terça-feira, 20 de julho de 2010

The life is nothing for me. My number one is dead (XXXV) - Uma nova vida em Londres

Ele não sabia a resposta. Pensava o que era, mas não conseguia decifrar o verdadeiro motivo daquele sentimento. Pega numa folha que encontra junto da mesa de cabeceira e começa a lê-la. Era um dos milhentos textos dele. Quando ele escrevia, quando se sentia triste, mais enfadonho e com menos vontade de vier. Intitulado... "E agora?"

"Sentia-me só na encruzilhada das ruas londrinas, no meio daquela chuva imensa e daquele tempo nublado. Meti-me no computador e escrevi, falei com mais pessoas, expus o meu problema a pessoas que passam pelo mesmo. Mas nada deixava passar a mágoa que carregava dentro de mim. Com a grande bola de nervos, depois de um exame nacional, senti-a a aumentar cada vez mais e mais e mais e mais. Quem me tem parado já não me pára. Quem não falava comigo, passou a falar e aproximámos-nos um pouco. Mas continuo com medo. Sempre, medo atrás de medo, dia após dia, vírgula após vírgula, tema após tema, conversa após conversa, silêncio após silêncio. Continuo sem perceber, como é que dizem que o tempo cura tudo. Era noite, mas não conseguia estar ali. Queria sair daquela monotonia caseira que se tinha instalado na minha casa. Estou FARTO! Estou CANSADO! Tenho MEDO! Quero poder voltar ATRÁS! Mas não POSSO! E volto a começar a lagrimejar. Mesmo assim, saí de casa com grande velocidade. Com uma força de quem quer mudar e esquecer. De quem quer fazer uma maluquice.
Vou até à estação de comboios mais próxima e tento chegar à catenária. Quando estendo a mão, apita o comboio. Com o orgulho pessoal que tinha não consegui pôr fim ao que queria! E voltei a casa, mais sombrio, mais molhado e menos contente. As mãos tremiam mais, os pulmões expeliam especturação, e os olhos piscavam a grande velocidade. Voltei a casa, e encontrei chatices. A mesma chatice que me fez ficar assim, nesta monotonia, neste impasse entre a vida e morte que não quero mostrar-lhe; nesta vida que deixou, muita dela, de fazer sentido. Lembrei-me do que disse a uma das minhas professoras: "The life is nothing for me. My number one is dead". E voltei a ficar a um canto... Abanando o meu corpo contra a parede, escorregando até ao chão, chorando que me uma torneira de água salgada sem possibilidade de parar."

Carlos, ao acabar de ler o que tinha escrito há uns anos amarrota a folha e grita! Vem-lhe um ataque de tosse ensaguentada e toda a gente vem à porta do quarto dele. Mas ele não abre a porta. Ele quer ficar no escuro, sozinho, revoltado, porque entende que o passado ainda é o presente e o futuro vai ser o presente.

1 comentário:

  1. De facto, o tempo é algo que nos inquieta. E inquietamo-nos porque temos receio que o passado se repita... É normal que aconteça: quando vivermos o futuro, os erros e as mágoas de um tempo que já passou, irá fazer-nos peso na bagagem.

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