Naquele corredor ferroviário, estava ele sozinho, sem ninguém a caminhar. De quinze em quinze minutos passava um comboio e apitava. Buzinanços atrás de buzinanços, avisos atrás de avisos, Carlos continua a viagem até avistar uma estação ao longe. Quando a começa a ver pára. Ele atreve-se a passar as oito linhas de comboios que antecediam a estação para o outro lado e ficar na parte verdejante e mais limpa. Fica assim a ver de frente a cidade monumental. O tempo continua nublado, como habitualmente. Ele sentado começa a olhar em seu redor. Mais calmo com a vida já a reinar e o sentimento da morte desfeito. Sem vontade de se cruzar com ninguém conhecido.
Mal ele se sentou naquele sítio passou um comboio para a estação mais próxima. O comboio pára, larga as pessoas e alguém que sai naquela paragem foi a correr para junto de Carlos. Um rapaz. De estatura média e nada anafado. Tudo na forma e na posição correcta. Ele parou a meio do caminho. Verificou se ele conhecia a pessoa que ali estava sentada sossegadamente a mexer na vida não-humana ali existente. Depois de um período parado, o rapaz começa a correr para junto de Carlos e começa a gritar : CARLOS! CARLOS!.
Carlos ali na calmaria, olha para o seu lado esquerdo e vê Joaquim. Não lhe punha a vista em cima há meses, desde aquele episódio em que Carlos tinha dado pontapés às prostitutas na parte mais obscura de Londres. Ele baixa-se para cumprimentar o amigo de longa data que ali estava sozinho a pensar na vida. Vai ao bolso do casaco que levava vestido e em vez de um lenço, encontra um papel. Um papel diferente dos outros, já bastante amarelado, com o que ali tinha escrito muito sumido. Mal se via. Além disso ainda uma lágrima de preocupação de Joaquim.
A respiração dele começou a acalmar. Já estava mais normalizada e nessa altura ele abre o papel e começa a lê-lo. Rapidamente se apercebe que foi algo que Carlos lhe tinha escrito há oito ou nove anos, ainda adolescentes ambos:
Além das coisas, és diferente. Mais responsável, mais humano, mais amigo do mundo adolescentício que rodeia a população portuguesa. E esta estapa da tua vida é marcante para ti e apara a tua família: novo sítio de aprendizagem, novos amigos, novas pessoas, novas felicidades, outros meios de transporte, mais cansaço, mais irritação e passas assim a integrar também os movimentos pendulares da capital.
Cresceste, desde o V ao T, passando pelo S, sem dúvida alguma que crescente. Que tomaste consciência que nada era fácil, que nem as músicas relativas ao poker eram tão simples como o acto de jogar tal jogo.
Partilhámos angústias, momentos bons, chatices com a família, preocupações com os avós. Acho que ambos marcámos o outro. Nem que seja por uma simples coisinha minúscula que fica guarda durante muito tempo na nossa caixinha sentimental, o coração. Não foram só dias, foram meses e um ano e certeza e sem dúvida. Se o ciúme foi a palavra inicial para que uma amizade começasse, não pode existir nenhuma para que a mesma termine, mas sim devem existir imensas para que ela, mesmo à distância se mantenha de pé, não reduza de grau e que quando um precisar do outro, se lembre dele. Que os Natais e os Novos Anos sejam passados na companhia da família, mas sempre com os amigos e inclusive comigo na cabeça.
Tendo uma frase, já adaptada de alguém que conhecemos bem, não esquecer nunca que as paixões vão e vêm, mas as amizades perduram; não esquecer que a família é nossa e não a podemos escolher, mas os amigos antes de serem nossos são alvos de testes minúnciosos para ver se são nossos.
Pergunto-me neste preciso momento como te irás sentir? Se perderei a confiança que depositei numa pessoa respeitosa que és, porque te afastas e segues o curso natural da vida ou então se perceberei que assim é o teu desejo e manter-me-ei calado, no meu cantinho, à espera de um dia em que precises de algo e que te lembres da minha pessoa.
Não muitos, mas alguém é sempre especial. O género não interessa. Mas sim a pessoa, a amizade.
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