Central aqui do distrito, a recuperar das grandes operações que me submeti. Conseguiram-me animar um pouco agora. Espero que, com as palavras seguintes, consiga eu fazer-vos relembrar memórias que foram passadas há alguns anos:

Naquele ano tudo foi diferente, não foram apenas as idas ao chapéu nem os jogos de cartas. Foram conversas, desabafos, crítica, sugestões, invenções e novidades. Alterou-se a rotineira vida de ida e vinda da praia. O aniversário da “us média” foi divinal para mim. Aquele 21 de Agosto deu para perceber que algo não estava bem e acabei por decidir, após conversa com a Sofia Catarina que tinha de fazer algo.

Na praia aproximei-me bastante de vós. Adorei esses tempos. Continuo a dizer que a “us velhota” é o máximo e que a D. Antónia deixa saudades pela sua actualidade! Os restantes adultos não pensem que não marcaram, mas todos deixaram marcas que são impossíveis de esquecer: a mãe da Sofia Catarina por ser canhota, como eu. O pai e o avô por terem parecenças e terem uma forma de vida própria distinta. Quanto à mãe da “us média” o que há a dizer é… A sueca é algo que nunca se esquece, mas sempre se aprende.

Quanto ao pessoal mais pequeno, a companhia foi a melhor de todos os anos. E, já para não falar, do não preconceito e da abertura imensa existente.

Só me resta agradecer e desejar que me façam companhia por muitos mais anos.

Cumprimentos,

Carlos.

Após Carlos ter terminado o texto que Roberta tinha escrito para enviar para os Odeceixenses, entra o médico na sala alegre e dizendo que dentro de duas semanas, tudo indicava que Carlos tivesse alta. Roberta não consegue conter as lágrimas e sai do quarto a chorar. Carlos, mais rijo, pede ao médico para lhe explicar tudo o que lhe tinham feito e os cuidados que ele passaria a ter de ter. Eram imensos, desde uma alimentação mais equilibrada, menos stress e mais qualidade de vida.

O paciente agradeceu com uma tentativa de “passou bem” não conseguia, porque a força que ele tinha ainda não era a suficiente.

Quando o médico sai, Roberta regressa. Carlos pergunta porque é que ela não chorou à sua frente, porque as lágrimas, não tinham mal, porque Roberta estava sempre dentro da caixinha sentimental de Carlos. Ela sorri e aconchega-se ao lado de Carlos, junto ao seu braço direito.

domingo, 15 de agosto de 2010

Do branco ao cinzento da vida (XLIII) - Uma nova vida em Londres

Algo de especial. Mesmo especial. As lágrimas que corriam pela face esbranquiçada de Roberta indicavam algum choque. Foi ao ler uma dos desabafos de Carlos. Mais uma vez sem título, mas com, um carinho textual inigualável:

“Estou doente. Já sei disso há muito, mas não lhe quero dizer. Há anos… Há anos… Um dos meus grandes sonhos era poder viver e ter uma família com ela. Como estou é impossível. Não poderei viver muito mais anos, e ainda tenho este sonhos. Cada dia que passa torna-se imperativo arranjar uma solução. Após dias e dias corridos, chego a uma conclusão. Eu não posso viver, mas a meiose (a divisão celular) ainda ocorre, eu ainda não estou impotente. Há muito tempo que não doo esperma, mas desta vez o motivo é especial. Não o quero deixar assim, como das outras vezes. Vou à clínica mais próxima de fertilidade e, com alguma boa vontade, conseguirei livrar da doação, os espermatozóides não aptos ou com alguma fracção de DNA alterado que possa trazer problemas ao rebento. De certeza que Roberta não irá gostar da ideia, nem nenhuma vez irá pensar em inseminação artificial. Poderei até estar a deitar dinheiro à rua, mas tentar não custa. Ela deve ler este papel, comigo já queimado, num pote e deixado numa das carruagens do metro mais próximo da cidade onde nasci, mas não interessa. O meu sonho é este, já que não poderei nunca dar uma volta ao mundo com ela, estar sentimentalmente bem com ela, e sem dúvida nenhuma, não poderei sem sombra de dúvidas, poder-lhe dizer que ela é a pessoa mais importante na minha vida mais uma vez, nem que o corpo dela é esbelto, que as pernas dela são perfeitas que a combinação que ela faz com a roupa é de cinco estrelas, que adoro o perfume que ela usa, há anos. É com cara triste que termino este texto, mas não tenho forças para mais. As frases já me custam a escrever. A pensar nenhuma resposta chega. Sempre disse que estava velho, que já tinha dores de velho. E ninguém ligava. Sempre disse que era diferente e apenas ela conheceu-me quase a cem por cento. Era com ela que eu queria terminar a minha vida, com aliança ou não, com filhos ou não, mas com uma certeza, vivo ou morto, sentir-me-ia bem, reconfortado e, sem falta de carinho e amor”.

Carlos continuava em coma, após Roberta ter lido o texto, este em voz baixa. Dá-lhe um abraço forte e tão aconchegado que os cabos que o monitorizam artificialmente são postos em perigo. Por pouco, o ar que ele inspira não era desligado. Ela não dá por isso e ao terminar o aconchego corporal, ajeita os lençóis da cama e senta-se de novo no cadeirão castanho.

