quinta-feira, 12 de agosto de 2010

O antigo desejo de Carlos é a sua doença (XLI) - Uma nova vida em Londres

A distância que os separava não dava para que Roberta o acudisse. Apesar de ter acabado o internato e ter pedido, colocação no segundo ano da especialização noutro hospital de Londres, não estava à mão. Para Roberta, Carlos ainda estava naquela clínica.

Josué, após ter tentado estancar a hemorragia anal que Carlos tinha, não o consegue fazer, porque esta não começava ali. A úlcera estomacal que ele tinha rebentado definitivamente e o sistema imunitário dele estava cada vez mais fraco. Ele não admitia a doença que tinha. Ele não tinha tomado nenhuma medicação. Ele estava-se a destruir em silêncio.

A ambulância chegou. Carlos, voltado de barriga para baixo, é deitado na maca e a distância ao hospital ia diminuindo. A branquidão do interior da ambulância portuguesa contrastava com a cor da pele de Cristina que estava junto dele, apertando-lhe a mão esquerda.

A chegada ao hospital é feita de forma atribulada. Muito pior do que a chegada em Londres. As portas já abertas e o caminho para o bloco operatório quase que directo, ditaram a sentença daquele rapaz, já quase às portas da morte. Põem-no a dormir. Já bastante debilitado, os olhos dele fecham-se após a fraca respiração ter inspirado o anestesiante corporal. Enquanto os médicos lhe abriam o abdómen, Carlos estava quase como a dormir. Ali, naquele local de paredes verdes, estava um homem com um passado enorme. Enorme com “e” grande, desde os gostos esquisitos até às relações mais estranhas possíveis.

As horas iam passando e a “limpeza” corporal continuava. Os médicos tiraram-lhe o estômago. Em vez da sua cor habitual, a cor vermelha contrastava com a negridão da necrose. A seguir foram os intestinos. O apêndice estava completamente destruído. A peritonite pouco tempo faltava para aparecer. O início do intestino delgado, o cego, estava podre. O sistema digestivo de Carlos estava quase todo destruído. Como poderia sobreviver um ser humano sem estômago e sem o início do intestino delgado, sem aquelas supra-micro-fibras e vilosidades que ajudam a digestão.

Cá fora, enquanto Carlos era intervencionado, Cristina tenta, de novo, ligar a Roberta. Ela atende, e a primeira coisa que Cristina lhe diz é que Carlos tem cancro no estômago e que estava a ser operado no hospital naquele momento. Roberta, remexe, após ter desligado o telefone na cara da mãe, no gabinete de Carlos. Encontra três papéis fundamentais: um papel da empresa de conservação de esperma humano, um documento com a proposta de Carlos ir trabalhar para o hospital onde Roberta ia ser “residente” a partir de Outubro e por fim um relatório médico com a indicação de uma neoplastia maligna de grau cinco, o mais elevado e o mais crítico.

Roberta deixa-se cair no chão, e começa a chorar. Sente-se culpada de tudo o que vai acontecer.

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