Carlos pegou na sua folha de papel pautado e limpou as lágrimas. Depois foi à casa-de-banho e, com água das rosas, ajustou e pensou retirar tudo o que estava a mais de lágrimas sobrantes e limpar alguma impureza que tal primeiro papel lhe tinha depositado.
Ele, depois disso, continuou a arrumar as malas. Começou a encaixotar os cadernos, os livros, as lâmpadas, os cartões de telemóvel que ele tinha em excesso e a caixinha sentimental onde ele guardava os textos que mais gostava. É de esperar que Carlos se mantenha com a caixinha durante muitos, muitos anos. Naquele momento pegou num deles e começou a lê-lo:
Sempre mais que vinte, mas menos de trinta. O facto é que menos de vinte é pouco e mais de trinta é muito. Estava tudo na proporção ideal. Parece que três anos não são muito, mas convertendo tais anos em dias, temos por volta de mil e noventa e cinco. Tantos dias que me fizeram pensar em vocês, achar que estavam bem, que não o estavam. O que mais precisavam, o que era preciso fazer? Muitas foram as conversas, as chatices e as reprimendas. Muitos foram os nãos, os agoiros e as dedicações indirectas. Mas, o importante é que era tudo para vocês. Nada era directo, não fosse eu o senhor mistério, que primeiro que se decifre algo meu, leva-se tempo e tempo e tempo. Não muito para os mais experientes, mas para quem não estava habituado torna-se complicado tal tempo ser pequeno. Acontece o descrédito do desafio, ou ainda, a pouca vontade em descobrir a segunda fase do mistério, mas tudo isso tem uma resposta: paciência.
Sem ela a vida era como a de um animal não racional, e ainda nos questionaríamos mais porque é que pensávamos. Se pensamos também temos a capacidade de sermos pacientes. E se somos pacientes temos a chave para o futuro rápido e com menos dos muitos obstáculos da vida.
A seguir o que vem, é a dispersão. Uma dispersão que é importante para o crescimento, para a vida, para nos tornarmos adultos, homens e mulheres feitas, e de preferência com cabeça.
A espera ainda é muita, faltam duas a quatro provas por aluno para pensarmos onde vamos marcar a bolinha em tal site de internet ou em tal papel de candidatura, mas uma resposta é certa, vamos acabar o Ensino Secundário e, para mais de 90% de nós, tal facto significa sair do nosso concelho apanhar mais transportes, acordar mais cedo. Se é fácil ou não, a resposta será dada por vocês, não por mim e nunca agora.
Todas as memórias são impossíveis de apagar da massa cinzenta à qual chamamos cérebro, e ainda acrescento que, além das memórias, o sorriso, a boa disposição e, a força de vontade serão sempre características que deverão manter.
Um grande abraço do vosso Delegado de Turma.
O choro de Carlos parou depois da leitura deste texto e começaram ainda mais memórias a surgir. Os desafios a Roberta, a paisagem magnífica que ele tinha num dos quadros do quarto, que com um símbolo de céu azul, contrastava sempre com o carregado da janela ao lado. Algo se pensava que aí vinha, quando a campainha toca e, a chuva pára.
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