segunda-feira, 28 de junho de 2010

O frio aconchega um corpo quente (XXIV) - Uma nova vida em Londres

As vinte e duas horas aproximavam-se, até que Carlos recebe no seu gabinete uma chamada do Ministro dos Transportes do Reino Unido, dizendo que não era necessário entregar o estudo no dia seguinte, mas sim, na semana seguinte.

Contente e sorridente, quando saiu do local de trabalho, repara no telemóvel e vê que a hora de jantar tinha passado ao lado e que o que ele queria fazer era descansar em casa, junto ao seu peluche de estimação e da fotografia que ele mais adrava. Bastava encontrar essas duas coisas materiais para a noite ser descansada.

No quarto de Roberta, esta tinha visto a entrevista mais do que dez vezes e repara no barulho que os sapatos de Carlos faziam. Ela exclama "Ele chegou!", mas quando chega ao quarto de Carlos, ele já está deitado junto do tigre que era gato e de uma fotografia que estava caída no chão. Uma memória do secundário, uma fotografia que estava semi rasgada num dos lados, mas ainda aguentava a junção. A cara de Carlos era de sorriso. Roberta questionou-se o que é que ele estaria a pensar. Senta-se na cama e começa a fazer festinhas no cabelo curto de Carlos. Ele ainda se aconchegou mais, mostrando carinho e afecto pelo que lhe estavam a fazer. Quando Roberta notou que Carlos estava acomodado, volta para o seu quarto e deixa-se dormir com um sorriso nos lábios também.

A manhã avizinha-se, mas para Carlos, desde as três da madrugada que o sono tinha dito adeus. Carlos tinha saído de casa ainda cedo como um dia normal fosse, banho tomado, mas com a barba por fazer. No trabalho acabou o que faltava do projecto e regressa a casa ainda cedo, sensivelmente pelas catorze horas. Esfomeado, pede para lhe arranjar duas peças de fruta e para lhas levarem ao quarto. Vai ao quarto de Roberta de seguida e repara que a roupa não estava arrumada. Passa-lhe então a ferro a bata que estava amarrotada e faz-lhe a cama, beijando o canto direito dos lençóis. Depois disso veste roupas de fato-de-treino e sai de casa, não voltando nesse dia.

Chega a um dos jardins mais movimentados de Londres, Bushy Park, e, com o chegar da noite e o frio e chuva forte senta-se junto de um veado que estava sozinho no parque. Mas por pouco tempo o veado ali ficou. Perto de onde Carlos tinha-se deitado, só e na escuridão da noite, estava uma casa que alimentava os animais. Sem forças, ele tenta chegar até lá, mas o ódio, o cansaço e as dúvidas eram tantas que ele ficou no meio do caminho. Mas ele acorda, na manhã seguinte junto de uma família chinesa, ao lado de um grande espaço de cultivo de trigo. É-lhe dito que o veado o trouxe até eles e que, por pena, o tinham abrigado.

Ele rapidamente desculpa-se e sai a correr da casa, parecendo já um macaco do que um humano. Todo torto das costas, barba por fazer, a rastejar encontra um papelão no chão e começa a pedir esmola. Ninguém lhe ligou. Dormia ali durante o dia, passasse quem passasse, ladrassem cães ou miassem gatos. A chuva estava a molhar os papelões a uma velocidade cada vez mais rápida e a pele dele estava cada vez mais branca. Sem vitalidade quase, até que uma senhora de idade o ajuda a levantar e leva-o para a casa de auxílio ao mais necessitados que existia junto daquele parque. Ele comeu uma vez mais, trouxe cobertores e pôs-se numa estação de metro próxima que estava fechada há mais de cinquenta anos e alojou-se ali. Sem mais nem menos, aquela estação fria, cheia de pó e onde as carruagens da Piccadilly Line passavam dava para o abrigar com mais ou menos um espirro. Carlos queria fugir à rotina de chefe, às dúvidas que tinha, às responsabilidades que ostentava; Ele queria poder chorar pelo mau passado que teve sozinho, sem ter de colocar máscaras atrás de máscaras e fazer-se de sério. Teve várias vezes à beira da linha de metro para se tentar matar, mas quando ele fazia isso, era de madrugada, e não passavam comboios na linha. Ele queria-se pôr nos carris e sentir os ossos a partir e a cabeça a ser "estragada" pela primeira roda do seu metropolitano.

Fonte da Fotografia: http://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/4/42/Fallow_deer_bushy_park.jpg

sábado, 26 de junho de 2010

Faz-me sorrir uma vez mais (XXIII) - Uma nova vida em Londres

Roberta bate com a mão na testa dizendo que se tinha esquecido da bata que precisava que Carlos a passasse a ferro. Mas lembrou-se que, apesar de no dia seguinte ser sábado, ela não iria trabalhar, ao invés de Carlos.
No escritório do chefe máximo dos transportes de Londres, o tempo ia ficando cada vez mais curto para a entrega daquele estudo. Eram vinte e uma horas e vinte e um minutos. Ele tinha de acabar o estudo até às vinte e duas, hora em que o edifício encerrava portas. Faltavam-lhe três capítulos, excluindo a introdução e a conclusão. Carlos já punha as mãos no ar, barafustava consigo próprio, e culpava a secretária de tudo, e da falta de profissionalismo dela. Até que se lembrou que no final do décimo segundo ano tinha comprado um dispositivo que transformava o que era dito pelo humano em escrita no computador. Foi um alívio.

Carlos tinha levado aquele dispositivo para o escritório na última vez que lá tinha ido, mas estava a pensar dá-lo a alguém.
Por outro lado, e voltando à casa de Carlos, Roberta repara uma vez mais no DVD que estava na cabeceira e abre-o. Não tinha qualquer indicação do que era e se podia ser visto ou não. Como curiosa que é decidiu colocá-lo no leitor de DVD do escritório da casa de Carlos.

Começou por ver publicidade do canal de televisão generalista estatal inglês, mas rapidamente começa um talkshow especial numa estação de metro. Roberta começou a pensar que estava enganado, visto que ela não gostava de transportes, mas sim Carlos. No final de contas, passou-se mais um minuto do programa gravado e a entrevista começa. Roberta presta atenção e repara que tudo lhe é familiar:

- Entrevistadora: Bom Dia Srs. telespectadores, hoje estamos aqui, na estação de Tower Gateway para fazer uma entrevista especial a uma das pessoas mais importantes de Londres. Esta pessoa tem sido muito falada ultimamente e muitos londrino têm estado contra as suas reformas. Aí vem, o chefe máximo dos Transportes em Londres, o Eng. Carlos Bráz.
Bom Dia, sr. engenheiro. Diga-nos então como chegou a Londres e veio parar agora a chefe máximo dos nossos transportes?

 
- Carlos: Olá a todos. De facto foi uma escolha muito difícil ter vindo para Londres. Estive bastante tempo centrado na minha pátria, Portugal, e vir para aqui alterou muito do que eu era enquanto pessoa. Bem, ao acabar a faculdade TfL convidou-me para estagiar aqui em Londres e claro que eu aceitei. Eu adoro o sistema de transportes de Londres.
 - Entrevistadora: Excelente. Mas de facto não era logística e transportes que queria seguir pois não?

- Carlos: Não, não queria seguir nada relacionado com transportes, apesar de ser ter gostado deles desde pequeno. Estive muito mais ligado à área da saúde e ao contacto com as pessoas. Detestava o trabalho de fato e horário fixo das 9h às 17h.


- Entrevistadora: Mas rendeu-se às evidências e tornou-se o nosso "chefão". Fale-nos um pouco acerca de si, porque é que decidiu mudar todo o metropolitando? Para que tantas mudanças?


- Carlos: De facto são mudanças que irão alterar a 100% a vida dos cidadãos de Londres, mas eram reestruturações necessárias. O nosso sistema de metro estava e em algumas partes continua a estar bastante degradado e com falta de acessibilidade a pessoa com mobilidade reduzida, e, perante a União Europeia é necessário progredirmos e evoluirmos para a completa adaptação para todos poderem usufruir do modo de transporte da mesma maneira.

- Entrevistadora: Muito interessante esse seu ponto de vista. Diga-me agora outra coisa, disseram-me que não gosta do Verão. Porquê?

- Carlos: O Verão é uma estação do ano que nos deixa com calor e eu sou bastante friorento, não gosto muito de calor. Gosto muito de praia, mas confesso que nada melhor que a neve e as montanhas. Além do mais, a chuva e o frio, o vento e a neve inspiram-me e dão-me um maior rendimento a nível do trabalho.


- Entrevistadora: Então agora outra questão. A maioria das pessoas, especialmente as raparigas da sua idade estão curiosas para saber porque é que não se mostra à população londrina e porque é que não se deixa levar pelos caprichos próprios da sua idade?


- Carlos: Tudo isto começou quando eu conheci a pessoa que mais me marcou até hoje a minha vida - a minha grande e respeitosa amiga Roberta. Não sinto necessidade de me expor ou de procurar ajuda, porque sinto-me completo e feliz. Estou bem comigo próprio e percebo que se amar alguém isso chegará até mim.


- Entrevistadora: Interessantíssimo o que disse! Essa sua grande amiga Roberta poderá ser a sua companheira para o futuro?

- Carlos: Sinceramente, não acho. Eu e ela conhecemo-nos há bastantes anos, mas não nos amamos. Apenas temos uma grande e aberta relação de amizade. Ajudamo-nos mutuamente, abraçamo-nos e brincamos quando temos de brincar, mas não temos nada, nem achamos que devemos ter, mais do que uma relação de amizade no futuro.- Entrevistadora: Vejamos isso então daqui a uns tempos!!! Assim foi a entrevista com o nosso chefe de transportes em Londres. Obrigado por ver o nosso canal e a seguir vêm as notícias. Uma vez mais obrigado!"

Roberta ficou pasmada com o que Carlos disse. Não sabia como reagir a tanta coisa que ela já sabia, mas Carlos nunca tinha dito em público. Ela ficou boquiaberta no meio do quarto, em pé!

sexta-feira, 25 de junho de 2010

O objecto ignorado (XXII) - Uma nova vida em Londres

Roberta veste o pijama e dá uma volta pela casa, ignorando o DVD que estava em cima da sua mesa de cabeceira. Após tal volta, liga-se à Internet e começa a conversa com os amigos de Portugal. Mal entra no software de mensagens instantâneas repara que Carlos estava online e tenta falar com ele, mas, ele desliga-se antes de receber a mensagem de Roberta.

Carlos tinha acabado o trabalho, estava despachar para regressar a casa, quando a secretária informa-o que vai ter de fazer mais um estudo, visto que a regra da empresa onde ele trabalhava obrigava que fosse o chefe a realizar tal estudo - o de mobilidade a curto prazo (um dos mais difíceis) que tinha de ser entregue até ao dia seguinte; que por erro da secretária devia ter chegado à secretária de Carlos há um mês. A face de Carlos era como uma água poluída, sem vitalidade, com grandes olheiras e pouca vontade de trabalhar. Mas aquele estudo tinha de ser feito, por isso, liga para casa e avisa que não sabe a que horas vai chegar. Nesse telefonema não se lembrou nenhuma vez de Roberta. Ao desligar o telefone, é-lhe dito que adoraram tal entrevista daquela manhã.

Roberta vai ao quarto de Carlos e não o vê. Começa a imaginar coisas erradas, à partida, devido àquele bilhete que ele lhe deixara de manhã. Lembra-se de ir à caixinha dos textos e maravilhar-se com mais uma escrita por Carlos.