Cristina, ao ver a filha destroçada, entra no quarto e fá-la sair de lá, dizendo que precisa de falar com ela, com certa urgência.

Cá fora, já no frio corredor, mas em pleno Verão, inicia-se uma longa conversa. A mãe começa por perguntar a Roberta acerca dos pais de Carlos. Roberta responde-lhe que ambos tinham morrido num desastre de automóvel e que Carlos não o sabia, apenas o sentia. Daí ter ligado para Cristina e não para os pais. A pergunta seguinte prende-se com a relação que ela tinha com Carlos. A resposta a esta questão vem depois de um engolir longo de saliva. Tardou, mas ao primeiro movimento bucal da filha, Cristina adianta-se e pergunta-lhe se eram namorados. Roberta diz à mãe que não. E começa-lhe a explicar:

- Nós temos uma relação maioritariamente confusa. Há momentos em que eu sinto que ele me ama e eu dou a entender que o amo por vezes. Nós somos como pão e queijo, colocados junto um do outro e damos um requinte fenomenal ao outro. Eu, sem Carlos, não era o que sou agora. E de certeza, que, ele sem mim também não o era. Várias vezes ele teve crises de ciúmes, ataques de possessividade. Não obstante, também tinha momentos em que precisava de alguém e eu fui sempre a pessoa mais próxima. Não consigo explicar porquê! Nós tivemos algo que nos juntou assim que nos vimos. Ele tinha e suponho que ainda tem medos. Alguns deles são tão estúpidos como eu me fartar daquela pessoa diferente que eu conheci no meu 10.º ano. É impossível que isso aconteça. Por outro lado, percebo o que ele quer dizer com todos os textos e pontas soltas em mensagens que ele deixou ao longo dos anos e que, eu não lhe disse que reparava. Ele expressava-se de mais e eu de menos. Vou-te contar uma situação: O maior desejo dele era estar um dia comigo, sem pais, sem ninguém. Apenas nós, juntos, como amigos, naquela longa avenida junto ao rio, na nossa cidade. Depois, poder vir a casa e sem problemas, estarmos carinhosamente sentados no sofá, trocando carinhos como os verdadeiros e melhores amigos fazem. Mas ele não conseguiu. Eu não deixei, apesar de saber o que ele queria. Não me arrependo, mas ele esforçou-se ao máximo para seguir medicina e acabou por seguir logística e transportes. Uma área de engenharia que ele detestava. Sinceramente, acho que o vou desligar das máquinas. Ele já fez tanto por mim que agora cabe-me a mim fazer o último desejo dele: “Em coma, não prolongues a minha vida através de máquinas”. Que dizes mãe?
- Fazes bem. Mas antes despede-te dele. Sabes que nunca poderás encontrar alguém que comemore o aniversário de uma amizade e que te dê bola atrás de bola no telemóvel. E muito mais, que, até li, por vezes, em textos que ele te escrevia e que tu escondias de mim e do resto da família. Quando o desligares, ou quando pedires para desligarem a máquina, não tenhas dúvida, sente-o como uma obrigação.

Roberta dirige-se para o quarto de Carlos e entretanto chega o médico com o resultado das últimas análises que tinham feito ao internado. No entanto, quando o médico consegue falar com Roberta, já esta a estava a desapertar o primeiro cabo que mantinha o amigo ligado à vida no planeta Terra.

sexta-feira, 13 de agosto de 2010

As frases descobertas... (XLII) - Uma nova vida em Londres

Em Portugal, continua a cirurgia a Carlos. O tempo naquela sala verde, quase toda electrónica passava à velocidade da luz para os médicos e ao relantim para o doente anestesiado.


Após dezasseis horas de cirurgia e três equipas médicas que rotacionaram na cirurgia, é dado a Carlos o último ponto. Este momento dava início a uma nova vida para ele, o fim do stress e do nervosismo e da má alimentação à base de carne e o início da vida calma, tranquila, com uma alimentação à base de fibras. Além de todas as indicações, a quimioterapia, nos próximos meses era inevitável. O forte cabelo castanho-escuro que ele tinha, ia cair. Ele não estava acordado ainda, mas cá fora, já lhe rapavam o cabelo. Mal acorda, e dá pela falta do cabelo, juntando a isso a água que lhe tinham dado indevidamente, o organismo de Carlos entra em falha. Os batimentos cardíacos alteraram-se de forma repentina. O monitor que estabelecia contacto e registava a pressão arterial e os batimentos estava plano. Da boca dele, do nada, começou a sair um líquido acastanhado, muito esquisito e, ao estar sozinho, ninguém lhe podia acudir. Rápida foi a mãe de Roberta, que ao reparar no barulho rápido e esquisito, diferente do habitual, que o monitor fazia chama uma enfermeira e um médico, além de ali estar Josué. Carlos é de novo aberto, noutro bloco operatório, este, já de cor vermelha, com materiais próprios de gastrenterologia e de oncologia médica. As horas começaram a passar de novo, muito mais devagar, para Carlos. Aquela cirurgia era definitiva. Em Portugal não existiam meios para que houvesse tratamento daquela terrível doença. Carlos tinha pedido a Cristina para não ser transferido para outro hospital, queria estar ali, no Algarve, e se tivesse de morrer, que naquele local acontecesse.

