domingo, 15 de agosto de 2010

Do branco ao cinzento da vida (XLIII) - Uma nova vida em Londres

Algo de especial. Mesmo especial. As lágrimas que corriam pela face esbranquiçada de Roberta indicavam algum choque. Foi ao ler uma dos desabafos de Carlos. Mais uma vez sem título, mas com, um carinho textual inigualável:

“Estou doente. Já sei disso há muito, mas não lhe quero dizer. Há anos… Há anos… Um dos meus grandes sonhos era poder viver e ter uma família com ela. Como estou é impossível. Não poderei viver muito mais anos, e ainda tenho este sonhos. Cada dia que passa torna-se imperativo arranjar uma solução. Após dias e dias corridos, chego a uma conclusão. Eu não posso viver, mas a meiose (a divisão celular) ainda ocorre, eu ainda não estou impotente. Há muito tempo que não doo esperma, mas desta vez o motivo é especial. Não o quero deixar assim, como das outras vezes. Vou à clínica mais próxima de fertilidade e, com alguma boa vontade, conseguirei livrar da doação, os espermatozóides não aptos ou com alguma fracção de DNA alterado que possa trazer problemas ao rebento. De certeza que Roberta não irá gostar da ideia, nem nenhuma vez irá pensar em inseminação artificial. Poderei até estar a deitar dinheiro à rua, mas tentar não custa. Ela deve ler este papel, comigo já queimado, num pote e deixado numa das carruagens do metro mais próximo da cidade onde nasci, mas não interessa. O meu sonho é este, já que não poderei nunca dar uma volta ao mundo com ela, estar sentimentalmente bem com ela, e sem dúvida nenhuma, não poderei sem sombra de dúvidas, poder-lhe dizer que ela é a pessoa mais importante na minha vida mais uma vez, nem que o corpo dela é esbelto, que as pernas dela são perfeitas que a combinação que ela faz com a roupa é de cinco estrelas, que adoro o perfume que ela usa, há anos. É com cara triste que termino este texto, mas não tenho forças para mais. As frases já me custam a escrever. A pensar nenhuma resposta chega. Sempre disse que estava velho, que já tinha dores de velho. E ninguém ligava. Sempre disse que era diferente e apenas ela conheceu-me quase a cem por cento. Era com ela que eu queria terminar a minha vida, com aliança ou não, com filhos ou não, mas com uma certeza, vivo ou morto, sentir-me-ia bem, reconfortado e, sem falta de carinho e amor”.

Carlos continuava em coma, após Roberta ter lido o texto, este em voz baixa. Dá-lhe um abraço forte e tão aconchegado que os cabos que o monitorizam artificialmente são postos em perigo. Por pouco, o ar que ele inspira não era desligado. Ela não dá por isso e ao terminar o aconchego corporal, ajeita os lençóis da cama e senta-se de novo no cadeirão castanho.

Cristina, ao ver a filha destroçada, entra no quarto e fá-la sair de lá, dizendo que precisa de falar com ela, com certa urgência.

Cá fora, já no frio corredor, mas em pleno Verão, inicia-se uma longa conversa. A mãe começa por perguntar a Roberta acerca dos pais de Carlos. Roberta responde-lhe que ambos tinham morrido num desastre de automóvel e que Carlos não o sabia, apenas o sentia. Daí ter ligado para Cristina e não para os pais. A pergunta seguinte prende-se com a relação que ela tinha com Carlos. A resposta a esta questão vem depois de um engolir longo de saliva. Tardou, mas ao primeiro movimento bucal da filha, Cristina adianta-se e pergunta-lhe se eram namorados. Roberta diz à mãe que não. E começa-lhe a explicar:

- Nós temos uma relação maioritariamente confusa. Há momentos em que eu sinto que ele me ama e eu dou a entender que o amo por vezes. Nós somos como pão e queijo, colocados junto um do outro e damos um requinte fenomenal ao outro. Eu, sem Carlos, não era o que sou agora. E de certeza, que, ele sem mim também não o era. Várias vezes ele teve crises de ciúmes, ataques de possessividade. Não obstante, também tinha momentos em que precisava de alguém e eu fui sempre a pessoa mais próxima. Não consigo explicar porquê! Nós tivemos algo que nos juntou assim que nos vimos. Ele tinha e suponho que ainda tem medos. Alguns deles são tão estúpidos como eu me fartar daquela pessoa diferente que eu conheci no meu 10.º ano. É impossível que isso aconteça. Por outro lado, percebo o que ele quer dizer com todos os textos e pontas soltas em mensagens que ele deixou ao longo dos anos e que, eu não lhe disse que reparava. Ele expressava-se de mais e eu de menos. Vou-te contar uma situação: O maior desejo dele era estar um dia comigo, sem pais, sem ninguém. Apenas nós, juntos, como amigos, naquela longa avenida junto ao rio, na nossa cidade. Depois, poder vir a casa e sem problemas, estarmos carinhosamente sentados no sofá, trocando carinhos como os verdadeiros e melhores amigos fazem. Mas ele não conseguiu. Eu não deixei, apesar de saber o que ele queria. Não me arrependo, mas ele esforçou-se ao máximo para seguir medicina e acabou por seguir logística e transportes. Uma área de engenharia que ele detestava. Sinceramente, acho que o vou desligar das máquinas. Ele já fez tanto por mim que agora cabe-me a mim fazer o último desejo dele: “Em coma, não prolongues a minha vida através de máquinas”. Que dizes mãe?
- Fazes bem. Mas antes despede-te dele. Sabes que nunca poderás encontrar alguém que comemore o aniversário de uma amizade e que te dê bola atrás de bola no telemóvel. E muito mais, que, até li, por vezes, em textos que ele te escrevia e que tu escondias de mim e do resto da família. Quando o desligares, ou quando pedires para desligarem a máquina, não tenhas dúvida, sente-o como uma obrigação.

Roberta dirige-se para o quarto de Carlos e entretanto chega o médico com o resultado das últimas análises que tinham feito ao internado. No entanto, quando o médico consegue falar com Roberta, já esta a estava a desapertar o primeiro cabo que mantinha o amigo ligado à vida no planeta Terra.

2 comentários:

  1. Olá...
    Primeiro, deixa-me dizer-te que não tens que pedir desculpas por nada, muito menos por te identificares tantas vezes com a minha história. Podia dizer-te que era bom, que gostava que as minhas palavras fossem as palavras de outras pessoas também... Mas, no caso, fico triste, porque sei que, se te identificas, é porque o teu coração também está bem pequenino neste momento. E eu sei o que custa tê-lo assim, pequenino e partido aos bocados...
    Mas acredito que um dia, mais cedo do que esperas, esse medo vai desaparecer. Acredito que também tu vais ficar mais forte, mesmo que o negues...
    Eu fiquei mais forte - sei-o agora - cresci e aprendi muito. E devo-lhe tudo isso. Sim, a ele. A esse que me partiu o coração mas que, em tempos, o tornou maior, mais cheio e feliz... Devo tudo isto a ele, não o amor da minha vida inteira, mas, ainda assim, um amor, um grande amor...
    Fica bem*

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  2. uau, há já um tempo que aqui não vinha e fiquei sinceramente surpreendida com o desenrolar da história! :O isto siginifica que lhe vais pôr um fim brevemente? :x sem Carlos, não vejo esta história com sentido u.u

    e muito obrigada pelos teus comentários às minhas bolas de sabão ^^

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