Desta vez calhou na rifa um texto que Carlos queria dedicar a Roberta, mas nunca tinha tido coragem, que tinha como tantos outros a mesma mensagem de sempre:

"Quero-a. Ela é minha amiga. Minha amiga, é importante para mim. Ela completa-me. Sinto-me livre com ela, a falar com ela, a sentir-me junto dela, a  pensar nela. Digo-lhe isto tantas vezes de forma indirecta. Ela é a minha companheira em quase todas as conversas. Aprendi muito com as conversas mais pessoais com ela. Senti-me como ouvido. Ninguém queria ouvir tudo o que eu tinha para dizer. Mesmo que não a perceba sempre, gosto dela na mesma. Ela é minha amiga".

Roberta chora, levando a caixa para o quarto, vendo uma vez mais o DVD em cima da mesa de cabeceira.

A água quente do chuveiro (XXI) - Uma nova vida em Londres

Depois de todos os berros, "falas alto" e afastamentos, Carlos calou-se. Roberta manteve-se calada. Carlos, já calmo, volta para junto de Roberta segreda, mexendo-lhe nos cabelos: É um facto que a calmaria da nossa relação contrasta com afastamento e gritos. Mas não, não me arrependo nem fico chateado. Posso rebentar de tristeza por sentir a tua falta, mas também posso rebentar de alegria por te ter junto de mim.
Puxa-a da cama e entram os dois na casa-de-banho. Minutos mais tarde ouvem.-se risos dentro da casa-de-banho. No fundo eram eles dois a abraçarem-se. Com respeito, nada mais aconteceu. Ao saírem já secos com o robe novo que Carlos nunca tinha estreado, deitam-se juntos na cama e começam a falar:

- Fazes-me sorrir quando queres, Roberta. Estes abraços deixam-me completo. Fazem-me ver o mundo doutra forma... Ai...(suspirando)
- Ainda bem, no fundo os amigos servem para ajudar - responde Roberta.
- Vou-me meter debaixo dos lençóis até amanhã, estou cansado (mostrando cara triste).
- Eu durmo aqui contigo esta noite, ou melhor, dormes tu aqui comigo, porque o quarto é meu, indica com um sorriso Roberta.

Abraçados deixam-se dormir. Quando Roberta acorda sente e depois confirma com a visão que Carlos não estava no quarto. E que tinha um bilhete na sua cama:

"Não te quero pedir desculpa. Já me excedi nas desculpas desde que te conheço. Mas não consegui ficar ao teu lado a noite inteira. Vieram à minha cabeça os teus silêncios e as memórias más. Os teus silêncios sempre indicaram que eu devia parar e mudar de assunto, ou de lugar. Que não estavas interessada naquilo que estava a falar, ou simplesmente até nem te importavas de ouvir, mas não querias saber daquilo pela minha boca. Não consigo viver o presente, com o passado para resolver"

Carlos tinha uma entrevista marcada, mas desta vez fê-la numa estação de metro. Na que ele mais gostava: Tower Gateway. Foram falados temas acerca da vida pessoal do chefe máximo dos transportes em Londres. As funcionárias da casa de Carlos ouviram-na do início ao fim e, gravaram-na, para a poderem rever num futuro próximo.

Quando o entrevistado acabou a entrevista, sai, de cabisbaixo, indo directo para o seu escritório. Assim foi, entra no metro, não sendo reconhecendo, por estar a utilizar bigode e barba falsa; ao chegar ao gabinete começa a trabalhar ficando ali até à hora de jantar.

Por outro lado da cidade de Londres, Roberta estava no seu último dia de uma especialidade. Passaria para a Psiquiatria de seguida, na semana seguinte. A bata branca que Roberta ostentava mostrava uso e necessitava uma lavagem profunda. Ela lembrou-se que quando Carlos lhe lavava a roupa esta ficava-lhe muito macia e limpa.

Roberta chega a casa e vê um DVD na sua mesa de cabeceira...

quarta-feira, 23 de junho de 2010

A medianez de um segmento de recta (XX) - Uma nova vida em Londres

Carlos continuava a afastar-se. Chegou à porta do quarto e fugiu com o portátil na mão. Meteu-se no quarto dela. Mas esqueceu-se de trancar a porta. Pé ante pé Roberta aproxima-se de Carlos e ele volta-se e mostra-lhe um documento, ou melhor, uma imagem que tinha no PC. Era um printscreen com mais do que seis anos, que ele guardara religiosamente consigo.
Roberta não tinha percebido que Carlos tinha ouvido a porta do quarto dela a fechar e daí, quando ele sentiu a doce e esbelta respiração de Roberta "espetou-lhe" a imagem que tinha no computador. Ele levanta-se e comenta em voz alta:

"- Espero que agora percebas porque é que vim para Londres. Não foi por tua causa. Foi pura coincidência... Custa, mas foi pura coincidência. Mais custa é ver essa imagem que está à tua frente e sentir que não fui capaz de entrar no que queria. Esforcei-me o que pude e não consegui. Não te atribuo culpa, mas culpo-te por não me teres apoiado. Eu até posso não ter sido claro, mas sabes bem que não sou explícito em nada. Apenas consigo falar em códigos. Se me conhecias tão bem, devias ter percebido cada vírgula mal posta, cada ponto final exageradamente utilizado, cada falta de mensagens sentida e mal justificada. É isso que me deixa com estes comportamentos todos. E eu o que é que te fiz? Quando foi o contrário, estava eu em baixo, mas mesmo assim, deixei-te palavras bonitas, porque não podia actuar contigo, porque não existia teletransporte. Ainda me lembro da SMS que me mandaste antes de um exame. Ainda penso nela como apenas uma mensagem para eu me sentir bem, e não como uma mensagem verdadeira. Tudo isso e o facto de não ter conseguido o que queria e ter-me alistado à logística dá-me a entender que sou um falhado. Até ao ponto de mandar a secretária carimbar 200 papéis e eu estar a visitar o Zoo.
Queres que te diga mais?
Até te digo... Sai naquela estação de metro porque estava cansado de me lamentar por estar ao pé de uma colega, amiga ou o que sejas, que estava a sorrir. E eu não consigo sorrir, porque não fui bom naquilo que devia ter sido."

sábado, 19 de junho de 2010

Os animais (XIX) - Uma nova vida em Londres

Após ter deixado o bilhete, Carlos sai de casa e vai trabalhar. Come no café que existe ao lado do seu importante local de trabalho o pequeno almoço tradicionalmente britânico. De seguida sobe no elevador até ao seu gabinete. Quando chega à porta vê mais do que 200 documentos para analisar. Ele fica bastante surpreendido. Corre o risco de serem documentos perigosos, mas pede à secretária para carimbá-los todos, enquanto que ele verificava as novidades acerca das obras e de outros assuntos relacionados com concursos financeiros. Fica demasiado entusiasmado porque a Rainha tinha-lhe dado uma grande margem para a remodelação do metro londrino. Com todo aquele dinheiro, poder-se-ia pagar as remodelações de mais 25 estações do que estava planeado. Por espanto de todos deixa todas as novidades, e mesmo estando entusiasmado sai do gabinete e abandona o seu local de trabalho. Portava-se assim como um político que apenas se preocupava com votos.

Decide, de rompante, ir ao Jardim Zoológico da cidade londrina. O entusiasmo continuava. Carlos sempre gostava da Natureza e dos animais. Podendo ter medo de alguns seres vivos, entra com satisfação naquele belíssimo parque animal e não só. Ao pensar em Jardim Zoológico e estar dentro de um, apesar de numa cidade diferente e num país diferente memórias não lhe faltavam. Ele sentou-se numa sombra, puxa da caneta e do papel e começa a escrever, junto ao local dos leões:

"Pode ter sido a muitos quilómetros de distância, mas foi num zoo que deu para começar a entender que algo não estava bem. Não entendi à primeira, mas fui amadurendo a ideia de tal coisa. E de facto era verdade. Passou-se mais de um ano e apenas aí é que percebi que o remédio é seguir a linha curva condutora das relações de amizade e não tentar puxá-las para outros locais. Foram precisos mais do que 365 dias para isso acontecer. Enfrento agora a realidade sempre com algo atravessado na garganta porque não consigo realizar o que desejo, mas, de facto, penso que se não o consigo, não é por não tentar: é por não ser bom para o fazer. Não quero melhorar, tenho de continuar a ser verdadeiro e justo para comigo. Só depois é que vêm os outros, só depois é que posso pensar em tudo o resto, apesar de não conseguir dividir tal coisa muitas vezes.
Não quis trabalhar mais! Tinha de espairecer e vim para o Zoológico.
Sonho e imagino uma utopia. Desejo a impossibilidade relacional. E já me repeti. É um dos meus grandes problemas. Repito-me frequentemente e além disso tenho consciência de tal repetição. Acho que descobri porquê...Mas não faz sentido tanta insistência..."

Ao chegar a este ponto, Carlos é chamado por alguém. Era Joaquim. Carlos levanta-se a cumprimenta o seu amigo de secundário. Conversam enquanto continuam o passeio pelo Zoo. Aquele sítio era local de trabalho de Joaquim. Passadas cinco horas despediram-se e Carlos regressa a casa. Chega ao seu quarto e fica em boxers, verificando de novo as entradas de correio electrónico e, com mais atenção, lê o e-mail que recebeu das altas instâncias, mas é surpreendido por Roberta vestida de bata branca, o seu "uniforme" de trabalho. Fala-lhe dizendo boa tarde, continuando de seguida a ler o e-mail recebido. Roberta faz cara séria e senta-se junto a Carlos. Carlos desvia-se. Roberta chega-se para junto de Carlos pela segunda vez e ele afasta-se novo. Roberta pergunta porque o afastamento e Carlos responde que se afastou porque quis. Roberta confronta-o dizendo que iam reviver os momentos do secundário e Carlos responde que está bem. Baixa o monitor do computador e fala com Roberta. Repetiu tudo o que lhe tinha dito e que não tinha sortido efeito, terminando com a frase: "(...) se não queres diz-me e eu saio. Mas saio não só de casa. Saio de mais sítios."

Roberta calou-se e põe a mão junto das boxers de Carlos; ele afasta-se de novo.

Fonte da Fotografia: http://www.londonpass.com/languages/german/images/sections/attractions/londonZoo.jpg

segunda-feira, 14 de junho de 2010

A decisão foi tomada (XVIII) - Uma nova vida em Londres

Já noite cerrada, Carlos veste-se com as piores roupas que tinha. Ao sair bate com a porta de forma estrondosa, algo que nunca havia feito de propósito. As lágrimas corriam-lhe pela face, a cara de esforço para tentar contê-las quase que fazia com que a cara abrisse os poros demasiado e começasse a sangrar. As mãos estavam de tal forma contraídas e com pressão que ele era capaz de dar um grito no meio da rua ou fazer alguma parvoíce irracional.

Sem mais nem menos, e sem saber onde ia parar, seguiu na direcção da China Town. Quando se apercebe de tal entrada naquela zona corre loucamente para a prostituta mais próxima. Trá-la para um beco e dá-lhe um pontapé tão forte que a faz não mexer os joelhos. De seguida paga-lhe 1000£ e deixa-a nua.
Quando Carlos cai em si, percebe que ali não pode estar. Que não devia ter feito o que fez, que se havia tornado num homem mal educado e sem educação. Senta-se a um canto e oferecem-lhe um cigarro, mas um cigarro diferente. De certeza que era droga. Ele dá-lhe um murro na pessoa que lhe tinha "dado" tal droga e foge de tal sítio. Alguém puxa-o do meio da rua, estando coberto com uma capa parecida à de um missionário.

Começam a conversar e Carlos responder mal à pessoa que o ajudou. Joaquim responde-lhe dizendo que ele já nem conhece o amigo. Abraçam-se incondicionalmente e Carlos volta a chorar. Joaquim diz-lhe que não é preciso contar nada porque Roberta já o tinha feito. Acrescentou que ele devia ter aprendido a lidar com tais situações de silêncio ainda no Secundário português e não continuar-se a atormentar anos fora como fazia.