Não se sabe ao certo o que aconteceu na cirurgia, mas Carlos sai do bloco, agora entubado, ligado a mais máquinas, como que o fim estivesse perto. O único contacto que o hospital tinha era o de Roberta. Ao ligar-lhe é-lhe comunicado que ela é a responsável pela decisão do futuro para Carlos: ou continuava ligado às máquinas ou o desligavam e a morte chegava. Aos vinte e oito anos, a hora do fim estava mais próxima do que se imaginava.

Ninguém, ao olhar exteriormente para Carlos, não percebia que algo se passava. Na cara de Carlos apenas estavam olheiras, por vezes profundas e quando ele transpirava, de cor avermelhada.

O avião de Londres aterra em Faro. Josué tinha a sua viatura já à espera da filha no aeroporto. Quando chegam ao hospital, e a põem em contacto com o responsável com a equipa de transplantação, Roberta tinha de decidir, ou “o matava” ou “mantinha-o” vivo por mais tempo. Ela, naquele instante relembra-se de uma conversa que Carlos tinha tido com ela, quando estavam no secundário. Ele não queria que a vida fosse prolongada artificialmente, mas naquele momento, Roberta não ligou ao que ele pediu. E comunica ao chefe de transplantes que quer que ele fique ligado às máquinas por mais um tempo, porque queria estar com ele e podia haver como que um milagre e ele melhorasse.

Era apenas uma suposição, ninguém podia nem conseguia prever se tal facto iria ser consumado. Roberta, passou aquela noite no quarto da Unidade de Cuidados Intensivos de Gastrenterologia com Carlos. Ela trouxe a caixa dos textos, e dessa forma, punha-se a ler-lhe os textos que ele tinha escrito, junto ao seu ouvido.

Curiosa estava Cristina, porque Carlos não lhe tinha falado dos pais. Algo se teria passado com eles. Roberta, a partir de um momento, começou a chorar mais. Que se teria passado naquele quarto branco cheio de electrónica?

quinta-feira, 12 de agosto de 2010

O antigo desejo de Carlos é a sua doença (XLI) - Uma nova vida em Londres

A distância que os separava não dava para que Roberta o acudisse. Apesar de ter acabado o internato e ter pedido, colocação no segundo ano da especialização noutro hospital de Londres, não estava à mão. Para Roberta, Carlos ainda estava naquela clínica.

Josué, após ter tentado estancar a hemorragia anal que Carlos tinha, não o consegue fazer, porque esta não começava ali. A úlcera estomacal que ele tinha rebentado definitivamente e o sistema imunitário dele estava cada vez mais fraco. Ele não admitia a doença que tinha. Ele não tinha tomado nenhuma medicação. Ele estava-se a destruir em silêncio.

A ambulância chegou. Carlos, voltado de barriga para baixo, é deitado na maca e a distância ao hospital ia diminuindo. A branquidão do interior da ambulância portuguesa contrastava com a cor da pele de Cristina que estava junto dele, apertando-lhe a mão esquerda.

A chegada ao hospital é feita de forma atribulada. Muito pior do que a chegada em Londres. As portas já abertas e o caminho para o bloco operatório quase que directo, ditaram a sentença daquele rapaz, já quase às portas da morte. Põem-no a dormir. Já bastante debilitado, os olhos dele fecham-se após a fraca respiração ter inspirado o anestesiante corporal. Enquanto os médicos lhe abriam o abdómen, Carlos estava quase como a dormir. Ali, naquele local de paredes verdes, estava um homem com um passado enorme. Enorme com “e” grande, desde os gostos esquisitos até às relações mais estranhas possíveis.

As horas iam passando e a “limpeza” corporal continuava. Os médicos tiraram-lhe o estômago. Em vez da sua cor habitual, a cor vermelha contrastava com a negridão da necrose. A seguir foram os intestinos. O apêndice estava completamente destruído. A peritonite pouco tempo faltava para aparecer. O início do intestino delgado, o cego, estava podre. O sistema digestivo de Carlos estava quase todo destruído. Como poderia sobreviver um ser humano sem estômago e sem o início do intestino delgado, sem aquelas supra-micro-fibras e vilosidades que ajudam a digestão.

Cá fora, enquanto Carlos era intervencionado, Cristina tenta, de novo, ligar a Roberta. Ela atende, e a primeira coisa que Cristina lhe diz é que Carlos tem cancro no estômago e que estava a ser operado no hospital naquele momento. Roberta, remexe, após ter desligado o telefone na cara da mãe, no gabinete de Carlos. Encontra três papéis fundamentais: um papel da empresa de conservação de esperma humano, um documento com a proposta de Carlos ir trabalhar para o hospital onde Roberta ia ser “residente” a partir de Outubro e por fim um relatório médico com a indicação de uma neoplastia maligna de grau cinco, o mais elevado e o mais crítico.

