A viagem até ao Hospital onde Roberta trabalhava tinha de ser feita. Ela começava naquele dia a testar os conhecimentos numa nova especialidade, Gastrenterologia. Por Portugal, Carlos chega a casa, onde vivera antes de ir para Londres e sente-se aconchegado pela família, mas longe de quem realmente o fazia feliz e sentir bem. Desde Setembro que em Londres, estavam apenas Carlos e Roberta. A família de ambos estava longe, como ao fundo de um túnel que não se consegue ultrapassar.
Carlos mantém o contacto com Roberta, apesar de, entre conversas de risos existirem momentos de choro e saudade. Ele comentava que com a frieza dos ingleses, era impossível que existisse saudade, mas, ao que parece, não é bem assim. Num dos dias, Carlos não atende o telemóvel. Tinha ido ao hospital. Queixava-se de dores na fossa ilíaca direita, e pelo que sabia de anatomia, tudo indicava que fosse uma apendicite. Roberta não ligou à não-resposta de Carlos e continuou a estudar em casa.
Após realizar os exames, os médicos dizem-lhe que o resultado era desfavorável para o paciente e este iria, obrigatoriamente, ser cirurgicamente intervencionado. Não tinha uma apencidite simples, mas sim uma peritonite. Carlos, todo a tremer envia uma SMS a Roberta sem conectores, dizendo apenas: "dor fossa ilíaca direita hospital". Ela não percebeu. Continuou o estudo sem mais nem menos, deixando tal SMS na caixa de entrada "descansada". Roberta acabou o estudo e centrou-se na caixa que Carlos havia deixado na mesa de cabeceira.
Como já disse, era maravilhosa aquela casa. Estava cheia. Eram só textos lindos, alguns que faziam chorar, outros que faziam rir, e por fim, outros que mostravam a crua e nua realidade da vida de um adolescente/adulto. Ao acaso, Roberta pega num papel, desdobra-o e lê-o. Tinha um título esquisito: "Tal comportamento é correcto?"
"Já me arrependi de ter dito que ida à viagem de final de ano à Beira Interior. Ela não vai e estou triste com isso. É um dos nossos últimos momentos juntos. Quem me dera que ela fosse. Queria ficar a sorrir mais uns dias antes dos exames, e assim, acho que não vou ficar. Quem sabe...
Desde segunda-feira que ela anda estranha. Não a entendo. Costumávamos sorrir em conjunto nalgumas aulas, fazíamos adeus um ao outro, ou então enseriávamos a nossa cara. Era tão fixe! Não lhe posso dizer o que a melhor amiga dela me disse, tenho de respeitar o segredo! Ela é a minha melhor amiga, não a quero longe de mim. Perfiro que ela me mande SMS e me cumprimente, fale comigo até às tantas e me faça feliz. Ela tem esse 'dom'. Não a percebo agora. Acho que fiz algo de mal. Penso que ela não me tenha dito a razão de não ir, porque não queria contar o que se passava. Aceito essa ideia, mas não quero que ela se afaste. Acho que não fiz nada de mal.
Acho tanto e poucas certezas tenho. A única que sei veemente é que gostava que ela fosse!"
Roberta redobra o papel e coloca-o na caixa, não o comentando. Começa a pensar e a achar estranho tal silêncio de Carlos.
Por Portugal, Carlos estava com a cabeça coberta com uma touca verde. Antes de ser anestesiado disse ao médico que já tinha aquelas dores há alguns anos, mas eram intermitentes. O médico sorriu e transmitiu-lhe tranquilidade. O engenheiro logístico tinha-se deixado levar pelo relaxante muscular e tinha fechado os olhos. Estava tão calado. Marcava o relógio 13 horas e 48 minutos. Pelas 15 horas e 32 minutos tinha-se fechado Carlos e este passado para a Unidade de Cuidados Intensivos, ainda intubado. Algo se tinha passado de errado.
A mãe de Carlos é chamada ao hospital e após se inteirar da situação liga para Londres, avisando a funcionária do que se tinha passado. Esta, por sua vez, histérica e aos gritos, corre para Roberta e conta-lhe o que se passou. Roberta responde:
- GREAT!
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