terça-feira, 28 de dezembro de 2010

Future Thinking #4

A necessidade de ele sair de casa era enorme. Não se conseguia concentrar em quase nada. Os projectos que ele pensava eram de baixa qualidade, não existiam novidades para ele contar e a família seguia na rotina habitual.
Desta feita, aproveitou o facto de um Decreto-Lei que autorizava as permutas entre Universidades de Portugal, desde que o código do curso fosse igual. Ao conseguir trocar a cidade onde estava por uma do interior, longe da família e dos amigos, longe dos transportes que gostava e da preocupação no geral, tornou-se muito mais adulto.

Trocou as horas do dia. Ele já não acordava à sete e se deitava às dez ou às onze. Preferia acordar às três da madrugada, estudar até à hora de ir para a faculdade, almoçar por lá e assim que chegava a casa ceava qualquer coisa e metia-se na cama até às próximas três da manhã.

Era uma rotina completamente desregulada de toda a vida actual e portuguesa.

Ele vivia numa praceta, perto da faculdade. Um dia, acorda à sua hora normal e põe-se à janela, coisa que já era habitual, visto que ele mantinha a vida programada ao minuto. Ficava ali a vislumbrar a praceta e pouca vida humana existente a tal hora. Quando chovia, ao invés de abrir a janela, respirava para os vidros e ao ficarem embaciados começava aí a pensar no que iria estudar a seguir. Nos outros dias pegava numa caneca alaranjada que ele tinha levado para lá e bebe o seu leite – parte do pequeno almoço.

Após as três horas e pouco de estudo acaba por se vestir, perfumar-se e sair, em direcção à faculdade. Os autocarros tinham-se tornado um transporte que ele mal usava. Não precisava deles minimamente.

Ao chegar a tal local de estudo, ignorava todas as vida académicas existentes até ao dia em que lhe ofereceram um crachá de aluno da faculdade. Aí, passou a dirigir-se mensalmente à Associação de Estudantes mensalmente para pagar a quota e, tendo como benefício um check-up semestral. Algo que ele sempre achou bom, e ainda longe da família, era mais uma quantia que se poupava para os afazeres diários.

Acabava por chegar às aulas e, anotava o que achava importante, mal falava com quem tinha ao lado, que por coincidência era o seu vizinho do lado no prédio onde habitava. Mal terminavam as aulas ia à cantina buscar o seu jantar (que seria o almoço dos restantes alunos) para tomá-lo por volta da hora do habitual e rotineiro lanche da tarde normal.

De seguida partia para casa, quando não tinha mais obrigações e ao chegar a tal sítio tão próprio dele, bebia uma caneca de leite e deitava-se. Quando alguma obrigação o prendia, resolvia-a e de seguida acabava pela mesma rotina. Mas apenas estudava de madrugada com o cérebro fresco.

Uma vez, uma colega dele, que se sentava à sua frente pergunta-lhe o seu endereço de e-mail para trocar apontamentos. Ele dá-lho, mas a colega nunca consegue ter uma resposta imediata. Apenas a horas não tão normais, mas acabava por as ter. Certo dia, em vez de enviar um pedido de apontamentos, manda-lhe uma mensagem electrónica questionando a tão diferença perante a sociedade. Ele não lhe respondeu. Ficou com aquele enorme segredo para ele.

Ao manter dentro do seu castelo, de janelas fechadas e portas cimentadas, nas férias, antes de iniciar o estudo para as frequências, responde à colega:

“Olá. Não aches estranho tal hora, porque me habituei a viver assim. Estava cansado e farto de viver coo as pessoas normais viviam. Assim consigo ter um maior rendimento a nível académico e acabo por me esquecer de toda a vida paralela, seja ela sentimental ou racional, de diversão ou de responsabilidade. O facto de estar acordado de noite faz-me, além de ter vontade de estudar, reprimir os meus sentimentos passados, fugir à família que tenho em casa. Não que a família fosse má, porque não o é. Mas sim, porque se me quero tornar muito mas muito independente cabe-me a mim, nesta fase, ainda que não trabalho, lembrar-me dela, com conta e medida. Esta foi a medida que me ocorreu e por acaso é boa.

E com certeza deves ter ouvido os rumores na Faculdade. Apesar de eu não me pronunciar sobre eles, sim eles são verdadeiros. Tenho o quarto cheio de fotografias de transportes e o escritório no meio com uma fotografia de uma amiga que ficou por onde eu vivia antigamente. E além disso, também sou crente. Tudo isto tem uma razão de ser: os transportes, eu sempre amei transportes e aqui não preciso deles. Assim consigo lembrar-me de bons momentos que tive neles e acabar por adormecer de forma tranquila. O facto de ser crente, sempre o fui. Mais ou menos, dependente das ocasiões, sempre acreditei em algo superior À existência do homem. E por fim a fotografia. Não, não vale a pena acreditares nos rumores (de segunda versão) que correm pelas aulas, porque esses não são verdadeiros. Não, não é a minha miúda, ou nada parecido com isso. Apenas é uma amiga, mas uma excelente amiga. A transposição dos meus sentimentos não ocorreu da melhor forma e eu também não queria de maneira nenhuma estar a fazer e pensar algo que me pudesse ajudar para ver se ela alguma vez iria olhar para mim. Por muito que eu quisesse ou achasse benéfico para a minha vida (que o era, e não estaria aqui se tal tivesse acontecido), fugir foi a melhor solução. E acabei por me contrariar. Mas tanto a fotografia me mostra momentos felizes, como momentos mais chatos e pouco giros. Daí a contrariedade.

Sou apenas uma pessoa diferente cara colega, se precisares de mais algum apontamento, já sabes que to dou, mas… Terás a resposta por volta das três da manhã.

Cumprimentos,

O teu colega.”

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