Roberta deixa-se cair no chão, e começa a chorar. Sente-se culpada de tudo o que vai acontecer.

domingo, 1 de agosto de 2010

A rotatividade da nudez e das relações (XL) - Uma nova vida em Londres

No fundo, com os meses passados estávamos em pleno meio de Agosto. Por tradição, a família de Roberta ia de férias nessa altura. Indiscretamente, pergunto a Cristina se queria que eu voltasse a Londres, aquela cidade de pouco alcance, fria, chuvosa, turbulenta, com um metroplitano antiquado, mas quente, alegre, serena onde vivia Roberta. Cristina responde que após ter falado com Josué, pai de Roberta, decidiram levá-lo de férias com ele, não só devido ao quarto clínico, de uma cirurgia recente, de um cancro no estômago  e com a cara que ostentava na maioria da vezes, mas também, porque achavam que estava na altura de perceberem o que Carlos era, como vivia, um pouco da sua história, e muito mais acerca dele.

O ponteiro dos segundos fazia "tic-tac" no relógio de Carlos e a viagem começa. No carro, algo longo de quase 300km, o silêncio das conversas constratava com o barulhento ruído da estação de rádio mal sintonizada. À chegada, o calor não existia. O fresco ar do mar lançava uma lufada de ar para o continente, e após arrumarem a tralha, vão para a praia.

Cristina começa a conversar com Carlos e este pede-lhe mais um tempo para se habituar à região, porque nunca lá tinha ido, e dispersa-se ao longo do extenso areal. A maré estava baixa. Carlos passa os pequenos rochedos que dividiam as duas praias e, entrou numa parte de nudistas. A vontade de sentir o que sentia quando era criança, e quando passava férias ao lado de um praia de nudistas, fez Carlos despir-se e estar como veio ao mundo. Uma sensação de liberdade, um prazer em sentir o vento em todo o corpo. Acaba por passear na praia dos nudistas e, quando regressa à praia onde estava com os pais de Roberta, volta a vestir o calção. Chega ao chapéu-de-sol e agora, é ele que vai falar com Cristina.

- Peço desculpa há pouco,disse Carlos.
- Eu percebi que precisavas de andar por aí sozinho. Mas diz-me agora, o que se passa realmente contigo?, perguntou Cristina.
- É uma longa história. Tudo começou no 10.º Ano. Foi nesse ano que os meus hábitos começaram a mudar e conheci a sua filha. Devo muito a ela. Sem ela, não seria o que sou agora. Mas não interessa. É algo que digo e sinto vezes atrás de vezes. Depois, às escondidas tentei tirar Medicina, mas as notas que tive no exame de Matemática não dava para eu entrar. Então alistei-me à logística. Tirei o curso e acabei por ser um dos melhores alunos. Havia uma vaga na empresa de transportes de Londres e eu acabei por aceitar e estagiar lá. Acabei por estar com Roberta no mesmo voo e revivemos os momentos do passado. Desculpe, mas não consigo. Não me quero lembrar dela agora., falou Carlos, estando com uma cara de tristeza.
- Que se passa? Não queres estar nem pensar na minha filha?, questionou Cristina.
- Não. Eu quero estar longe dela. Preciso de um espaço sem pensar nela, longe dela e sem ela... Mais tarde até lhe posso explicar porquê, mas agora não consigo., disse enfurecido Carlos.

Cristina, ainda com receio da história que Carlos tinha para contar, e tendo em conta a aproximação da hora de jantar, retira-se e os três, Josué, Carlos e Cristina regressam a casa. A aproximação da noite com uma ligeira brisa, contrasta com a noite que se avizinhava em Londres, com uma noite bastante chuvosa e nada convidativa a uma saída nocturna.

Roberta estava sentada na sua cadeira do consultório e consegue decifrar mais uma pista da surpresa de Carlos. Ela pensou da seguinte forma: De forma adolescentícia. O bem e o mal, o que é bom e o que é mau. De certeza que tem algo a ver com o berçário.

E lá foi, sai do gabinete dela e entra no berçário, onde estava uma caixa de fraldas guardada na terceira porta do armário AL. Lá descobriu outra pista:

Estás quase a chegar ao ponto final nesta aventura de descoberta. Faltam apenas três pistas. Esta diz o seguinte: O prazer carnal não é mais do que uma atenção para com os sentimentos. A amizade não é nada mais do que um passo intermédio, mas duradouro. No fundo todos os caminhos vão dar a Roma, quer dizer, o puzzle consegue-se montar e ouvem-se gritos.

Mais um mistério fez com que Roberta fizesse cara feia e fosse remexer, no seu quarto, em todas as memória que tinha de Carlos. Mas ela, no fundo, estava muito preocupada com ele. Ele não lhe dizia nada. Ela não sabia onde ele estava.

Horas mais tarde, Roberta ouve o telemóvel a tocar: era sua mãe, Cristina. A conversa baseou-se toda na pessoa Carlos e nos desejos dele, nas conversas que Cristina tinha tido com Carlos e na preocupação deste para com Roberta. Ao terminar a chamada, Cristina diz a Roberta para ela perceber o que está a fazer a Carlos, porque no fundo não foi só ele que se portou mal.

