Em Portugal, continua a cirurgia a Carlos. O tempo naquela sala verde, quase toda electrónica passava à velocidade da luz para os médicos e ao relantim para o doente anestesiado.
Após dezasseis horas de cirurgia e três equipas médicas que rotacionaram na cirurgia, é dado a Carlos o último ponto. Este momento dava início a uma nova vida para ele, o fim do stress e do nervosismo e da má alimentação à base de carne e o início da vida calma, tranquila, com uma alimentação à base de fibras. Além de todas as indicações, a quimioterapia, nos próximos meses era inevitável. O forte cabelo castanho-escuro que ele tinha, ia cair. Ele não estava acordado ainda, mas cá fora, já lhe rapavam o cabelo. Mal acorda, e dá pela falta do cabelo, juntando a isso a água que lhe tinham dado indevidamente, o organismo de Carlos entra em falha. Os batimentos cardíacos alteraram-se de forma repentina. O monitor que estabelecia contacto e registava a pressão arterial e os batimentos estava plano. Da boca dele, do nada, começou a sair um líquido acastanhado, muito esquisito e, ao estar sozinho, ninguém lhe podia acudir. Rápida foi a mãe de Roberta, que ao reparar no barulho rápido e esquisito, diferente do habitual, que o monitor fazia chama uma enfermeira e um médico, além de ali estar Josué. Carlos é de novo aberto, noutro bloco operatório, este, já de cor vermelha, com materiais próprios de gastrenterologia e de oncologia médica. As horas começaram a passar de novo, muito mais devagar, para Carlos. Aquela cirurgia era definitiva. Em Portugal não existiam meios para que houvesse tratamento daquela terrível doença. Carlos tinha pedido a Cristina para não ser transferido para outro hospital, queria estar ali, no Algarve, e se tivesse de morrer, que naquele local acontecesse.
Não se sabe ao certo o que aconteceu na cirurgia, mas Carlos sai do bloco, agora entubado, ligado a mais máquinas, como que o fim estivesse perto. O único contacto que o hospital tinha era o de Roberta. Ao ligar-lhe é-lhe comunicado que ela é a responsável pela decisão do futuro para Carlos: ou continuava ligado às máquinas ou o desligavam e a morte chegava. Aos vinte e oito anos, a hora do fim estava mais próxima do que se imaginava.
Ninguém, ao olhar exteriormente para Carlos, não percebia que algo se passava. Na cara de Carlos apenas estavam olheiras, por vezes profundas e quando ele transpirava, de cor avermelhada.
O avião de Londres aterra em Faro. Josué tinha a sua viatura já à espera da filha no aeroporto. Quando chegam ao hospital, e a põem em contacto com o responsável com a equipa de transplantação, Roberta tinha de decidir, ou “o matava” ou “mantinha-o” vivo por mais tempo. Ela, naquele instante relembra-se de uma conversa que Carlos tinha tido com ela, quando estavam no secundário. Ele não queria que a vida fosse prolongada artificialmente, mas naquele momento, Roberta não ligou ao que ele pediu. E comunica ao chefe de transplantes que quer que ele fique ligado às máquinas por mais um tempo, porque queria estar com ele e podia haver como que um milagre e ele melhorasse.
Era apenas uma suposição, ninguém podia nem conseguia prever se tal facto iria ser consumado. Roberta, passou aquela noite no quarto da Unidade de Cuidados Intensivos de Gastrenterologia com Carlos. Ela trouxe a caixa dos textos, e dessa forma, punha-se a ler-lhe os textos que ele tinha escrito, junto ao seu ouvido.
Curiosa estava Cristina, porque Carlos não lhe tinha falado dos pais. Algo se teria passado com eles. Roberta, a partir de um momento, começou a chorar mais. Que se teria passado naquele quarto branco cheio de electrónica?
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