quinta-feira, 8 de julho de 2010

O sofrimento marcado no chão de algo límpido (XXX) - Uma nova vida em Londres

O vómito que se avizinhava era o último. Emily entra no quarto de rompante e diz que já chamou uma ambulância. Quando esta chegou, foi-lhes dito que Carlos iria ser levado para o St. Mary's Hospital. A noite parecia infindável. No meio de Londres, a ambulância velozmente chega ao dito hospital. Carlos, durante o trajecto na ambulância, desmaia, não recuperando a lucidez no trajecto referido.

Emily, preocupada, segue o ex-chefe dela até ao hospital e pede para o visitar na enfermaria. Ninguém tinha visto Carlos assim. Com soro intravenoso, desfalecido e de olhos fechados sem quase vitalidade nenhuma.

A chefe da casa de Carlos, agora de Roberta, puxa-a pela mão até ao corredor do piso e fala com ela, num tom mais agreste.

"Já viu o que fez ao Eng.º Carlos? Ele adora-a, ele faz tudo por si, ele esforça-se para que não perceba que está mal. Ele desabafa consigo tudo, porque não encontra ninguém tão bom como si, ele não tem mais amigos iguais à Drª.  Ele quer falar consigo acerca de algo, que eu não sei o que é, mas não consegue, porque tem medo, porque já sabe que não lhe irá responder. Ele chora imenso. Ele, quando pensa no futuro, longe de si, mal consegue viver. Em casa, por baixo do quarto de Carlos, ao lado do seu, é o quarto das câmaras de segurança. Nunca reparou nisso, porque eu nunca utilizo essa porta. E, nas câmaras, vejo-o, na maioria das vezes, a chorar, ou a preparar algo para si. Ele admira-a bastante. Mas sente a sua falta, muitas muitas vezes. Pense bem o que fez ao Carlos e deixe o passado de lado. Eu sei o que se passou, ele contou-me quando chegou, naquela noite, todo amarfanhado e mal cheiroso. Se me permite, pense nisso. Não magoe mais Carlos por favor."

Carlos tosse na enfermaria, saindo ainda umas golfadas de sangue, mas em número muito reduzido. Emily, por respeito, aperta a mão de Carlos e Roberta, mesmo sendo médica, grita por ajuda. Carlos diz ainda a Roberta, para ela não se esquecer dos envelopes do "jogo" e para não se esquecer também do último pedido dele: que, se ele entrar em coma, não lhe prolonguem a vida. Deixem-no ir.

O médico chega e diz o que se passou com Carlos. Foram situações de stress acumuladas em excesso. Ele estava a aguentar muitas situações há muito tempo e o seu corpo necessitou de dizer basta de alguma maneira.

Ele pode parecer bem, mas por dentro, quase afirmo, com muita certeza que sente um vazio. Sente falta de algo. Algo que ele sabe que lhe pode ser dado, mas  que não o é, acrescentou o médico.

Emily, após ouvir o que médico lhe disse, retira-se e regressa a casa, enquanto que Roberta vai falar com o médico. Este com ela é mais profundo. Diz-lhe que Carlos tem um grande quadro depressivo, originado por acumulação de stress em demasiada. Acrescenta ainda que não pode ser algo recente, mas sim, algo que vem muito de trás, há largos anos.

Roberta agradece o que o colega lhe diz e vai para junto da janela. Abre-a e vê a monotonia dos tijolos de cor igual que delimitava a outra ala do hospital. Ela começa a pensar, mas não diz nada. Carlos continua a dormir, após ter acordado com o ataque de tosse, mas deram-lhe um tranquilizante forte. O coração de Carlos era audível quando Roberta estava ao seu lado sentada na cadeira junto à cama. Batia fortemente. Roberta achava que Carlos estava a pensar nas causas da sua depressão, dos seus ataques de choro, do que sentia a falta. E quando Carlos, mai tarde, já de manhã, acordou, estende a mão para Roberta a apertar.
Esta não o faz, mas Carlos, como estava fraco, deixa-se mais uma vez dormir e não percebe tal acção. Nota-se, mais tarde, lágrimas a sairem dos olhos de Carlos, quando Roberta os abriu para verificar se as pupilas estavam em "boas condições". Ela ficou pasmada com o resultado.

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