Mal Cristina desliga o telefone, naquela casa, tipicamente algarvia, Carlos tem mais um vómito ensaguentado e desmaia. Sem força nenhuma pede a Cristina para falar com Roberta acerca do seu cancro do estômago. Quando Cristina tentar ligar de novo a Roberta, Carlos começa a perder sangue pelo ânus, de forma incontrolada. Josué, médico, acorre rapidamente a Carlos, e ao gritar por uma ambulância, Roberta percebe que algo não está bem.

terça-feira, 27 de julho de 2010

A pequenez e grandeza juntos (XXXIX) - Uma nova vida em Londres

Os meses passavam-se, as cartas para Carlos, no casarão, em Londres, acumulavam-se; Roberta estava confusa. Como estaria Carlos? Há meses que não se falavam. Desde a última conversa, pouco ou nada se tinha avançado sobre a pista e o tempo estava a "esgotar-se".
A quilómetro de distância é de reparar na grandiosa cirurgia que os oftalmologistas fizeram a Carlos. Mas o silêncio intrigava-o...
O silêncio, desde o Secundário, era um dos grandes medos de Carlos, e agora, ele estava a passar pelo maior da sua vida. Foram meses de tremendo medo, dor no estômago, rosnar dos intestinos e vontade de vómito. A decisão que Roberta tomou, quando o mandou para aquela clínica, não era percebida por Carlos. Ele queria estar com Roberta, senti-la como a sentia e como a sentiu. Já recuperado da cirurgia, mas não da depressão que ele tinha, o choro era evidente.
Ele tanto chorava como sangrava. Ele tanto desejava Roberta como a odiava. Ele tanto dizia desculpa, como gritava que era o culpado de "o nada", mas mesmo assim, se iria matar. Ele não estava bem, nem naquela clínica. Ele precisava de tempo, coisa que não tinha; ele precisava de ser são, coisa que não era, ele precisava de ser ele próprio, coisa que ele não conseguia ser.
De repente, decide ligar para Portugal, para os pais de Roberta. Perguntou se o podiam acolher. Apesar de Carlos ter família em Portugal e ter Roberta em Londres, ele precisava de alguém mais, muito mais maduro. De um apoio forte, fora da família.
Ele precisava de mudar de ares, de sentir um prazer de novo.
Apanha o voo e, quando chega a Portugal, mais especificamente, na casa dos pais de Roberta, pede à mãe dela para lhe dar um abraço. Ninguém lhe dava um abraço há muito. Há tanto tempo, que ninguém podia entender como ele se mantia em pé sem carinho.
Quando Cristina, mãe de Roberta, acaba o abraço, Carlos diz-lhe que agradece o abraço do fundo do coração. E senta-se pela primeira vez, no sofá de casa de Roberta. Nunca lá tinha ido, mas tudo era tão belo.

sexta-feira, 23 de julho de 2010

Ele estava longe, mas perto (XXXVIII) - Uma nova vida em Londres

A cegueira levou a que Carlos, dias mais tarde, fosse parar a uma clínica de recuperação no meio do mato, longe de Londres, longe da cidade, perto do campo. Para ele, o que contava era o adorável cantar dos passarinhos e o rico cheio do campo, quase sem gases automóveis, sem fábricas. O que ele tinha pena era de ouvir, com muita frequência, os pingos da chuva na branca e nova janela do quarto. Mas os quadrados na vista continuavam. A tensão ocular continuava altíssima e nada a fazia baixar.

Roberta, após ouvir a opinião do colega que lhe tinha ido levar a bata, pôs Carlos na tal clínica. Naquele casarão o silêncio voltou a reinar. As confusões deixaram de existir. E o quarto de Carlos estava vazio. Sem roupa. Sem calor. Sem luz. Com as cortinas fechadas. Sem um pingo de água. Já com pó na mesa de cabeceira.

Ele podia estar longe, mas a sua mente estava perto, muito perto, mas ao mesmo tempo, com uma grande confusão.

Com muita calma e com uma baixa velocidade, Carlos sai do quarto e vai dar uma volta ao longo do terreno adjacente à clínica. Com a guia de metal envolvida em alumínio, ele segue pelo caminho mais próximo que encontra, mas não tem a noção que está a seguir o mais sinuoso e menos apropriado para ele.

Aparece-lhe um dos seus grandes amigos do secundário, mais uma vez, Joaquim. Joaquim, que Carlos tinha encontrado há uns meses no meio de Londres, trabalha agora naquela clínica, longe de tudo, como assistente de um dos mais conceituados médicos. Ele impede Carlos de cair no buraco que se avizinhava na estrada. Ele leva-o para a sala de convívio e tenta pô-lo a falar. Carlos continua a ter a pulsação acelerada, mas acaba por contar a Joaquim do cancro que tem no estômago. As lágrimas de Joaquim acorreram à sua face. A limpeza do chão da clínica contrasta com o local onde Joaquim estava, onde na sua direcção, tinha uma mancha de água lagrimal.

E Carlos comenta que "ela não responde"... E Carlos sente que Joaquim não está bem e tenta abraçá-lo. E Carlos quer recuperar a visão, mas não consegue. E Carlos quer sentir aquele cheiro do perfume belo dela, poder acarinhar tal suava face, mas não pode!

