A noite é passada na cama a escrever até certa altura, quando o sono era tanto e a mão já não seguia uma linha recta. Não existia limite para a imaginação naquela altura, Carlos tinha entrado no mundo dos sonhos, onde tudo é possível e nada é impermitido. Até novas palavras e novo vocabulário é válido, velhas tendências de moda, novos comportamentos, velhos hábitos; tudo, mas mesmo tudo é válido, passível de existir e fácil de alcançar.
O sono foi breve. O despertador tocou e ele levantou-se. Sem rabugice, com vontade de viver mais um dia, igual a tantos outros, mas completamente diferente dos sonhos que ele tinha, onde, uma vez mais, tudo era fácil.
Carlos entrou na banheira e começou a pensar como é que podia ver realizados tais sonhos com tanta dedicação que ele tinha para tais assuntos. Não foi fácil. Mas passou tal questão. A mente tinha ficado mais limpa e menos carrrancuda naquele assunto com a passagem da água e dos sais pelo corpo dele. Espremia uma borbulha aqui, coçava outra borbulha acolá (ainda por causa de ter estado na terra junto à estação) e, ao sair do banho, vestiu-se de forma formal, com a bata branca na mão e foi de transportes para o hospital onde trabalhava.
Quando lá chegou estava tudo arrumado. Parecia que nada do que ele tinha desfeito no outro dia naquele gabinete estava partido. Ainda melhor, estava a prenda de Roberta em cima da mesa como nova e, um novo peixinho no seu aquário. Carlos começou a assinar todos os despachos e a enviar para publicação as novas regras e as novas ordens de serviço. Entrou também em contacto com a Ministra da Saúde daquele país, quanto à questão dos internatos hospitalares. Fora uma manhã cansativa, mas à tarde, já existiam respostas: breves e objectivas.
O chefe convocou para o dia seguinte uma reunião geral de médicos internistas de todos os anos, à excepção do último ano. A sala do auditório estava sobrelotada para ouvir falar tal douturado em logística com três ou quatro cursos em gestão hospitalar. Ouvia-se naquele local bafos quentes de dentes mal lavados e de quem estava ali há mais de vinte e quatro horas. Por outro lado existiam bafos frescos, principalmente femininos, de médicos que tinham entrado ao serviço à meia hora e teriam o resto do dia pela frente.
Carlos começou a reunião com a frase: "Vocês são o fundo do hospital. Qualquer coisa que vos seja pedida tem de ser feita". Mas rapidamente mudou de discurso. Passou a respeitar os direitos e os deveres daqueles que poderiam ser seus colegas, se ele tivesse conseguido entrar em medicina no final do secundário. Daquela reunião prolongada, de mais de hora e meia, sairam os internos felizes, contentes, com a boa-nova de que não poderiam prolongar os turnos e que a sexta-feira à tarde era descanso para ambos até ao final do quarto ano. Desta forma, ele tinham uma vida mais simples, menos carregada, para poderem não só disfrutar da vida fora do hospital, mas também para garantir a segurança dos pacientes que atendiam. Estavam mais frescos, menos cansados e não viam a meia-noite de sexta-feira como a hora de fazerem "filinha" para picar o ponto e poderem ir de fim-de-semana.
Ele regressou ao gabinete. Ainda tinha a prenda por abrir, e já se passavam alguns dias. A verdade é que ele estava confuso. Carlos queria abrir a prenda, mas não sabia o que ali estava. Algo bom, ou algo mau. Algo que lhe fazia ler o resto do livro à noite ou algo que o mantinha com lágrimas na cara, dentro daquela monotonia de arrumação.
Começou-se a ouvir tic tac's mais profundos. As válvulas cardíacas estavam a trabalhar com mais força. A respiração estava descontrolada. E ele continuava confuso. Abre a prenda finalmente. Vê algo que lhe chama definitivamente à atenção, mas acaba por deixá-la ali, sem abrir o segundo invólcro de papel de embrulho e saí do gabinete. Vai passear pelo hospital, tentando encontrar Roberta, mas não tem sorte. Ela tinha sido chamada para ir assistir a uma cirurgia demorada e o coração dele continuava com uns batimentos acelerados. Pumpum Pumpum Pumpum...
Até ele sair daquele sítio, assim foi. Chegou a casa, despiu a bata, depois de ter vindo nos transportes públicos com ela vestida e vai fazer contas ao dinheiro que tem. Chega à conclusão que tem o dobro do dinheiro que pensava ter, mas continua com ele guardado ali, naquela segunda gaveta, onde as coisas não têm muita importância. Abre a primeira e tira os lenços. Começa a chorar...
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