sexta-feira, 23 de julho de 2010

Ele estava longe, mas perto (XXXVIII) - Uma nova vida em Londres

A cegueira levou a que Carlos, dias mais tarde, fosse parar a uma clínica de recuperação no meio do mato, longe de Londres, longe da cidade, perto do campo. Para ele, o que contava era o adorável cantar dos passarinhos e o rico cheio do campo, quase sem gases automóveis, sem fábricas. O que ele tinha pena era de ouvir, com muita frequência, os pingos da chuva na branca e nova janela do quarto. Mas os quadrados na vista continuavam. A tensão ocular continuava altíssima e nada a fazia baixar.

Roberta, após ouvir a opinião do colega que lhe tinha ido levar a bata, pôs Carlos na tal clínica. Naquele casarão o silêncio voltou a reinar. As confusões deixaram de existir. E o quarto de Carlos estava vazio. Sem roupa. Sem calor. Sem luz. Com as cortinas fechadas. Sem um pingo de água. Já com pó na mesa de cabeceira.

Ele podia estar longe, mas a sua mente estava perto, muito perto, mas ao mesmo tempo, com uma grande confusão.

Com muita calma e com uma baixa velocidade, Carlos sai do quarto e vai dar uma volta ao longo do terreno adjacente à clínica. Com a guia de metal envolvida em alumínio, ele segue pelo caminho mais próximo que encontra, mas não tem a noção que está a seguir o mais sinuoso e menos apropriado para ele.

Aparece-lhe um dos seus grandes amigos do secundário, mais uma vez, Joaquim. Joaquim, que Carlos tinha encontrado há uns meses no meio de Londres, trabalha agora naquela clínica, longe de tudo, como assistente de um dos mais conceituados médicos. Ele impede Carlos de cair no buraco que se avizinhava na estrada. Ele leva-o para a sala de convívio e tenta pô-lo a falar. Carlos continua a ter a pulsação acelerada, mas acaba por contar a Joaquim do cancro que tem no estômago. As lágrimas de Joaquim acorreram à sua face. A limpeza do chão da clínica contrasta com o local onde Joaquim estava, onde na sua direcção, tinha uma mancha de água lagrimal.

E Carlos comenta que "ela não responde"... E Carlos sente que Joaquim não está bem e tenta abraçá-lo. E Carlos quer recuperar a visão, mas não consegue. E Carlos quer sentir aquele cheiro do perfume belo dela, poder acarinhar tal suava face, mas não pode!

Põe a mão na cabeça e dá com a bengala-guia na perna, de forma a tentar partir esta parte do corpo humano. Depois disto, pede a Joaquim para ele ligar a Roberta e dar-lhe a próxima pista para ela descobrir o que realmente era um os desejos de Carlos. Após Roberta atende e de passar a parte inicial da conversa, Joaquim lê assim num papel que Carlos tinha escrito no computador, dias antes de ficar cego:

"De facto, o que é mau, acaba sempre por chegar. Mas o bom, o melhor de tudo, o fim de algo bom, para se avançar, ainda demora muito mais depois do mau. Estive quase lá no fim de algo bom, para subirmos mais um pouco, mas estraguei tudo com a minha tolice. Pensa de forma mais adolescentícia para resolveres esta pista".

Roberta, do outro lado do telemóvel, diz que aponta a pista, mas, que vai tentar percebê-la, porque não conseguiu decifrá-la pelo telefone. Carlos, de cabisbaixo, dá um ligeiro sorriso quando Joaquim se despede de Roberta. Este, ainda diz à grande amiga de Carlos que ele tinha tido um ligeiro sorriso na face, mas que era algo pouco.

Ela, em Londres, dentro do grande casarão começa a pensar, começa ver os dias a irem para trás e para a frente, e Joaquim longe e o colega que lhe foi trazer a bata, tinha-lhe passado a ignorar, por motivos que ela sabia muito bem: inveja. O que ela poderia fazer? Estava a quilómetros de distância, e tinha a grande caixa mágica da vida, o coração, nas mãos.

1 comentário:

  1. Não me invejes.... A sério!
    O que escrevi foi dito da boca para fora. E escrevi-o porque sei que ele espreita o blog de vez em quando. Mas, cá dentro, onde as dores se sentem, as coisas não estão assim tão bem resolvidas... Não queiras ser como eu.
    Ah, espero que estejas certo em relação ao fim de semana. Não anseio que seja o melhor, mas que seja bom :)

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