Põe a mão na cabeça e dá com a bengala-guia na perna, de forma a tentar partir esta parte do corpo humano. Depois disto, pede a Joaquim para ele ligar a Roberta e dar-lhe a próxima pista para ela descobrir o que realmente era um os desejos de Carlos. Após Roberta atende e de passar a parte inicial da conversa, Joaquim lê assim num papel que Carlos tinha escrito no computador, dias antes de ficar cego:

"De facto, o que é mau, acaba sempre por chegar. Mas o bom, o melhor de tudo, o fim de algo bom, para se avançar, ainda demora muito mais depois do mau. Estive quase lá no fim de algo bom, para subirmos mais um pouco, mas estraguei tudo com a minha tolice. Pensa de forma mais adolescentícia para resolveres esta pista".

Roberta, do outro lado do telemóvel, diz que aponta a pista, mas, que vai tentar percebê-la, porque não conseguiu decifrá-la pelo telefone. Carlos, de cabisbaixo, dá um ligeiro sorriso quando Joaquim se despede de Roberta. Este, ainda diz à grande amiga de Carlos que ele tinha tido um ligeiro sorriso na face, mas que era algo pouco.

Ela, em Londres, dentro do grande casarão começa a pensar, começa ver os dias a irem para trás e para a frente, e Joaquim longe e o colega que lhe foi trazer a bata, tinha-lhe passado a ignorar, por motivos que ela sabia muito bem: inveja. O que ela poderia fazer? Estava a quilómetros de distância, e tinha a grande caixa mágica da vida, o coração, nas mãos.

quinta-feira, 22 de julho de 2010

Continuo a ser eu.... aquela pessoa em que tu... Please! (XXXVII) - Uma nova vida em Londres

A noite não parecia ter fim. O desejo de Carlos em recuperar a visão era algo estonteante. Ele nunca tinha comentado nada acerca de Roberta, sem ser o seu interior, apesar de a ter visto em adolescente. Procura o gravador que tinha na caixinha dos textos e ao encontrá-lo rebobina a cassete e começa a ouvir um dos textos que ele tinha gravado, mas nunca escrito:

"Não sei como intitular este texto. Um texto oral, o primeiro que eu lhe gravo. Estou quase a chorar. Quero encontrar-me com ela, mas estou muito longe. Quero poder-lhe dizer que BASTA e que apesar de tudo quem está a sofrer sou eu. Que até posso ter assumido e feito um grande erro, mas que, ela, na minha opinião, não está a agir como deveria agir. Mas não posso. Não estou junto dela. Estou longe, muito longe, mesmo muito longe. Não sei que fazer. Sinto-me perdido nesta azáfama de pessoas, as quais, para mim, este ano não querem dizer nada. Eu devia estar onde moro e não a passar férias. Eu devia estar junto dela, para podermos tentar resolver as coisas, mas não estou. Não consigo resolver nada por telemóvel. Não sei que mais fazer para lhe dizer o que quero dizer. Ela continua preocupada comigo, porque não estou muito bem, mas quando eu toco em algo, como no antigamente, ela não responde. O passado é o presente! Eu não quero!!!! Eu quero o passado recente, antes de eu ter cometido o grande erro. Não sei que mais pensar, que mais dizer, que mais falar. Encontro sempre algum obstáculo que me impede de avançar, nem que seja o seu silêncio electrónico. Como devo fazer? Não sei e não quero estar assim. Estou a desgastar-me, a arranjar nervos a mais, a deixar que ela me consuma, por coisas que eu não lhe consigo explicar ou ela não quer voltar a passar comigo. Quem me dera poder estar ao pé dela, mesmo juntinho e ajoelhar-me e pedir-lhe perdão! Não um perdão electrónico, mas sim algo sério, um perdão a sério, no meio da rua. Só me lembro nestes momentos dos nossos maus momentos, e de alguns bons, mas em último lugar. Farto-me de suspirar para aqui, mas ela não ouve. Quero algo que a faça perceber como eu estou e porque estou assim..."

Com dificuldade, Carlos deita-se na cama e adormece destapado. Continua a guardar o grande segredo da saúde dele, mas não o consegue contar. Apenas ao ouvir Roberta ao longe pensa no seu sorriso, que esse sim, deixava-o feliz e sem medos pela frente.

Sem Roberta e sem sorriso Robertesco era mais complicado, muito mais.

Será que ela quer-me castigar mesmo? Ou o tempo vai fazer com que se melhore algo? - Perguntou Carlos, quando acordou com um grande espirro.

Mais uma vez não obtém respostas. Volta-se a deitar e procura o telemóvel, para de manhã cedo ligar para Portugal. Falar com alguém sobre os seus problemas. Na janela de Carlos a escuridão da noite era contrastada com umas nuvens mais claras carregada de chuva. Mesmo que fosse de dia, ele não iria perceber. Ele não conseguia ver o relógio, ainda continuava cego.

terça-feira, 20 de julho de 2010

A cegueira do nervosismo (XXXVI) - Uma nova vida em Londres

Passam-se setenta minutos desde que todos lhe bateram à porta por causa do grito que ele deu. E, após esse tempo, Carlos destrancou a porta. Abriu-a e esperou, sentado na cama, com o chão sujo de sangue que alguém viesse, mas ninguém veio. Nem Roberta.