Carlos respondeu que o fazia porque não encontrava nada que não fosse mau em tal comportamento. Joaquim calou-o à força. Levou-o para casa e, à porta, deixou uma mensagem para ele: "Pensa no que fazes cada dia e não tentes mudar o que não consegues, tenta sim adaptar-te ao que tens". Carlos ouviu e baixou a cabeça. Quando subiu e vestiu o pijama não estava ninguém no quarto, nem qualquer mensagem de despedida. Depois de desligar a luz e fechar os olhos, tentando assim descansar... Começa a ouvir vozes... "Let's go dear...Let's go..." de forma tão suave; Carlos ignorou tais vozes e chegou-se para o lado direito da cama. Deixando que quem tivesse dito tais expressões pudesse deitar-se no lado esquerdo a seu lado. Depois de se deixar dormir sonhou com a altura em que estava a passar para o 12.º ano. Lembrou-se das dúvidas em relação a mudar de escola, os prós, os contras, as saudades que tinha, os textos, os sons; era como estivesse a reviver aquela situação de novo. Quando ele tomou a decisão, e estava a sonhar com essa parte da vida, acordou. Tinha de voltar ao trabalho, mas deixou um pequeno bilhete para quem fosse que estivesse ao seu lado.

"Dear Person,
Let's go to work... And see our memories in the evening. The 12th grade was very very grateful for me and we were together".

Fonte da Fotografia: Google Images

sábado, 12 de junho de 2010

Começar do 0... (XVII) - Uma nova vida em Londres

Carlos continuava no chão à espera que Roberta dissesse algo. Ela não disse. Ela não disse nada. Ele fartou-se. Estava cansado daquela situação. De rompante levanta-se e vai à caixa das memorias. Tinha lá um texto que era de 3 páginas A4 sem verso. Era enorme. Carlos vestiu o robe do banho e pôs-se a ler em voz alta o que tinha escrito... Não tinha entitulado o texto desta vez.

"Pouco antecediam as dez horas e quarenta e cinco minutos da manhã de vinte e dois de Janeiro de mil novecentos e noventa e quatro, nasci. Estava sentado, segundo a minha mãe, assim sendo foi um parto de ceseriana. Acho que tive certos problemas após o nascimento, uma vez que tinha bebido algum líquido amniótico, o que me fragilizou o estômago. Memórias não tenho minhas até aos três anos, ou seja, até ao ano de mil novecentos e noventa e sete.
Até tal data factualizo aqui o que ouvi da boca dos meus avós maternos e da minha mãe; tinha cerca de um ano e meio quando os meus pais se divorciaram. A partir dessa data passei a pernoitar na casa dos meus avós maternos.
Tendo em conta o que me é dito por eles, tenho passagens engraçadas as quais retrato aqui, como a meio de uma viagem para Odeceixe, onde passo férias, parou-se junto a um café na estrada nacional para me darem uma sopa quente. Chego a mil novecentos e noventa e sete. A partir deste ano, com três anos de idade, tenho vagas recordações, como o estar com o meu pai a comer um iogurte e ele não me ligar nenhuma, de estar sentado no braço do sofá da casa dos meus avós a falar com o meu avô e de limpar o sangue que tinha no lábio com a almofada, que agora, após muitas lavagens ainda ostenta uma marca da tenra sanguinidade. Foi também aos três anos que os meus avós me ensinaram a escrever e a ler. Quando começo a escrever repararam que eu utilizava com bastante frequência a mão esquerda. O facto de eu escrever da direita para a esquerda e sob o efeito espelho, bem como o facto de eu colocar os tiles nas palavras ao contrário (coisa que ainda acontece), tinha sido explicado. Foi com tal dedicação dos avós que me habituei ao leite no biberão de hora e meia em hora e meia o que fez esgotar os meus avós. Para além disso a 'bubu', a chucha era apenas utilizada em casa naquela idade. Aos cinco anos, em Odeceixe, habituei-me a beber o leite normal dos adultos, até lá queria sempre beber o leite da Nestlé que, por ter figuras infantis no cartão, eu apelidava tal embalagem de 'leite dos meninos'. Foi também aos cinco anos que diminuiu a companhia do avô nas viagens de autocarro, e também reduzi ou quase que eliminei o fanatismo por carros do lixo; no entanto, o gosto pelos transportes ainda perdura agora.
Em Junho de mil novecentos e noventa e nove, após um ano de ATL no período da tarde e sem qualquer jardim-de-infância e pré-primária, peço à minha mãe para entrar à escola. Aí todas as portas se fecharam por ser pequeno. Fiz testes na psicóloga, que, apenas me lembro de errar na figura das dobradiças da porta. Finalmente, e já com testes feitos à minha mãe para saber se sabia lidar com pessoas como eu e com o apoio reduzido mas precioso da DREL consegui entrar na escola. Foi num colégio privado e aí começaram a surgir problemas. Paralelamente ao colégio andava na ginástica e mais tarde na natação. No primeiro ano era todos os dias 'achapadado' pela minha colega Lara, e além disso, pernas e braços tinham sempre nódoas negras. Relembro-me também de todas as situações caricatas, como ter a responsabilidade de ir tirar fotocópias, chamar os colegas para as aulas, etc.
Com todas as represálias que tinhas com as batidas sofridas, tornei-me mais frágil e mais meu. A restante primária é passada com relativa facilidade, realçando que no primeiro ano, os vómitos que o cérebro induzia e as aulas que me dispensavam. Um facto ainda bastante curioso era o toque do meu telemóvel na altura - quando a minha mãe me ligava o toque do telemóvel fazia-me lembrar a escola. O ser diferente dos outros, já na primária, obrigou-me a ouvir, desde tenra idade, mentiras e boatos acerca da minha orientação sexual.
Ao entrar para o segundo ciclo do ensino básico, e ao pensar, que todas as bocas desapareciam, estas tornaram-se cada vez piores. A 'salvação' foi ter conhecido três raparigas que, para mim, são as minhas melhores amigas. É também no quinto ano que me propõem dar uma aula de HGP. Aceitei o pedido de imediato e passei a ouvir bocas como o ser graxista, além de todas aquelas sexualistas. Elas duraram até ao final do Ensino Básico. Nem todo o ciclo prepatório foi um mar de rosas.
No sétimo ano toda a gente pôs em causa o meu conhecimento da à parte reprodutora humana. Eu sempre afirmei que uma professora estava grávida e ouvi represálias da própria professora. Confirava-se, um mês mais tarde que a professora estava grávida, mas de gémeos. Acho que nessa altura era uma boa companhia: foi nesse ano que conheci vários colegas que agora são da minha turma: o Jorge, o Diogo, o André, a Ana Raquel, a Satu, a Ana Farinha e relembro a Inês. Acabo o sétimo e chega o oitavo. Pior não podia ter sido...
Não a nível de rendimento escolar, mas foi no oitavo ano que aprendi uma das maiores lições da minha vida. Os outros, aqueles outros em quem nos tínhamos confiança, acabam por ser apenas um género de amigos da onça. Tornei-me muito mais sério do que era, com o que a vida me ensinou. Não poderei esquecer que por um dia toda a minha turma me ignorou. Foi também nestes dois anos (sétimo e oitavo) que retiro a caligrafia da minha professora de CFQ e de História para escrever. Ainda escrevo da mesma maneira que elas.
Passa-se mais um Verão e o último ano do Ensino Básico alberga-me. Não se passou nada de especial, apenas realço que, durante um mês, enviei para uma colega, que segundo eu, eu estaria apaixonado por ela, mas não. Ainda não falei muito na minha vida amorosa, de facto até ao nono ano não tive grande preocupação com as raparigas dessa forma. Apenas acho que tive o tal fraquinho que dizem por um ou outra vez.
Felizmente, consigo, com margem de segurança, a aprovação do 3.º Ciclo. Os exames foram a brincar.
O mais fantástico da minha vida aparece agora. Depois de ter sido ginasta, nadador, árbitro de andebol, delegado de turma, representante dos alunos, sou agora aluno do Secundário.
Parece que foi hoje que conheci novos colegas, mas uma soltou-me à vista. Não quero denominá-la, mas não me engano quando digo que ela é alegre, amiga, feliz, animada, fixe. O resto do primeiro período foi atribulado, porque andava completamente descontrolado amorosamente. É com carinho que me relembro de todas as aventuras, os ciúmes, as palavras, as conversas que tive com ela até hoje. Admito que ela me ensinou muito do que eu hoje sou. Não me posso esquecer, e saliento assim este facto."

Carlos após ler tal enorme texto em voz alta questiona quase aos gritos Roberta se ela tinha percebido a mensagem que ele queria passar. Naquela altura, em dezasseis anos de vida, Carlos apenas tinha conseguido sorrir a partir do 10.º ano por causa de alguém. Ele disse logo que era Roberta. Ele sentia-se longe dela por vezes. Ele pensava que se passava algo com ela. Acabou a conversa e foi-se deitar noutra divisão assim: "Tenho pena que não tenhas percebido a importância que tens para mim. Estou a tentar dizer-te isso há algum tempo".

quinta-feira, 10 de junho de 2010

De regresso à grande cidade (XVI)... Uma nova vida em Londres

Dias passaram e Carlos decidiu regressar a Londres. Ao chegar a casa Carlos desata a chorar, molha a almofada em grande quantidade. Sentia-se sozinho. Ele não queria falar com Roberta, com as funcionárias, com os superiores. Ficou meia hora a choramingar e de seguida saiu. Com a cara vermelha, húmida e com cara de choro, sobe a escadaria da estação que gostava mais: Tower Gateway. Uma estação remodelada no tempo em que um dos seus melhores amigos estava em Londres de visita. Foi lá para pensar e poder, ou melhor, tentar passar aquele dia com uma memória decente.

Mas ele não consegui: não havia música, não havia amizade, apenas existiam comboios e uma bilheteira a funcionar. Era demasiado entediante para Carlos. Sentado num banco chorou mais um pouco. As horas passavam, os comboios partiam e ele continuava lá. Até à noite. Decidiu sair da estação quando chegou o comboio que não sairia mais naquele dia. Ficava em Reservado naquela estação. Era hora de jantar. Já estava frio, as luzes das ruas acesas e, ele sem casaco. Tinha trazido roupa à portuguesa e não se tinha vestido de forma formal ou à londrino. Chega a casa. Já quase congelado e sem qualquer vontade de se ir aquecer num banho, deita-se a cama e tranca a porta.

Roberta acha estranho a porta do quarto de Carlos estar fechada e trancada, porque ela passava lá os momentos que podia; aquele quarto era o melhor: o mais aconchegador, o mais quente e com mais recordações. Ela tinha passado todos os dias ali. Sem notícias de Carlos, enverda para a cozinha, perguntando aí à empregada o que se passava. A empregada responde-lhe que Mr. Carlos tinha regressado. Roberta ficou sem saber o que fazer. Ele tinha trancado a porta. Estaria ele lá dentro? Estaria ele no banho? Ela vai ao chaveiro e traz a chave suplente. Carlos, durante esta confusão completa, decide despachar-se e ir tomar um bom banho. Quando Roberta abre a porta vê Carlos em toalha e abraça-o. Ele tinha a toalha bem presa e ambos caíram na cama para conversarem. Carlos virou-se de costas, mas no fundo queria abraçar Roberta. Ele já tinha saudades dela, mas não queria intrometer-se no seu espaço. No fundo queria que ela vivesse a vida dela. Carlos diz a Roberta para ela sair do quarto. Em tom quase de grito, manda-a embora, mas ela mantém-se ali, agarrada a ele. Após dois minutos de alvoroço, e com Roberta a prender a toalha, Carlos levanta-se e sem querer fica nu. Manda-a de novo embora e ela recusa. Sentou-se ali no chão à espera de algo, já frio, longe do quente do banho, espera que Roberta faça algo...

terça-feira, 1 de junho de 2010

As questões levantadas...(XV) - Uma vida em Londres

A viagem até ao Hospital onde Roberta trabalhava tinha de ser feita. Ela começava naquele dia a testar os conhecimentos numa nova especialidade, Gastrenterologia. Por Portugal, Carlos chega a casa, onde vivera antes de ir para Londres e sente-se aconchegado pela família, mas longe de quem realmente o fazia feliz e sentir bem. Desde Setembro que em Londres, estavam apenas Carlos e Roberta. A família de ambos estava longe, como ao fundo de um túnel que não se consegue ultrapassar.

