Com o meu velho hábito de acordar cedo e de abrir os cortinados vejo um quarto no prédio em frente ao meu. Lá, numa cama de casal, estava deitado um rapaz. Um vizinho meu que me falava por vezes e, que era impulsionador de muitos projectos não só no concelho, mas no distrito. Ele também tinha o vício de abrir os cortinados quando acordava.
Pouco passava das cinco da manhã e eu já estava a pé, com os dentes lavados e com o que restava dos pacotes de leite na caneca, acompanhado de uma banana, já com marcas de negridão, quando olhei para a janela. Já o meu vizinho se mexia na cama, e tinha ligado o candeeiro da mesinha de cabeceira.
Era raro tal acto, ele nunca tinha ligado tal candeeiro. Então, curioso como sou, pus-me a olhar à janela. Apesar de ter ouvido os primeiros autocarros a passar na rua próxima da minha, vi-o a levantar. Ele abriu o cortinado e desejou-me bom dia, como sempre fazia quando me via na janela a tomar ar pela manhã. Depois ele saí do quarto e foi tomar o pequeno-almoço penso eu, não vi.
Mas uma coisa era certa, às sete e dez apagava a luz do quarto e dois minutos depois, estava a sair de casa com uma pasta na mão esquerda, sempre a correr (não no sentido de dicionário, mas sim num caso de passo rápido e de costas bastante direitas). Ele ia para a escola aprender e trabalhar, ou então apresentar os seus projectos, enquanto que eu ficava em casa todos os dias, 7 dias na semana. Não saía. Só saí de casa um mês, em Novembro do ano passado, de resto, sempre tive aqui fechado, ao contrário dele.
Pouco depois da hora de almoço ele voltava, num passo mais calmo, até parecia mais cansado, mas não me via. eu tinha fechado o cortinado e estava a vê-lo por dentro. Ele era o meu amigo. Era a única pessoa que falava comigo. A não ser uma vizinha do mesmo prédio, e do mesmo andar que por vezes me dava algumas as compras que fazia, porque tinha pena de mim.
Lá mais para a tardinha, ou para a noite, ele chegava à Internet e eu sempre com tal programa de conversação ligado. O meu amigo apenas tinha metido conversa duas, três ou quatro vezes comigo. Desde o secundário dele, ao que parece. E quando o fazia, eu sempre soube que era por mau sinal. Na primeira vez, ele disse-me olá. E eu perguntei se ele estava bem. Ele respondeu-me que sim, mas eu, ao olhar pela janela, pude ver que ele estava triste. Mas ao invés de lhe dizer tal visão, engoli saliva e continuei. Ele saiu da Internet pouco tempo depois de eu ter olhado pela janela. O que eu vi foi ele a chorar. E depois, desligar o computador.
E sempre que ele metia conversa dizia que estava bem, mas acabava por fazer o que fez da primeira vez.
Ontem, ele disse-me de novo olá. E eu num tom mais agreste perguntei com quem é que ele se tinha chateado. Ele apenas me respondeu que daquela vez não estava chateado, mas sim apaixonado. E tal paixão tinha-o deixado triste, desconsolado, sem vontade de continuar. E eu, tentando ser amigo, apesar de apenas ter sorte a falar com autocarros e outros transportes, tentei dizer-lhe que não era o fim do mundo e que nada nem ninguém o poderia deitar abaixo.
No entanto, como é óbvio, ele não iria ligar a uma pessoa que não sai de casa, não é inteligente, e apenas se interessa por transportes públicos. De forma disfarçada disse-lhe isso. Ele respondeu-me dizendo que as mãos da pessoa amada eram sensíveis às mudanças de temperatura e que contrastando com as outras pessoas, o calo dela era giro e condizia com as mãos. E lembro-me de ele me dizer mais cinco ou sei características, como a altura, a forma de estar e maneira de ser da pessoa amada dela. E eu deixei-o falar até ao fim. Enquanto ele escrevia, espreitei pela janela. Desta vez não vi um rapaz com cabeça baixa, ma sim bastante direita, com um sorriso na cara a escrever acerca de quem lhe fazia sentir bem.
Entretanto, nessa conversa, chegou o momento de eu lhe perguntar se tal rapariga gostava dele. E ele, como rapaz forte que sempre me pareceu, disse directamente que não. E eu olhei pela janela: o sorriso tinha dado lugar a uma cara triste, sem vontade de fazer nada. Mas ele não chorava. Apenas ficava triste e com ar de quem chorava. E em vez disso, enchia os pulmões de ar e depois suspirava (pelo menos é o que parecia, ao longe não podia ouvir).
Despedi-me dele com um até amanhã, com um símbolo indicando um sorriso, ao qual ele respondeu que "não, ela e eu não. Não combinávamos minimamente. Eu apenas sei trabalhar. Apesar de querer ter um relacionamento com ela e de se calhar ter de fazer mais para conseguir algo, não sei o que fazer. Acho que seria trabalho perdido. Obrigado".
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