Carlos começou a imaginar coisas, para a frente para trás, da direita para a esquerda e nada, apenas chegava à memória o tremor das mãos, o sentimento vazio, o querer e o não ter e a sensação que o tempo não passava. O nó que ele tinha quando escreveu aquele texto tinha voltado. A imagem que ele tinha da realidade e das pessoas à sua volta tinha-se alterado. A vontade de querer regressar ou se começar tudo do 0, ou então de fazer algo, de ter força para poder mudar os acontecimentos que dão origem a tudo o que é mau. A vontade de querer mudar o que tinha foi levada ao extremo. Desce do quarto a toda a força e bate com a porta da sala contra a parede, começando a falar com Roberta, com calma, de olhos fechados, mas como via que ela não respondia, que o ignorava, põe a caixa dos textos em cima da mesa e mostra-lhe, um por um que toda a razão por ele escrever era ela. Toda a possibilidade de ele estar mal é porque não percebia as atitudes dela. Ele queria mudar, mas ela não deixava. Começou a chorar de novo.
Com tanta raiva e ideias, deixou de ver. Carlos ficou cego, naquele momento na sala, junto de Roberta, e do seu colega que lhe havia trazido a bata.

Carlos, com esperança que, após fechar os olhos iria recuperar a visão, diz-lhe:

- Um dos meus últimos pedidos: acaba o desafio. Corre até ao teu escritório e revolta-o! Está lá a resposta! Encontra-a e abre a porta do que está escondido. Encontra-o e junta-o com um cotonete. Mas não me deixes assim cego. Eu não consigo ver. EU NÃO CONSIGO VER! Por favor, faz o que eu te peço. Não me julgues o resto dos tempos!

Após tudo isto, que para o colega de Roberta era uma encenação teatral e que, para Roberta, fazia-lhe com que a paciência chegasse ao seu limite, ignora o que Carlos diz e deixa-o ali, a arrefecer no meio da sala. Quando ele regressa ao quarto, tenta abrir os olhos e o que vê são quadrados brancos misturados com uma névos cinzenta. O que ele queria ver era a companhia de Roberta e o seu sorriso de novo.
Mas a paciência tinha-se esgotado. E Carlos tinha ficado cego.

The life is nothing for me. My number one is dead (XXXV) - Uma nova vida em Londres

Ele não sabia a resposta. Pensava o que era, mas não conseguia decifrar o verdadeiro motivo daquele sentimento. Pega numa folha que encontra junto da mesa de cabeceira e começa a lê-la. Era um dos milhentos textos dele. Quando ele escrevia, quando se sentia triste, mais enfadonho e com menos vontade de vier. Intitulado... "E agora?"

"Sentia-me só na encruzilhada das ruas londrinas, no meio daquela chuva imensa e daquele tempo nublado. Meti-me no computador e escrevi, falei com mais pessoas, expus o meu problema a pessoas que passam pelo mesmo. Mas nada deixava passar a mágoa que carregava dentro de mim. Com a grande bola de nervos, depois de um exame nacional, senti-a a aumentar cada vez mais e mais e mais e mais. Quem me tem parado já não me pára. Quem não falava comigo, passou a falar e aproximámos-nos um pouco. Mas continuo com medo. Sempre, medo atrás de medo, dia após dia, vírgula após vírgula, tema após tema, conversa após conversa, silêncio após silêncio. Continuo sem perceber, como é que dizem que o tempo cura tudo. Era noite, mas não conseguia estar ali. Queria sair daquela monotonia caseira que se tinha instalado na minha casa. Estou FARTO! Estou CANSADO! Tenho MEDO! Quero poder voltar ATRÁS! Mas não POSSO! E volto a começar a lagrimejar. Mesmo assim, saí de casa com grande velocidade. Com uma força de quem quer mudar e esquecer. De quem quer fazer uma maluquice.
Vou até à estação de comboios mais próxima e tento chegar à catenária. Quando estendo a mão, apita o comboio. Com o orgulho pessoal que tinha não consegui pôr fim ao que queria! E voltei a casa, mais sombrio, mais molhado e menos contente. As mãos tremiam mais, os pulmões expeliam especturação, e os olhos piscavam a grande velocidade. Voltei a casa, e encontrei chatices. A mesma chatice que me fez ficar assim, nesta monotonia, neste impasse entre a vida e morte que não quero mostrar-lhe; nesta vida que deixou, muita dela, de fazer sentido. Lembrei-me do que disse a uma das minhas professoras: "The life is nothing for me. My number one is dead". E voltei a ficar a um canto... Abanando o meu corpo contra a parede, escorregando até ao chão, chorando que me uma torneira de água salgada sem possibilidade de parar."

Carlos, ao acabar de ler o que tinha escrito há uns anos amarrota a folha e grita! Vem-lhe um ataque de tosse ensaguentada e toda a gente vem à porta do quarto dele. Mas ele não abre a porta. Ele quer ficar no escuro, sozinho, revoltado, porque entende que o passado ainda é o presente e o futuro vai ser o presente.

quinta-feira, 15 de julho de 2010

O que será desta vez? (XXXIV) - Uma nova vida em Londres

Algo não estava bem, mas Carlos sabia o que era. Apesar de não ter tirado medicina, até percebia o que "aquilo" queria dizer... Sente-se frustrado e farto, porque não fazia nenhum sentido que tivesse aparecido o cancro assim de um momento para o outro. Ele comia rápido era certo, mas de modo nenhum, poderia ter um cancro como o tinha. Maligno, sem tratamento, quase em fase terminal.