Carlos mantém o contacto com Roberta, apesar de, entre conversas de risos existirem momentos de choro e saudade. Ele comentava que com a frieza dos ingleses, era impossível que existisse saudade, mas, ao que parece, não é bem assim. Num dos dias, Carlos não atende o telemóvel. Tinha ido ao hospital. Queixava-se de dores na fossa ilíaca direita, e pelo que sabia de anatomia, tudo indicava que fosse uma apendicite. Roberta não ligou à não-resposta de Carlos e continuou a estudar em casa.

Após realizar os exames, os médicos dizem-lhe que o resultado era desfavorável para o paciente e este iria, obrigatoriamente, ser cirurgicamente intervencionado. Não tinha uma apencidite simples, mas sim uma peritonite. Carlos, todo a tremer envia uma SMS a Roberta sem conectores, dizendo apenas: "dor fossa ilíaca direita hospital". Ela não percebeu. Continuou o estudo sem mais nem menos, deixando tal SMS na caixa de entrada "descansada". Roberta acabou o estudo e centrou-se na caixa que Carlos havia deixado na mesa de cabeceira.

Como já disse, era maravilhosa aquela casa. Estava cheia. Eram só textos lindos, alguns que faziam chorar, outros que faziam rir, e por fim, outros que mostravam a crua e nua realidade da vida de um adolescente/adulto. Ao acaso, Roberta pega num papel, desdobra-o e lê-o. Tinha um título esquisito: "Tal comportamento é correcto?"

"Já me arrependi de ter dito que ida à viagem de final de ano à Beira Interior. Ela não vai e estou triste com isso. É um dos nossos últimos momentos juntos. Quem me dera que ela fosse. Queria ficar a sorrir mais uns dias antes dos exames, e assim, acho que não vou ficar. Quem sabe...
Desde segunda-feira que ela anda estranha. Não a entendo. Costumávamos sorrir em conjunto nalgumas aulas, fazíamos adeus um ao outro, ou então enseriávamos a nossa cara. Era tão fixe! Não lhe posso dizer o que a melhor amiga dela me disse, tenho de respeitar o segredo! Ela é a minha melhor amiga, não a quero longe de mim. Perfiro que ela me mande SMS e me cumprimente, fale comigo até às tantas e me faça feliz. Ela tem esse 'dom'. Não a percebo agora. Acho que fiz algo de mal. Penso que ela não me tenha dito a razão de não ir, porque não queria contar o que se passava. Aceito essa ideia, mas não quero que ela se afaste. Acho que não fiz nada de mal.
Acho tanto e poucas certezas tenho. A única que sei veemente é que gostava que ela fosse!"

Roberta redobra o papel e coloca-o na caixa, não o comentando. Começa a pensar e a achar estranho tal silêncio de Carlos.

Por Portugal, Carlos estava com a cabeça coberta com uma touca verde. Antes de ser anestesiado disse ao médico que já tinha aquelas dores há alguns anos, mas eram intermitentes. O médico sorriu e transmitiu-lhe tranquilidade. O engenheiro logístico tinha-se deixado levar pelo relaxante muscular e tinha fechado os olhos. Estava tão calado. Marcava o relógio 13 horas e 48 minutos. Pelas 15 horas e 32 minutos tinha-se fechado Carlos e este passado para a Unidade de Cuidados Intensivos, ainda intubado. Algo se tinha passado de errado.

A mãe de Carlos é chamada ao hospital e após se inteirar da situação liga para Londres, avisando a funcionária do que se tinha passado. Esta, por sua vez, histérica e aos gritos, corre para Roberta e conta-lhe o que se passou. Roberta responde:

- GREAT!

quinta-feira, 27 de maio de 2010

A viagem para Portugal (XIV)... Uma nova vida em Londres

Eram tão boas as cócegas. De forma suave e doce. Mas Carlos tinha de fazer as malas naquele dia, ia para Portugal de novo. Tinha delegado competências no Junior Assistant e queria regressar a Portugal. Carlos estava triste e cansado de Londres. Apesar da bela companhia que existia ali, ele queria fugir! Sair daquele espaço, mesmo que isso lhe custasse afastar de uma das melhores pessoas para ele na vida. Mas tinha de ser.

Fez as malas silenciosamente, e lembrou-se do medo que tinha em Roberta mudar a rede do seu telemóvel. Se tal acontecer, mal podiam conversar. Era uma vida tão bonita, tão calma, tão serena e tão estável. Será que tal ia acontecer agora? Tinham chegado à TfL cartões de uma rede diferente daquela que eles utilizavam e Carlos chegou a dar um a Roberta. Tinha medo de novo. Há hora de saída, fala com Roberta sobre o assunto. Ambos derramarram lágrimas. As saudades iriam ser imensas, os sentimentos e a relação poderia ser completamente diferente. Ele quis ir de metropolitano, atravessar as próprias obras que ele montou, até chegar o momento de sair mesmo de Londres e do Reino Unido. O que ficava para trás? Uma pessoa, memórias, desejos, uma boa vida, mas o salário continuava a ser recebido mensalmente em Portugal.

Que seria de Roberta? Para Carlos, não existia nenhum sentimento diferente. Ele pensava que ela não iria sentir a sua falta. Será que está correcto? O avião parte e Roberta fica com uma mansão só para ela. Para ela triunfar com tudo o que tinha direito, sem combates de guerra a brincar e jantares interrompidos com telemóveis.

Carlos teve saudades? Mal chegou a Portugal, pôs-se a pensar se tinha feito bem...

domingo, 23 de maio de 2010

Olhar para a lua (XIII)... Uma nova vida em Londres

Um abraço bastava, foi o que Carlos disse. Obrigado por tudo Roberta, sem ti não poderia estar aqui, agora, ser o que sou. Devo-o a ti, mesmo que não acredites. Foi o que Carlos disse a Roberta. Abraçaram-se de seguida, enquanto que, no rio, as luzes apagavam-se. Após o abraço correm feitos loucos para o bar mais próximo. Sem se alcoolizarem, beberam algumas canecas de cerveja e, no fim, um suminho fresco de laranja. No dia seguinte, Roberta tinha de voltar para o trabalho. Carlos, segundo Roberta, até podia trabalhar por casa, mas contrapondo logo de seguida o que ela diz, ele responde que se não fosse ele, tudo estava completamente diferente do que está agora, mais velho, sem revitalização do que é necessário e reutilização de troços que até poderão ser rentáveis para a cidade e para os cidadãos.

A noite é passada no mesmo quarto, de onde Carlos, sem sono, consegue olhar a Lua e pensar no bem que lhe faz estar com Roberta. Ela era como fosse a luz dele sempre. Carlos suspirou, beijou na testa Roberta e dá uma volta por casa com a sua caixinha mágica dos textos e recordações. Tirou um que, sem saber, iria fazer recordar um dos dias mais preocupantes para Carlos no 11.º ano:

"Não dormi nada nesse dia. Fui-me deitar cedo, mas às duas da madrugada estava em frente ao espelho da casa-de-banho, de pijama a chorar que nem um louco. Como se fosse o meu último dia naquelas situações, de aluno português, daquela escola, com aquela companhia. No entanto, recordei-me das palavras de apoio e de conselho que lhe tinha dado na véspera para que tudo corresse bem.
Passadas três horas acordei. Eram cinco da madrugada, ainda noite no sítio onde moro. Vi o meu telemóvel e estava lá a doce mensagem de obrigado! Ainda consegui falar com ela antes do embarque. Fiquei feliz. Quando era obrigatório desligar o telemóvel, veio-me uma dor no estômago que só passou às 7 horas e 02 minutos, quando, no sítio electrónico da empresa reguladora dos aeroportos portugueses, vi que o avião tinha levantado voo. Fiquei um pouco mais tranquilo, mas só de pensar que poderia acontecer alguma coisa até Madrid, deixou-me, de novo, a chorar. Mal cheguei à escola, pude ir à Biblioteca ver o estado do voo. Chorei de novo. Acho que pensei que a protegi pouco. Ups... Ainda vai acontecer outra vez, e além disso, tenho uma noite que me faz remoer os fígados há muito. Tenho saudades e medo!"

Carlos, de cara séria, ao pé da janela, na qual via a lua, guarda o texto, fecha a caixa sem dizer nada e deslumbra tal natureza. A Lua, um satélite natural que é tão bela. É como se fosse um dos marcos do horizonte pessoal humano: ver o resto do Universo. Carlos deixa-se dormir sobre o parapeito da janela, e tempo mais tarde, lembra-se de estar no chão, cheio de comichão na sola dos pés. Eram cócegas!

Fonte da fotografia: http://farm3.static.flickr.com/2644/3785455312_6aec8a42dc.jpg

sexta-feira, 21 de maio de 2010

A casa vazia e o metro escuro (XII)... Uma nova vida em Londres

Carlos lembrara-se que Roberta perdera a chaves. Utilizando a serra eléctrica, no dia seguinte, que tinha abriu a porta da casa dela e ofereceu-lhe uma porta nova, para a casa que era arrendada. Disse-lhe e afincou o pé de que ela ia viver com ele, seja na mesma cama, no mesmo quarto, no mesmo piso ou na mesma casa, mas que ali naquela casa arrendada ela não ia ficar. Roberta ficou confusa com tudo isto. Pensou em Madrid, quando houve uma troca de quartos e ambos tiveram de ficar numa só cama. Contrariando tal facto, Carlos disse que se fosse preciso fazia obras na casa que tinha.

Nessa noite, ele ficou a pensar se tinha agido de maneira correcta. Começou por escrever um texto intitulado de "Rico ou com muito dinheiro?".

"Passaram-se anos. Eu, de início, pensei que ela era rica e que se iria portar de maneira diferente. Que se iria exibir perante todos com tudo o que pudesse. Não digo que, por vezes, tivesse ficado amedrontado com compras que ela fazia ou com aparições na escola. Mas também não me fiquei atrás. Peguei no meu poderoso valor e arrebatei o dinheiro dela. Percebi aí que ela não passava, realmente, de uma pessoa que era modesta e simples, com alguns luxos é certo, mas que não se exibia em extremos. Nem em 8, se calhar em 10. Por aí!
Será que fiz bem hoje? Acho que tornei-me eu rico e fiz de mais. Dar a entender que fazia obras se ela quisesse e, além disso, paguei-lhe, sem mais nem menos, uma porta e uma nova fechadura. Diria eu, no ensino Secundário, que não estava a cumprir com os meus objectivos de vida - a poupar. Será que fui correcto? Tenho remorços. Não sei que fazer. Lembro-me quando aplicava o termo remorços às memórias que tinha dos sonhos 'maus' da infância, quando me ia, de novo, deitar. Mas agora são outros. Tenho medo... Não sei se fiz bem. Eu fiz as minhas escolhas mal! Quero ser feliz! Acho que não o sou!"

