Roberta não respondeu ao que Carlos queria. Não lhe deu a resposta mais óbvia, ou que tinha gostado ou que tinha detestado. Ficou calada no meio daquelas quatro paredes em tudo já rotineiras e sem ânimo, monótonas entre o chão e o tecto e iguais da esquerda para a direita.
O tempo vai passando, Carlos tem alta ao fim de mais de mais uma quinzena. Era início de Outubro quando ambos entram no avião e acenam aos pais de Roberta, no aeroporto, em Faro. No meio da viagem, o silêncio reinou até Roberta tocar no assunto dos pais de Carlos. Quando ela começa a falar deste assunto, ele interrompe-a, dizendo que já sabia que a mãe e os avós tinham morrido e que estava sozinho, não só na esfera azul e verde, com combinações castanhas, mas também no restante Universo. Roberta pega no joelho de Carlos e aperta-o, dizendo de seguida que Carlos também a tinha. Independentemente de todo o passado, era importante saber que um bom e grande amigo não se esquece, nem pode desaparecer de um momento para o outro.
A viagem de avião termina onde tudo começou, num aeroporto de Londres. Eles, naquele local tão enorme e tão movimentado foram abalroados pela polícia inglesa devido a um atentado bombista que existia naquele terminal. Carlos ignora o aviso e, ainda com a mão no estômago pega na mão de Roberta e corre com ela para a sub-cave do edifício onde estava a limusina à espera deles. Ao passar para a escada rolante que os levava lá são visto por um dos elementos da quadrilha. Devido à mala que Roberta trazia e que tinha posto ao seu peito, não foi alvejada e conseguiu ela, e Carlos, escapar àquela infinita espera que seria, minutos atrás de minutos, horas atrás de horas, e não sabendo e pondo a possibilidade, dias após dias.
Chegaram a casa. O tempo, lá fora era como o escuro e o dentro da casa era como o claro. Havia a razão do oito e do oitenta, a diferença era enorme. Na rua, a monotonia da chuva, em casa, a iluminação raiava em todas as divisões com pessoas.
Carlos diz a Roberta que está com dúvidas quanto à continuidade dela no especialização , porque tinha faltado um mês do seu segundo ano como médica a 90%. Aquele dia chegou ao fim, deixando a cama aberta e pronta para ambos irem descansar, cada um em seu quarto, mas ambos com caras sorridentes.
Na manhã seguinte, é de louvar a capacidade de Carlos para ir trabalhar, o médico português tinha-lhe dado autorização para tal e ele, tinha de ficar a fazer as revisões oncológias no hospital onde iria ser o máximo chefe. Quando chegou ao seu novo gabinete era um grande monte de tralha para assinar. Os papéis já começavam a amarelar de estar ali três meses sem despacho. Os médicos começavam a perguntar o atraso do novo chefe. A primeira coisa que Carlos fez foi uma reunião geral. Com isso, é de perceber o atraso e todo o hospital ficou a saber da situação oncológica dele. Mas não havia hipótese. Quando ele regressou ao seu espaço tinha uma prenda de Roberta bem identificada com um embrulho com o símbolo do Metro Londrino. Ele põe a prenda de lado e chama-a ao seu gabinete...
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