quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

A melhor prenda de anos...

Estava eu sentado num cadeirão num quarto de hospital a visitar um amigo que está em fase terminal. Não por ter tido cancro, mas porque a sua vida, de forma natural, estava a chegar ao fim e, o dinheiro levou-o para uma cama de um privado e bem organizado hospital para lá perecer.

Parecia que escutava as suas memórias, e como sempre gostei de mistérios e já lá vão uns bons e largos anos, tomei particularmente atenção àquela recordação.

"Era o que eu queria, mas é impossível. Não faz minimamente sentido e tenho estado confuso dia após dia. Ela e eu, eu e ela... Ela e eu, eu e ela. Não, não dá. Quero é que ela fique e siga a sua vida de forma feliz, e eu devo proporcionar-lhe isso, em vez de estar a dizer-lhe que não pode ser ou então ficar cheio de mágoas quando alguém se aproxima dela. Eu não sou dono dela. Os humanos não têm dono. Têm amigos, namorados, alguns são casais. Tenho é eu de mudar a minha atitude. E não mantê-la como está agora. Por muito que me custe tem de ser feito. Não quero nem que eu sofra, nem que ela tenha sempre a mesma visão que tem. Chega. Por muito que eu diga que sim ou que não, ou que talvez, eu tenho de perceber que estou bem assim e que é impossível mudar a relação. E ponto final. Independentemente do que eu desejasse.

Era um excelente prenda de anos, eu adorava receber tal coisa como prenda de anos. Mas não, tenho é de tirar o cavalinho da chuva. Como é algo impossível... Tenho é de me desimaginar de tudo isto que fazia com que a minha vida mudasse um pouco. Não... E já lá vão tantos nãos.

Nem 8 nem 80 por favor.... Tenho pena. Mas não posso ter pena.... Que estupidez a minha... Eu percebo perfeitamente tudo. Imagino é de mais. Não posso, nem devo sentimentalizar o que é isto. Desimaginar e desentimentalizar... O pior é que... Acho que preciso de algum tempo para proceder a tal coisa. Espero conseguir, ou melhor... tentar é o primeiro passo. É algo impossível...."

Bem, que confusão que eu vi naquela imagem. Não sei o que poderia ser. Penso que... depois de eu ter saído do quarto para ir à casa-de-banho, chegou a hora dele. Avisei a enfermeira e o médico e tapei-lhe a cara. Derramei uma lágrima sobre o lençol que o cobria e abracei-o. Depois, sai do quarto a chorar. Não tinha percebido nada e nada estava certo para ele, nem naquele momento em que ele deveria estar calmo.

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