Estava Carlos a pôr o último ponto de exclamação no texto que tinha escrito e Roberta convida-o para sair. Sem mais nem menos levou-o para uma das pontes mais bonitas, London Bridge, que há noite é como se fosse a ponte D. Luiz I, mas cem vezes mais bela. Mas, algo me despertou a atenção. Havia luzes no Tamisa. Luzes de mais. Aquela hora não existiam tantas ligações para tantos barcos. Passados 5 minutos, nota-se um desenho no rio, algo que já se tinha feito no passado, a junção das duas abreviaturas dos primeiros nomes, com a palavra "obrigado" por baixo. Carlos apoia-se na ponte e derrama uma lágrima do seu olho esquerdo. A lágrima mal se via. Estava escuro e ali por baixo passava o metropolitano. Num último instante Roberta pede a Carlos para este lhe dar a mão.

quarta-feira, 19 de maio de 2010

O confronto de olhares (XI)... - Uma nova vida em Londres

A empregada retirou-se da proximada dos colegas de secundário. Carlos derrama lágrimas, mas seca-as rapidamente. Tentando-se mostrar como forte dá uma desculpa esfarrapada a Roberta, mas como esta o conhecia bastante bem, não acreditou nele, dizendo que chorar fazia bem a todos e não valia a pena chorar por tal coisa.

Carlos olha nos olhos Roberta. Não acontecia tal coisa há mais de um lustro. Fixaram ambos os olhares. Aqueles castanhos em confronto em linguagem ocular, pedindo um abraço mútuo. Assim foi, do nada, abraçaram-se e pensaram nas maiores alegrias da vida. Nas maiores vivências, nos maiores sonhos, no maior amor, na cidade de sonho. É como que aquele confronto de olhares os transpusesse para o passado, deixando uma ideia de saudade, mas de recordação.

Passava-se a altura do início do Ensino Secundário e ambos foram colocados na mesma turma. Não se conheciam. Para Carlos, Roberta era como alguém que, após o primeiro olhar tinha ficado marcado para todo o sempre. Para Roberta e após as primeira intervenções de Carlos e antes dos primeiros testes, este era uma pessoa muito culta, e com muitas boas notas, facto que não se confirmou com os testes que fizeram.
Acho que Carlos desceu na consideração de Roberta nesse tempo, sem se aperceber. Foi brilhante como existiu medo nas primeiras conversas por SMS de ambos. Seria por falta de hábito? Ou por não querer magoar o outro? O certo é que foram felizes. Fizeram o Ensino Secundário no tempo habitual (3 anos) e entram À faculdade. Aí sim, existiu uma grande separação na vida deles. Penso ainda que Carlos chora por tal separação. Daí, se calhar, tal reacção, quando este lhe deu a prenda. Seria excelente que se percebe tal comportamento. A faculdade marcou bastante ambos, desde a vírgula mal posta numa frase até às novas experiências de vida!

domingo, 16 de maio de 2010

A visita cultural (X) - Uma nova vida em Londres

Carlos trabalhou apenas até ao meio-dia. Deixou que o seu Junior Assistent trata-se das coisas à tarde e foi visitar a cidade. Ele programou ver 3 locais de interesse: Madame Tussauds, London Transport Museum e um local que não é local, mas que abrilhantava os olhos de Carlos, Docklands Light Railway que ele administrava. Almoçou em casa, a sua comida portuguesa favorita e depois caminhou até ao Museu da Cera. As filas eram enormes. Utilizando os seus VIP Tickets, ele entra enquanto que a fila continua a aglomerar-se. Carlos fica maravilhado com as personalidades que encontra em cera, desde as mais mediáticas até às mais obscuras, mas um facto ele tinha de realçar. Tudo parecia real! Era como as pessoas tivessem ali vivas, ao pé dele!

A memória não o atraiçoa e ele lembra-se de levar algo para mostrar a Roberta. Ambos sempre gostaram do 007. Nada melhor que a fotografia dessa personagem em cera para recordar esse momento. Era fascinante, tanta luz misturada com o sorriso de Carlos. A dedicação a tirar a fotografia, a simplicidade, mas a ternura e o cuidado.

Termina a visita e dirige-se para o museu dos transportes. Como é óbvio, aquele museu fê-lo delirar. Passou lá mais do que três horas. A documentar tudo, ver todas as características, as peças, o passado, o presente, o possível futuro. Tudo ficou registado numa máquina fotográfica. Louvou-se pelo avanço das locomotivas, dos sinais de controlo de tráfego, dos autocarros, do ambiente, das zonas não mostradas ao público. Adorou um das carruagens de metro. Os diagramas antigos e a evolução do Tube Map que pretende alterar em breve. Tanta magia para aquele dia. Faltava-lhe o DLR. Com pressa sai do museu e dirige-se ao pé de casa. A estação mais próxima era ao pé de sua casa. Na ponte, deslumbrou-se com a vista sobre o rio Tamisa e sobre as docas londrinas. Comparou-as à baixa ribeirinha portuense e lembrou-se da visita a tal cidade. Mas ele tinha saudades de Roberta. Queria passar a tarde com ela.

Cerca das 22 horas chega a casa, e vê os sapatos de Roberta ao pé do seu quarto. Achou estranho e questionou a governanta de tal razão. Carlos sorriu com as palavras que foram ditas em voz alta, por uma voz feminina, que se aproximava por trás.

sábado, 15 de maio de 2010

O reviver do Verão bonito (IX)... Uma nova vida em Londres

Roberta depois do jantar, saiu de casa de Carlos e desejou-lhe boa noite. Algo que Carlos estimou e agradeceu com ânimo. Foi para o quarto e decidiu ver a sua caixinha, tendo em conta o que a SMS que lhe enviaram.

Em casa de Carlos estava luz, aquecedores ligados, pouca roupa vestida, contrastando com a noite londrina, chuvosa, fria, que obrigava Roberta a estar com muitas camisolas por causa do frio. Roberta fazia lembrar Carlos, quando ambos estavam em Portugal. Ele era o friorento e ela a menina do decote, quando o tempo começava a aquecer. Roberta estava na paragem de autocarro, quando é assaltada. Fica sem chaves de casa, sem o dístico de identificação do hospital, sem dinheiro, excepto o telemóvel que por espanto o tinha deixado na casa de Carlos.

Roberta caminhava agora à chuva, até à casa de Carlos. A chuva tornava-se cada vez mais forte e a viagem até casa do amigo tornava-se cada vez mais longíqua.

Carlos remexe na caixa dos textos,como Roberta lhe tinha dado indicação. Encontrou dois textos que se destacaram. Não estavam ali. Alguém os tinha posto ali. Ele leu um que, aprecia que tinha escrito há algum tempo. tinha um título: "O que sei dela"

"O tempo aqueceu. Deixou de usar a roupa de Inverno e passou a usar a roupa mais fria. Além disso, consegui vê-la, uma vez mais como adulta. Fiquei feliz por isso. Ela, sem dar por isso, deu a entender o que s epassava de normal com ela. Como é óbvio, era certeiro. Pelo que conhecia dela era o mais o provável ser. Até pelo ar da palavras e das acções eu consegui perceber isso. Quem me dera não o perceber. Não quero exceder os meus limites!"

Carlos percebeu que o que teve com Roberta no Secundário era algo de importante para ele. Era como ela fosse uma luz e um exemplo para ela. Mas agora Carlos tinha outro texto  para ler. Era de Robeta:

"Ups... Passaram tantos anos e eu ainda escrevo textos para ti. Tenho imensos textos teus em minha casa, cada um mais bonito que o outro, mais sorridente, ou mais duvidoso. São textos que eu estimo. Eu sei que me perguntaste várias vezes o que eu fazia com eles. Eu sei que pensavas que eu os deitava fora. Mas não. Estão todos guardados. Tenho memórias de tudo, mesmo que não tas diga. Gosto de as aguardar para mim.
Agora estamos em Londres, passaram anos, mas as amizades são intemporais. Mesmo aquelas mais fracas, e mesmo aquelas mais fortes! Sempre to disse."

Carlos após ler o texto de Roberta, desligou a luz da mesa de cabeceira e foi-se deitar. Cinco minutos depois Roberta bate à porta. A porteira abre a porta e após explicar a situação deixa Roberta dormir lá. No piso das visitas, porque Carlos não tinha conhecimento de tal situação. Passa-se a noite e o dia seguinte continua cinzento. Carlos despacha-se e sai. Ele queria ir visitar monumentos em Londres naquele dia, após o trabalho.

quinta-feira, 13 de maio de 2010

O Jardim da Saudade, mas o Jardim do Reecontro (VIII) - Uma nova vida em Londres

Roberta ficou encavacada com a saída repentina de Carlos. Ela apenas se tinha esquecido de trancar a porta do WC. Despachou-se e saiu de casa de Carlos pela porta das traseiras e perguntou à governanta onde é que Carlos tinha ido. A indicação que lhe deram foi a de St. James Park. Apanha o metro a seguir a Carlos. Sai na estação correcta e vê Carlos a coxear ao fundo. Este, já cansado, senta-se num banco. Era como houvesse um contraste entre a constipação dele, de casaco escuro com as primeiras folhas verdes a aparecer no jardim. Vê o London Eye ao fundo e relembra as imensas fotografias que via na Internet sobre tal atracção turística.

Roberta consegue chegar ao pé de Carlos e ele, envergonhado com o que se tinha passado, volta a cara para o lado. Roberta tem uma grande conversa com Carlos. Eles estão mais do que duas horas ali sentados, à mercê do Sol e da chuva, porque o céu estava parcialmente nublado. Falam, gritam, divertem-se, guerreiam, 'atacam-se', resumindo portam-se como dois adolescentes autênticos. Carlos convida, após tal conversa, Roberta para irem visitar o Palácio de Buckingham. Roberta aceitou de imediato. Após a visita que demorou algum tempo, Carlos ajoelha-se no meio da erva verdescante do jardim e pede perdão por tudo de mal que tinha feito a Roberta. Além do mais, Roberta aceita jantar com Carlos em casa dele.

Quando chegaram a casa, a primeira coisa que Carlos fez foi mostrar toda a casa, mais propriamente dois pisos, compostos por bastantes quartos e divisões importantes. Ele disse a Roberta que quando ela quisesse lá dormir estaria à vontade, porque ela fica num piso e ele noutro. De repente, quando começa o jantar servido à portuguesa, o telemóvel de Carlos toca. Era uma vez mais o seu Junior Assistent porque tinha novidades em relação às obras do metropolitano e aconselha Carlos a fazer uma declaração pública com as informações que ele lhe iria enviar por e-mail. Assim foi. O jantar ficou cancelado por hora e meia. Carlos pegou na mão de Roberta e levou-a para a sala das conferências de imprensa. Por trás das câmaras, Roberta fazia figas para que Carlos não tivesse nenhuma recaída de saúde durante a comunicação à cidade e ao país. Assim foi, marcava o relógio vinte horas e quarenta e sete minutos, quando entra Carlos no ar:

"Caros Cidadãos Londrinos e Britânicos,

Agradeço-vos a paciência que têm demonstrado para com as obras que a TfL está a desenvolver no LU. Estas são bastante importantes e têm um encargo não elevado para os contribuintes. Trago-vos assim, uma vez mais, novidades acerca das obras que decorrem. O topo norte da linha Metropolitan entre Chesam e Moor Park já está concluído. Entra assim em obras o troço entre Harrow-on-the-Hill e Amersham e Chalfont & Latimer. Uma vez mais peço paciência para com as obras. Reforço a ideia que amanhã as viagens no troço reaberto serão gratuitas.

Boa Noite e Obrigado".

O jantar é retomado, com mais calma. A primeira fala que existe é... dá-me o teu número de telemóvel londrino. Carlos engasga-se e espirra, mas dá o número de telefone, onde de seguida recebe uma mensagem esquisita de Roberta que está à frente dela: "Vê a tua caixinha!".

