Era uma manhã, onde a chuva variava com o aparecimento do Sol. E eu estava sentado numa sala de audiências. A fazer não sei muito bem o quê, dado que à luz da lei, estar apaixonado é algo que não é crime, pelo menos à primeira vista.
Calado, sem plateia, apenas com os colectivo de juízes e o advogado de acusação, visto que não quis advogado para me defender, exactamente às 8h32 começou a sessão, após as tradicionais pancadas dadas pelo juiz presidente.
Fizeram-me imensas perguntas. Lembro-me de todas:
Juiz (J): Ao que parece o senhor está aqui a ser julgado porque se apaixonou, é verdade?
Eu (E): É verdade, sr. dr. juiz.
J: E o que o levou a ficar perdidamente enamorado por tal rapariga?
E: A sua cara, de firmeza mundana. O cabelo bonito com a água de um rio despoluído. O pensamento de uma pessoa adulta, com reacções justas na maior parte das vezes. Um corpo esbelto sem um único defeito que eu possa ditar. E o interior, cada vez mais bonito. Quanto mais para dentro eu avanço no que eu conheço da dita rapariga, mais feliz e contente fico.
J: Acha bem tudo isso que acabou de dizer?
E: Sem dúvida. Eu até posso já ter ouvido e ter tido respostas imensamente negativas, mas o amor quebra todas as rotinas diárias. Não nos deixa ficar tristes. Apenas com medo, quando não dizemos à pessoa amada que estamos apaixonados por ela.
J: Não arranje desculpas onde elas não existem, sr. réu. Explique-me, porquê? Porque é que se apaixonou por uma rapariga que, simplesmente, é uma rapariga na sua vida?
E: Se calhar é porque essa rapariga não é simplesmente uma rapariga na minha vida, sr. dr. juiz.
J: Não aceito essa resposta. Seja mais claro!
E: Sim senhor. Assim serei. O amor não escolhe idades nem pessoas. Quando olhamos e vimos que estamos apaixonados por aquela pessoa, podem fazer tudo, mas só nos interessa ela e mais ninguém. Por muito que queira pensar no passado, coisa que faço por vezes, que me faria estar quieto e não estar aqui sentado possivelmente, não. Não posso fazer uma coisa dessas. O presente e o sentimento do agora é que é importante. Não o que já passou. Não o que já me disseram não. E muito menos, o que já aprovaram.
J: Mais uma vez não foi claro. Esta é a última oportunidade que lhe vou dar.
E: Mande-me para a cadeia. Prenda-me lá. O amor não é explicável. Eu não o consigo explicar. E não quero. Eu simplesmente quero amar quem amo. Estar apaixonado por quem estou apaixonado. E depois é que vem a tristeza, quando ouvir um não da boca daquela rapariga. E se o sr. dr. tivesse lido no meu processo que apresentei a este tribunal veria que eu sempre indiquei esta paixão enorme como platónica. E eu também não consigo explicar o platonismo. É algo abstracto. Meta-me dentro da cadeia. A pena que quiser. Eu só não quero que ela me veja em tais condições. E dessa forma, que não vou poder assumir perante a pessoa que é ela a minha paixão, faço figas para que tal rapariga componha a sua vida no futuro, sorria, e seja feliz. E eu, ficarei, num espaço que não conheço, de tal forma triste porque além de não ter tido coragem suficiente para lhe ter dito a verdade, fui um ignorante ao ponto de amá-la agora, e além do mais, não me soube defender convenientemente perante este tribunal.
J: Basta, eu não quero ouvir mais atrocidades. Claro que a rapariga lhe ia dizer que não. Já se viu ao espelho? Já rebobinou as cassetes para ver o seu comportamento?
E: Sim, e não seria namorado bom para ninguém.
J: Está preso por 25 anos, com a agravante de executar trabalho comunitário por mais 15 após a prisão preventiva.
E: Por fim, interponho recurso. Mas deixem-me viver só mais uma vez, dizendo ao mundo fora daquele tribunal à porta, que fui parvo em estar calado, mas o erro foi meu. E não é por um julgamento que me vão poder decidir se amo ou não, quem eu realmente amo. E se não aceitar recurso, muito bem, mande-me prender de imediato. A força que tenho não me faz arrepender de nada do que disse ou fiz! Apenas de ter mentido.
"O amor não é explicável . Eu não o consigo explicar."
ResponderEliminarsem dúvida Duarte. O amor sente-se !