Roberta vai à porta da casa-de-banho de serviço e procura alumínio... Encontrou um frasco de alumínio cheio com um líquido parecido à água, mas tinha um certo cheiro e o alumínio já estava a ficar corroído. A memória de Roberta não estava a compreender, mas todas aquelas indicações eram respeitantes ao hidróxido de sódio. Mais uma vez, regressa à mesa, onde, já estava de novo Carlos, a ler o jornal daquele dia. Como era de esperar as gordas eram acerca da sua demissão. Os artigos eram interessantíssimos. Tinham ido buscar o seu passado, para mostrar às pessoas como que um chefe máximo de transportes mestre em logística poderia sair assim sem mais nem menos e alistar-se à saúde.

Carlos pergunta a Roberta se quer ouvir um excerto da reportagem dedicada a ele, e Roberta, com entusiasmo responde que sim. Carlos começa a ler em tom médio: "Como alguém troca a electricidade do metro pelos hidróxidos dos laboratórios?".

Mal Carlos acaba de ler aquela frase Roberta grita "YES", porque tinha percebido o que aquilo era e pergunta a Carlos para que é que servia naquele jogo o hidróxido. Ele responde que era apenas para empatar tempo. E pede a Roberta para se centrar na pista do novo e do velho, que já tinha sido dada anteriormente.

A funcionária de serviço, Emily, bate à porta, e diz que está uma pessoa para ver Roberta. Carlos ausenta-se da sala e vai para o quarto. Roberta toma a posição na sala de imprensa e manda entrar a pessoa que lhe queria visitar. Era um colega dela de internato, dizendo que ela se tinha esquecido da bata no hospital e que estava passada à última cadeira do internato.

O cancro de Carlos tinha-lhe dado tréguas enquanto ele estava no quarto, mas ele, já sob os lençóis da cama,  começa de novo a pensar e a chorar. Qual seria o motivo? O do costume? O cancro? Ou seria algo novo?

terça-feira, 13 de julho de 2010

A cor e os números (XXXIII) - Uma nova vida em Londres

Roberta questiona a razão da recusa e Carlos responde-lhe com bom modo e de forma directa para que se lembrasse das férias do 11.º ano. De seguida, pedindo desculpa a Roberta, saiu do quarto e foi à sala das funcionárias, dois pisos abaixo de onde estava. Foi buscar o correio que lhe pertencia. Naquele dia tinham-lhe escrito mais do que 50 cartas. Umas a criticar, outras a agradecer o trabalho que fez à cidade, mas a trigésima segunda chama-lhe em particular à atenção.

Era uma carta do hospital onde ele esteve internado, dizendo que, se ele estivesse interessado existia uma vaga na gestão do hospital e, com as referências que ele tinha, teriam muito gosto em tê-lo como membro do conselho de administração.

Carlos, após ler a tal carta, sobe até à sua nova sala e escreve mais uma pista para o desafio de Roberta, contendo o seguinte:

" Quando o velho se tornar novo, o meu último desejo tornar-se-á possível. Aí, serei como um computador em substituição das memórias RAM. E que tal os passos que dás até ao quarto forem compensados em passos para a casa-de-banho de serviço, desde a entrada e verificares este código: 341."

Coloca-a na mesa de cabeceira de Roberta e começa a responder à carta do hospital dizendo que aceite a proposta que lhe enviaram por correio, mas que o tempo que iria trabalhar dependeria do avanço da sua doença. Como era hábito, imprime duas vezes a mesma resposta, mas, como o tinteiro da impressora estava a terminar, aquela que mal se via ficou na impressora. Roberta, curiosa com a pista e à procura de Carlos, vai ao seu ex-escritório e lê a carta que tinha ficado mal impressa. Conseguia ler, mas quando chegou à parte que falava das condições do trabalho, tornava-se tudo ilegível.

Por outro lado, a primeira carta, aquela que tinha ficado bem impressa, estava na companhia de Carlos, a caminho do hospital, desta vez, de autocarro. Sem contar a Roberta, e sem telemóvel, devido à raiva que tinha tido anteriormente, volta rapidamente a casa. A sua amiga, por sua vez, estava com a pulga atrás da orelha. Não só não percebia o que a mensagem para decifrar dizia, bem como estava intrigada com o que Carlos tinha escrito para o hospital. Começou a pensar o que quereria dizer 341 na casa-de-banho de serviço. Mas lembrara-se que Carlos, ao gostar de códigos e de química, algo tinha de estar relacionado.

Ao jantar, Carlos apenas comeu canja e uma peça de fruta. Não tinha vontade para mais. De rompante, Roberta pergunta-lhe o que significava 341 na química para ele. Tímido e com a mão nos intestinos responde que é Al3, ou seja, Alumínio. Ausenta-se de repente e, ao chegar a uma das casas-de-banho da casa, vê que os resíduos corporais eram de cor negra. Algo não estava bem...