Fonte da fotografia: http://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/b/b4/Buckingham_Palace%2C_London_-_April_2009.jpg

A Memória Textual e não só (VII) - Uma nova vida em Londres

Carlos mexeu-se na cama após Roberta ter lido tal frase em voz alta. Ela voltou a colocar aquele papel na caixa e tirou outro. Ela estava a aguentar há mais de duas horas a vontade de urinar e leva a caixa para a casa-de-banho. Lá, concentra-se a ler o papel que tirou da caixa. Aquele texto era um dos mais bonitos:

"Olá. Depois de falarmos tanto acerca da tua ídola, e de termos chegado À conclusão acerca de quem tinha sido a minha escrevi isto. Senti um silêncio grande da tua parte e mesmo depois de teres dito que não valia a pena o medo, continuei com ele. Considerar alguém como ídolo é difícil e especialmente para mim, como bem sabes. Já tive demasiadas desilusões até aos 16 anos e não me apetece voltar a ter mais em tempos breves. Se as tiver, terei de me reconfortar. Não é a salvar vidas como dizes que vais conseguir que tu sejas a minha ídola de novo. Tive vários meses a pensar nesse assunto, na importância que tu tinhas para mim, nas minhas acções para contigo, na nossa relação de amizade, nos nossos pedidos, nas nossas conversas. Passaram treze meses depois de eu não ter considerado mais como ídola. Nesse tempo, houve momentos em que me surpreendeste bastante, mas outros em que me deixaste a pensar, se realmente eras tu quem eu conhecia. Vi-te crescer. Passei contigo um dos grandes passos na tua vida. Não me irei esquecer dele nunca mais. Não me posso também esquecer de tudo o resto que nos une, quer estejamos perto ou quer estejamos longe. Volto a dizer que o futuro é incerto, mas espero que se o futuro me atraiçoar, que não atraiçoe a nossa amizade. Mais uma vez o teu silêncio agonia-me. É como que eu sentisse que algo não está bem; olho para o preto electrónico e imagino algo que não é uma Roberta sorridente, mas sim uma pessoa que quer afastar-se. Porquê, perguntas tu? Não sei responder. Contigo, não consigo responder à maioria das coisas. Contigo tudo é diferente nada relação de amizade. É tudo mais estável, mesmo quando temos conversas acesas! És um exemplo a seguir para muitos, mas eu não chego aos teus calcanhares. No entanto, acho que como minha amiga.
Já sabes como eu sou! Este texto tem um mistério que tens de decifrar. Não te esqueças de o desmistificares. Sem ele, não perceberás a verdadeira razão de tal escrita. Boa Sorte."

Roberta comoveu-se uma vez mais ao ler o texto e ao entender o que Carlos queria dizer. Entretanto no quarto, Carlos levanta-se e apercebe-se que Roberta não está com ele. Estava de novo sozinho. A família tinha ido no avião antes de Roberta chegar e ali ele tinha ficado dois dias, doente, com a governanta e com mais cinco empregados. Ele, dirige-se para a casa-de-banho, roda o manípulo e repara que Roberta está lá. Fecha a porta de repente e volta para o quarto. Veste-se e saí de casa com dois pacotes de lenços, pela porta de serviço. Roberta fica em casa à espera que ele volte.

terça-feira, 11 de maio de 2010

O Esperado Regresso e Desaparecimento (VI) - Uma nova vida em Londres

Após todas as confusões do Natal e do Ano Novo, dia 3 de Janeiro entram em funcionamento as novas regras do Metro de Londres:

" 1 - São efectuados três comboios em cada sentido,em cada linha encerrada entre as 5:00 e as 8:30, entre as 12:00 e as 14:30, entre as 16:30 e as 19:30  nos dias úteis(mantendo os horários para se efectuar as ligações estabelecidas antes do período de obras).
2 - Os passageiros poderão utilizar nos restantes períodos os autocarros de substituição, não sendo os bilhetes adquiridos nos autocarros da TfL.
3 - Na linha Northern, os comboios referidos no ponto 1, terão destino a estação de Morden (no sentido norte-sul, existindo 1 comboio via Charing Cross e 2 via Bank.
4 - Na linha Piccadilly, os comboios referidos no ponto 1, terão destino a estação de Cockfosters (no sentido sul-norte) e no sentido contrário 2 terão como destino o Aeroporto de Heathrow (1 via T4) e 1 terá como destino Uxbridge.
5 - Na linha Central, os comboios referidos em 1 circularão entre White City e Stratford.
6 - Na linha Discrict não existirão serviços ferroviários referidos em 1
7 - As linhas Waterloo and City e Jubilee não serão afectadas pelas obras referidas neste artigo, mantendo assim o seu horário de funcionamento habitual.
8 - Durante o fim-de-semana e feriados, exceptuando nas linhas Piccadilly e Central, não se efecuarão serviços ferroviários.

Foram estas oito pontos que foram entregues a Roberta quando esta regressou de Portugal e ela reparou que quem tinha assinado o aviso era Carlos. Seguiu as pistas que lhe levaram à casa de Carlos, porque havia manifestações atrás de manifestações devido às contestadas obras do metro. Roberta chegou ao edifício que tudo levava a crer que era a casa de Carlos. Tocou à campanhia, passados 75 minutos, devido à multidão e gritou "CARLOS!". A governanta vem à porta e deixa que Roberta entre. Apresenta-se como amiga de Carlos e que precisava de falar com ele com alguma urgência. Roberta é conduzida quase que instantaneamente ao quarto onde Carlos estava, ainda meio adoentado, com a caixa dos textos em cima da mesa de cabeceira. Ele estava cansado de mais para falar. Abraçou-a e puxou-a para a cama, descansando depois. Roberta ficou ali, sem perceber nada, a fazer-lhe companhia. Após ela ter achado que ele estava adormecido, vai ver a caixa da Banda Larga. Deslumbra-se com a quantidade de textos que ele tinha. A maioria ela nem sabia que existiam. Fizeram-na chorar. Eram demasiado emotivos.

Roberta leu uma frase em voz alta: "As mãos tão tranquilas e lisas, contrastando com o tremor e as sarrabulhentas das outras", riscado por cima e em baixo, escrito "NÃO! EU TAMBÉM CONSIGO"!

As memórias do Passado (V) - Uma nova vida em Londres

O grande dia de Dezembro passa-se numa hora. Por Portugal, existem saídas a discotecas e salões de stripp masculino, mas em Londres, Carlos abre o seu arquivo de recordações: a sua caixa da Banda Larga que deixou de ter quando comprou uma "pen". Ao ver os textos que haviam sido escritos e respondidos realça-lhe à vista dois deles: um acerca do trabalho e outro acerca do seu estado espírito.

Nunca tinham sido divulgados ambos, mas eram sentidos. Carlos leu em voz alta os dois, começando pelo do trabalho.

"Vejo-a com outros olhos. Está cada vez mais universitária e de facto, assim é verdade. Sorrio quando acho que ela vai conseguir alcançar os seus objectivos sem qualquer esforço, mas no segundo seguinte lembro-me de toda a angústia que passei com ela. É como o oito e o oitenta. Como que quisesse e não quisesse pensar nela ao mesmo tempo.
Acho que ela está a estudar de mais. Até a posso perceber, mas acho tal esforço desnecessário. Para mim, não faz sentido tal acção. Apenas a vai desgastar mais e torná-la mais fechada. Quase que choro nesses dias. Mas é a vida. E nós temos de a ver dessa maneira."

Carlos, após se ter lembrado de tal texto solta uma lágrima e deixa de novo o seu nariz entupido, é como que algo tivesse voltado. Depois de se recompor, com a lavagem nasal, lê o outro texto:

"Estou completamente vazio. Não consigo sentir nada dentro de mim. É como que o esforço que faço vala zero e que não estivesse preparado para o que me espera. Não sei se aguento. Quando vejo uma falésia na televisão, o que me apetece é aproximar-me dela e atirar-me por ali a baixo, de braços abertos, para ao "chapar" no mar ou nas rochas poder, directamente, passar para o outro lado, estar descansado, não ter problemas com nada e dizer FIM. Mas a imagem que para muitos é bela, rapidamente acaba e eu fecho os olhos na cama. Acho que é o melhor sítio para ter consciência das acções e dos pensamentos..."

Desta vez, Carlos não acaba o texto todo. Recebe uma chamada do Junior Assistent, a perguntar-lhe o que poderia fazer enquanto existiam obras, porque não entendia nada dos planos que existiam em vigor, já que era uma novidade para todos. Carlos explica-lhe tudo, utilizando o seu inglês fluente, dizendo que não faz sentido existirem algumas linhas fechadas e irão ser reabertas, tais como a Jubilee e a Waterloo e City. Estas linhas poderiam ser intervencionadas aos fins-de-semana, deixando que existisse uma circulação eficiente de pessoas.

Carlos consegue explicar todos os seus planos ao seu colega e vai, mais uma vez descansar. Ele achava que Roberta estava cada vez mais longe e que nunca mais a iria ver.

sábado, 8 de maio de 2010

Uma nova vida em Londres (IV)

A mãe de Carlos aplaudiu o texto proferido pelo mesmo aquando da conferência de imprensa. O Senior Manager da TfL continuou com a planificação das reformulações do metropolitano até cerca das três da madrugada.

No dia seguinte em Portugal, é anunciado o que irá acontecer em Londres e, quando Roberta ouve a notícia pela televisão estatal portuguesa desmarca-se, pois sabe que se existisse algum problema com o seu caminho para o trabalho a mesma seria informada por Carlos. A mãe de Roberta vê Carlos a dar a conferência de imprensa pela televisão e chama a filha para junto dela. Roberta junta-se à mãe e ouve o seu antigo colega de escola a falar de logística, fazendo-a relembrar todas as planificações que ele fazia no Secundário. Ela ouve com atenção tudo o que Carlos disse a Londres e ao mundo e percebe qual é o cargo dele agora.

Carlos estava agora a falar para os jornais ingleses dando cada vez mais detalhes acerca do que iria ocorrer e das altrnatias que iriam existir. Foi uma semana monótona e passam-se, para além dos sete dias mais três, ficando o dia a marcar 19 de Dezembro. Carlos, após a visita às obras em Chesham, fica engripado e passa o dia em casa. Nessa manhã, Carlos liga a Roberta e dá-lhe os parabéns. Tenta fazer uma voz decente e não mostrar que está engripado. Após desligar, Carlos volta a deitar-se na cama e começa a chorar. Chora lágrima atrás de lágrima, fazendo quase que como um carreiro de cloreto de sódio pela face a baixo.

Em Portugal, Roberta apercebe-se que Carlos não está bem, mas não poder fazer nada. Apesar de estar longe, não tem avião marcado e não pode ir ter com ele. Aliás, a única coisa que ela sabe é o cargo dele. Por mais estranho que pareça Carlos muda sempre de assunto, quando se toca no trabalho e em morar em sítio. Apesar de todos estes desencontros, Carlos anseia ver de novo Roberta e poder abraçá-la.

Uma nova vida em Londres (III)

Carlos consegue chegar a casa e vai ao computador ver a que horas chega o próximo voo proveniente de Londres. Pelo que reparou já tinha chegado e Roberta tinha tempo de chagar a casa.

Roberta, mal que chegou a casa, ligou a Carlos e ele atendeu-lhe a chamada. Parece que Roberta encontrou Carlos após três meses de busca intensa e sem resultados. O problema é que a estada de Carlos em Portugal foi mais curta do que se pensava. Roberta estava a tentar combinar uma saída com Carlos, quando este vê um e-mail da TfL dizendo que ele tem de interromper as férias que havia amrcado devido a um problema que ocorreu na sincronização das linhas e comboios que ninguém conseguiu resolver. Ele ficou triste, porque queria passar o Natal e o Ano Novo com a família, mas não conseguia. Por espanto da família, Carlos convida-os a ir para Londres passar o Natal e o Ano Novo para a sua casa. Claro que a família aceitou.

Roberta desligou o telemóvel assim que soube que Carlos tinha de regressar a Londres no dia seguinte. Não conseguiu agradecer nada do que Carlos lhe tinha dado e que era fantástico. Ela era a única naquele hospital com tal instrumento daquela cor, que relembrava um grande amigo que Roberta tinha.

À noite, Carlos liga para Roberta dizendo-lhe que pede desculpa por não conseguir estar presente no aniversário dela. Mas que lhe mandava a prendinha, que classificava como "simbólica" por correio, mantendo alguma tradição passada! Carlos pediu também desculpa a Roberta por tal comportamento na ida para Londres, que deixou Carlos desolado. Roberta sentiu Carlos a chorar, através da fala dele. Ela sempre soube que a fala dele fica mais rouca quando ele chora. Foi isso que aconteceu naquele momento. Roberta fica por Portugal e diverte-se durante as férias de Natal, enquanto que Carlos regressa a Londres, sem a família que iria ter com ele dias depois.

Passam-se dois dias e a família de Carlos chega ao aeroporto de Londres. Espera-os uma limusina de cor preta com Carlos lá dentro. A família começou a questionar tantas coisas e tantas riquezas que não eram habituais dele. Eram colocadas questões atrás de questões.

- Uma limusina? Deves ter pagado imenso por isto! - disse a mãe de Carlos
- Não mãe, claro que não. Eu tenho direito a ter esa limusina. Sou o chefe máximo da TfL agora e não chefe da organização logística do Metropolitano, respondeu Carlos.

A viagem até à outra parte de Londres chega ao fim e quando a família de Calros vê como fundo o National Bank, quase que deliria que questiona Carlos acerca das suas possibilidades financeiras. A casa de Carlos estava cheia de requinte, mas com uma característica única. Tinha um ar de casa portuguesa, parecida àquela onde ele havia vivido vários anos. Ele desculpa-se por se ter de ausentar, mas a Mme. Parrot tratava da hospedagem dos familiares em tal casa. Toda a família de Carlos continua boquiaberta com tal imensidão habitacional.

Há hora do jantar, surge uma notícia de última hora nas notícias televisivas. Diz-se que o Metro de Londres irá encerrar linha a linha durante a semana, para trabalhos de reformulação excepcionando as linhas Piccadilly  e Central. Que levavam os passageiros ao centro de Londres até ao aeroporto, passando por Hammersmith. Levataram-se imensos protestos pela cidade após a divulgação por parte da TfL de tal decisão, mas por volta das vinte e três horas, Carlos, filmado em sua casa, explica aos Londrinos o que irá acontecer. Parte do discurso de Carlos traduzido para Português é o seguinte:

"Caros Cidadãos Londrinos e Turistas,

Foi-vos anunciado por volta da hora do jantar que iriam existir interrupções no Metro de Londres. De facto, implementei uma nova organização e método para remodelar de forma mais exaustiva e mais rápida o mais antigo meio de transporte subterrâneo do Mundo. Desta forma, considero prioritário o acesso aos hospitais, universidades, bancos e aeroportos, consequentemente essas ligações irão ser mantidas, devido à enorme quantidade de população que converge para tais locais. Refiro desta forma que as Linhas Central e Piccadilly não serão afectas até ao próximo mês de Junho. Mais anuncio que o DLR não será afectado e as ligações com o London Overground também serão mantidas. Desta forma, serão encerradas de forma faseada as linhas do nosso metropolitano, podendo assim existir uma refrmulação efectiva dos seus percursos e trajectos. Desta forma, os encerramentos serão realizados da parte não-central para a parte cental de Londres, começando pela zona Noroeste com a Metropolitan Line. Terminar-se-á esta intervenção passados quatro anos, com a reformulação completa de todo o material circulante e do eixo central, que culminará com a reabertura da estação de Blackfriars, que extenderá o seu período de obras por mais dois anos. Serão disponibilizados serivços alternativos (autocarro) e serão concretizadas viagens de metro, no entanto, com velocidade reduzida e a específicas horas do dia.

Obrigado".

sexta-feira, 7 de maio de 2010

Uma nova vida em Londres (II)...

(... e que tal um exercício para descobrir o início...?)

A procura pelo companheiro de longa data continuava turno após turno de internato. Cada vez mais Roberta era enviada para sítios mais formais e menos acessíveis. Desde a sede do "National Railway" até mesmo à "Parliament House", onde Carlos tinha feito um discurso acerca dos transportes e da nova organização que tinha implementado há pouco tempo. Roberta continuava sem saber o que se tinha passado com Carlos, mas notou que o metro vinha cada vez mais a hora, existiam novas tarifas, novos percursos e reformulações que haviam sido comentadas há anos. Após a primeira semana de "buscas" Roberta lembra-se de uma conversa que havia tido com Carlos, no Secundário. A antiga "East London Line" do metro que tinha sido convertida para comboio.

Passou por lá e, utilizando o seu fluente inglês perguntou na bilheteira quem era o responsável pela linha. Responderam que era Mr something, cujo nome ela não percebeu. Se fosse Carlos, Roberta tinha percebido que era um nome conhecido. Ela teve possibilidade de ver anúncios recentes da linha em causa e não tinham sido assinados por ele. Logo, Roberta voltou à estaca zero.

Carlos estava cada vez mais longe, mas cada vez mais perto! Carlos tinha acabado de sair do comboio que tinha chegado de New Cross há 2 minutos, tinha reparado em Roberta, mas como ela estava tão mudada não associou a 100% à pessoa em si. O fato completo que Carlos enverdava não era tão assimilado na altura em tal zona de Londres. Ele tinha uma limusina à espera para o levar a casa. Ele tinha mudado de casa. Estava junto às estações de Bank e Monument agora. Deixara a sua zona antiga e a TfL havia-lhe oferecido tal apartamento em tal zona requintada da cidade.

Para espanto de Roberta e sem saber nada de novo acerca de Carlos, a estação de Hammersmith tinha entrado em obras, existindo apenas comboios a parar naquela estação, por mais estranho que pareça, meia-hora antes da hora do início do turno no Hospital de Hammersmith e meia-hora a quarenta e cinco minutos após o fim de cada turno. Todos os dias da semana, excluindo nos turnos de Domingo a partir das catorze horas.

Roberta quando consegue perceber tal coisa, já se passa o mês de Dezembro, e após ter colocado a questão dos horários da estação de Metro a um colega, este diz-lhe que tudo isto é obra do novo Senior Manager da TfL, que detesta o que era o Metro. O colega de Roberta diz-lhe ainda que já tentaram assassinar o Manager, mas sem efeito.

Carlos enquanto Roberta estava a comentar tal situação preparava-se para apanhar o metro para se dirigir ao aeroporto para poder visitar a família durante o Natal e Ano Novo. Mas, mais uma vez pelo estranho que pareça, ele regressou no dia 9 de Dezembro. Nunca nenhum Senior Manager tinha pedido tão poucas férias, como este.

Ao chegar ao novo aeroporto de Alcochete, em Portugal, a família de Carlos espera-o! Pelo maior espanto, a família de Roberta também estava no aeroporto, mas sentados num banco, longe das zonas de chegadas. Após ter falado com a mãe de Roberta, Carlos percebeu que Roberta também regressava hoje, mas noutro avião, mais tarde.

quinta-feira, 6 de maio de 2010

Tenho medo... IMY!

Tenho medo! Não sei agir, não sei perceber as novas mensagens, não sei como pensar em novos casos, novas mudanças, novas marcas no mundo, novas reacções! Apenas me consigo perceber com o que é velho e o que é testado. Tudo o que é novo passa-me ao lado e deixa-me derreado. Até a própria vontade de fazer as coisas mudou. Não tenho ânimo para fazer o que fazia! Voltei a ver o site do Metro de Londres, voltei a pensar que ninguém está presente na minha vida, voltei a ter más notas nos testes, penso ainda que sou um falhado e não consegue evoluir na sociedade actual. Preciso de algo! Admito que preciso de algo, mas com força! Nada que me deixe, cada dia, com uma nova surpresa, nova admiração e triste!

É como que cada dia que entro no autocarro para ir para escola pensasse que ia ser diferent eo dia, mas vejo as mesmas caras que me deixam mal, quase a chorar! Mas não posso chorar na escola. Hoje não quis participar na actividade de Educação Sexual no período da tarde. Não me sinto bem comigo mesmo. Tinha tantos exemplos e palavras para dizer, experiências para falar, mas empurrei-me para uma página de exercícios de Matemática A e sucessões respectivamente. Não consegui de maneira nenhuma perceber o que tinha feito de manhã, nem nas aulas, nem nos testes. Derreio-me cada vez mais quando não percebo o que faço!

Quero fechar os olhos! Descansar um pouco e ver um mundo diferente. Um mundo moldado e completame utópico! Que se soltem lágrimas até ao máximo possível! Que se me dê um descanso que me permita recompor a 100%! Que eu perceba o novo mundo! Que, finalmente, eu possa perceber e olhar com normalidade para tudo e que não tenha de fingir nada!

terça-feira, 4 de maio de 2010

A música não comanda sentimentos... Os sentimentos é que comandam a música!

É como ouvirmos a música antes e depois de uma notícia que nos preocupa. Podemos sorrir para a música e pensarmos nas memórias boas que els nos traz, ou então, quando algo nos preocupa e começa-nos a preocupar quando a ouvimos, a mesma deixa-nos de rastos. Mas eu não quero deixar de ouvir a música! Quero descarregar todas as lágrimas numa música que é minha favorita! Devo um agradecimento ao meu colega e amigo bloguista Rui Pedro pela excelente música. É uma daquelas que dá para pensar imenso ou então, apenas sorrir.

Pode não ser com uma Cara de Poker que estou neste momento, mas como referi no último texto, mas sim com cara de cansaço e com cara de "pai" preocupado. Como reagir? Como pensar? Como imaginar agora?
Como lidar com lágrimas de preocupação? Como lidar com a pessoa que nos deu a "má" notícia sem dar-lhe conta que mentimos um bocadinho, para não criar problemas e constragimentos??

Acho que o meu tremor das mãos está pior agora. Estou nervoso!

Uma verdade não pensada... que muda tudo!

Ups... Levei a resposta que menos esperava. Pergunto-me se devo confiar nos meus colegas nalgumas questões, porque pelos visto não andam informados nos assuntos nos quais os questiono. Mas também não têm de saber da vida dos outros. Daí, não haver grande importância nisto.
O próprio problema é quando se recebe respostas que nos levam automaticamente para um aumento da frequência cardíaca, para uma volta de 180º do estômago. É quase instantâneo. Poderia ser de amor, mas não é. Poderia ser de falta, mas não é. É de preocupação. Se calhar demasiada, mas acho que não. Tenho medo que lhe aconteça alguma coisa. Só de pensar as vezes sem conta que vomitei, fiquei mal disposto, aumentou a frequência cardíaca por causa de acções nem as consigo contar com os dedos. Algumas já passaram, mas duas vêm aí e são enormes. NÃO CONSIGO DEIXAR DE PENSAR E SENTIR-ME ASSIM! Quase que choro de medo! Assisti a tal alteração o ano passado que me deixou tão feliz, mas sinto-me terrível agora. É nestes momentos que penso que não a queria ter conhecido. Já sei como vão ser os próximos dias. De coração nas mãos, de fragilidade, de suores frios, de instabilidade interior. O problema é que não posso falar sobre isso. Eu questiono-me acerca da necessidade de tudo isto. Acho que a resposta que eu próprio me dou a mim é... a ligação que tenho a ela. Será que isso não me deixa demasiado preocupado? Só de pensar como foi na última noite em que isto aconteceu. Apetecia-me ficar acordado, fazer directa, sentir-me acompanhado até ao momento máximo em que fosse possível. Como que quisesse sentir a telepatia até ao máximo. Consegui metade. Acordar a meio da noite e poder sentir-me bem!

Mas desta vez é diferente. Acho que não vou conseguir dormir mesmo. Não sei. O que sei é que lhe menti agora mesmo. Choro agora por isso, mas tenho de mentir. Não transmitir-lhe isto. Acho que o medo voltou!

segunda-feira, 3 de maio de 2010

A grafite do lápis HB

Um simples lápis de carvão que é capaz de fazer com que o papel seja "pintado" com várias tonalidades e cinzento. Do mais claro, ao mais escuro passando pelo intermédio, todas as cores são como o espírito que o ser humano demosntra para com os outros. O preto do carvão, carregado de raiva, com a intenção de nos livrarmos dele constrasta com as partes cinzento claras que demonstram a leveza do espírito. Porquê no mesmo sítio da filha de papel tanta confusão? Uma desorganização imensa de cinzentos, porquê? Três letras compõem a resposta: IMY!

Fonte da fotografia: http://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/0/08/Pencils_hb.jpg

sábado, 3 de abril de 2010

A água é doce...

Antes de tudo uma Boa Páscoa. Quero deixar-vos com este textos, que começou por ser um desafio a um grande amigo meu, o Afonso. Pedi-lhe à uns dias para me caracterizar a vários níveis, e agora, estando eu, a quilómetros de distância dele, chegou a resposta. Fiquei bastante impressionado de facto, porque na mesma caracterização consegui ver que existem semelhanças com o que eu acho de mim próprio e outros casos em que a opinião diverge bastante da minha. Como é algo diferente, decidi colocar o título a água é doce, não só pela diferença, porque a água não deveria ter sabor (ser insípida) e posteriormente poder entrar em contradição com algo em que penso...

Afonso caracterizou-me segundo os seguintes parâmetros:

"Conheci o Duarte há pouco tempo, há cerca de um um ano e meio quase. Não queria acreditar no que via, quando o conheci, porque divergia bastante de outras pessoas que eu conheci e conhecia. Começando pelos gostos, até às próprias rotinas, nunca ninguém tinha sido assim para comigo e tendo tal acção. Refiro também que encontro e encontrei na mesma pessoas, variabilidade de comportamento, de atitude, algumas ainda não as consigo perceber bem.
- Caracterização Pessoal: O Duarte quando eu o vi pela primeira vez parecia alguém completamente diferente das outras pessoas, e na realidade o é. Nunca ninguém que eu tinha conhecido gostava de autocarros e de transportes públicos como ele gostava, nunca ninguém tinha o à-vontade dele, para no primeiro dia de aulas, numa escola nova, em que conhecia apenas um terço da turma e nenhum professor, questionar acerca de uma questão que, no Ensino Secundário, é bastante estranha. Com os meses que passaram pude descobrir mais acerca dele. Acerca daquela personalidade que apesar de ser bastante torcida é querida, simpática e completamente amorosa. Quero referir ainda que se não fosse ele, eu, possivelmente não seria como era agora, ou então, não estaria assim como estou, metido em 49% de felicidade e 51% de tristeza.

- Caracterização Social: Não foi preciso muito tempo para perceber como é que o Duarte era socialmente. Apesar de ser diferente das outras pessoas a socializar-se, mas que pela forma que ele utiliza para o fazer, com a intenção de ser líder, com a intenção de mostrar que ele consegue falar dos assuntos propostos a qualquer nível, seja ele com colegas ou funcionários, torna-o especial, mesmo mesmo mesmo especial. Quando assisto a alguns dias em que ele leva o MP4 para a escola, já sei que algo não está bem e, posteriormente, quando chego a casa, pergunto-lhe o que se passa. Ele responde-me sempre sempre o mesmo.... Mas eu nunca consigo perceber tal resposta. No entanto, ele é especial. Lembro-me anda de outra coisa para este tópico, a força que ele tem para com os outros. Ele é bastante altruísta e deixa-se levar pelo encanto da preocupação e por vezes dá-se mal. Eu já-lhe disse, mas ele acaba sempre por cometer outros erros, diferentes dos que cometeu anteriormente, porque uma das suas características é, não cometer os erros do passado.

- Caracterização a nível afectivo-amoroso: Não posso falar muito nesta parte, mas acho importante explicitá-la aqui. Ele, como já referi, é diferente e especial, mas a sua personalidade como gancho bastante torcido, não deixa que o amor lhe chegue. Chegou uma vez penso eu, ou duas. Da primeira vez ele recusou mas da segunda aceitou, e aprendeu coisas com ela. Nunca posso esquecer uma colega dele.... Mas algo que é passado e não quero expor aqui. Por isso este campo vai ser muito muito complicado para ele, mas acho que.... Com o tempo ele perceberá!

- Caracterização nos restantes níveis que não se enquadram nos restantes: De uma forma geral é difícil, mesmo muito difícil descrevê-lo. Possivelmente alguém melhor que eu poderá fazer tal descrição. Eu não consigo. Realmente, ele não percebe o que é para as outras pessoas e, isso pode magoá-lo por vezes. Acho que.... Acho que... Com o tempo também chega-se lá. Desde que ele pense no que deve pensar, nada de mal acontecerá, penso eu."

Foi isto que Afonso escreveu. Aprendi bastante com o que ele me disse acerca de mim, mas.... lanço agora um desafio aos leitores do blog "FicFacto". Tentem também descrever-me, se quiserem utilizar estes tópicos como base, estão à vossa vontade. Era importante que o fizessem. Acho que todos os seres humanos melhoram, quando além da sua própria ideia, têm consciência do que os amigos mais próximos e fiéis acham dele. Pensem nisso !

Fonte da fotografia: http://bloggloria1.blogs.sapo.pt/arquivo/agua12.JPG

terça-feira, 16 de março de 2010

Os minutos para a meia-noite...

Tic tac...tic tac... era o barulho que se fazia ouvir no gabinete de uma médica de um hospital da nossa nação. Faltava apenas 5 minutos para o início do dia 9 de Março daquele ano. Competente como é, arruma as suas coisas e apaga a luz do seu gabinete, no sentido de poupar energia. Teria, de seguida, oito horas seguidas de urgências, e depois mais quatro de consultas externas. Não se podia apontar nada àquela pessoa, desde atenciosa a querida, passando pela responsabilidade extrema e pelo carinho efectivo.

Noutra ponta da cidade do hospital vivia um recém-formado em algo relacionado com a Saúde, mas, que, tinha vergonha de admitir o que era. Após três dias de fortes dores de cabeça, dirigiu-se ao hospital, porque já não aguentava tais dores mais, após se ter medicado com ácido acetisalicílico e paracentamol no mês anterior. O sangue tinha deixado de coagular bem, por causa de tais tomas medicamentosas. Por fim, no seu Opel Corsa chega ao hospital e faz o ingresso. Nesta altura, já os procedimentos estavam mudados. Como tinha apresentado o cartão da Ordem em que estava inscrito passou imediatamente para a sala de triagem, onde lhe foi atribuída a sinalização vermelha no braço. Mal saiu da triagem, foi encaminhado para um médico neurologista, e após isto a outro, porque este apenas saia às zero horas e quinze minutos daquele dia. O diagnóstico que o segundo médico continuou, mostrou após a realização de tomografias computorizadas, e por obrigação do médico, de uma ressonância magnética, a existência de massas anómalas no sítio mais inóspito do seu cérebro. O bloco operatório chamava-o. Assim aconteceu. Foi preparado à pressa, assinou todos os papéis que existiam para assinar, inclusive o da não permissão de reanimação mecânica. Ele sentia-se que, se tivesse de morrer, que morresse de forma natural.

Quando olhei para os médicos percebi que, a situação era grave. Não os entendia, porque simplesmente, estava a limpar o chão do corredor onde está o bloco, e ouvia, chama a Drª. tal e o Dr. tal, é uma emergência. Tendo em conta, a pessoa que eu vi entrar, pelo próprio pé para aquele sítio de batas verdes e máscaras na cara, era alguém com cariz, cabeça e que era, possivelmente, bom.

A operação começou e a médica que tinha abandonado o gabinete aos cinco minutos para acabar o seu turno tinha acabado de chegar, neste preciso momento, às urgências. Foi ver a lista, no computador da sala que lhe foi atribuída, e como sempre, atendeu o primeiro paciente de cor verde. Após ter atendido o primeiro doente de tal cor na braçadeira, a médica ouve o burburinho de que estava no bloco alguém que iria ser operado ao cérebro e que tinha dado entrada para a especialidade dela há minutos atrás, e que, lhe tinha sido atribuído a braçadeira vermelha. Àquela hora da noite, alguém com "cor" vermelha, é raro, e ela não ligou. Passou-se cerca de hora e meia entre o momento do burburinho no corredor onde a médica estava a dar consulta e o momento de pausa da médica. Não tinha paciente àquela hora e decidiu ir investigar tal caso, que lhe podia dar à luz daqueles dias, uma ascensão na carreira médica. Dessa forma, ligou o computador, introduziu novamente a sua palavra-passe no sistema informático e investigou. Quando viu o nome do paciente nem acreditou. Pensou primeiramente que seria um erro informático e que tal pessoa não podia estar em tal situação e a sofrer assim. Decidiu então ligar à extensão das Urgências Gerais e questionar se tinha existido algum lapso no sistema informático. Foi-lhe referido que não, porém, a médica contactou o gabinete da triagem, mas a enfermeira que atendeu tal paciente, que, possivelmente tinha o erro informático no sistema, já tinha saído; apenas restava o auxiliar que acompanhou o paciente até ao bloco.

Assim foi, já passada mais uma hora desde a entrada no sistema informático com a sua palavra-passe, a médica fala com auxiliar que confirma que o nome estava correcto e que tal paciente entrou para o bloco pelo seu próprio pé. O coração da médica passou a ter uma pulsação desrrugulada, enquanto que, eu quase adivinhava o sofrimento cardíaco daquele doente. Após ter entrado na área do B.O. a médica verifica que tais roupas não lhe eram estranhas e que, estava quase certa que aquela pessoa era ele. Ao tentar levar-se à pressa para ver a situação da cirurgia, mas não chegou a tempo.

Mal põe a máscara e tem acesso a sala cirúrgica, os colegas abanam-lhe a cabeça como quem diz que foram feitos todos os possíveis, mas que não o conseguiram salvar. Ela tira a máscara e faz a relação completa das coisas. O treme-treme, as dores que ele tivera há alguns anos, os choros, os bateres fortes de coração, as maluquices, o estranhos fetiches, tudo isso foi relacionado naquela altura por ela.

Após isso, e já com a sala sem mais ninguém existe um abraço, aquele, que para ele, já não serviria de nada, porque ele já não pensava, via, nem sequer podia sentir aquela roupa, aquela bata que ele adorava! Porque estava morto. Ela arrependeu-se de tudo do passado. No entanto, para ele tinha sido demasiado tarde. Ela tenta fazer-lhe massagem cardíaca, já bastante desesperada , mantendo a fé em que ele pudesse "reviver". Mas ao ver a assinatura dele, naquele papel que pedia para não ser reanimado, deixou-a fora de si. Foram dados murros no peito dele. De forma a que ele pudesse viver de novo, até que apareceram valores de batimento cardíaco. Mas não suficientes. Apenas quando lhe dava a pancada, ele reagia. Foram precisas horas até cerca das 23 horas do dia 9 de Março para que ela se apercebesse que ele estava definitivamente MORTO. Que poderia ela fazer naquele momento?