Era manhã, como todas as manhãs e estava frio como estava em todas as manhãs de Inverno. O céu estava carregado, mal se via o Sol, ou melhor, o Sol ainda não tinha nascido. Quando espreitei pela janela do meu quarto vi um manto de neve a cobrir toda a rua (carros, passeios, estrada, telhados, varandas e até o jardim). Neve já tinha visto muita, mas na minha rua nunca. Era a primeira vez, mas eu tinha de ir apanhar o autocarro àquela hora certa e não a outra e não podia nem tinha tempo para brincar com a neve acabadinha de cair do céu.
Por muito que quisesse, quando cheguei à escola neve não havia, dado a proximidade do rio, a temperatura não tinha descido o suficiente para nevar ali. E então, nada melhor do que seguir a minha rotina habitual e pôr-me no quentinho do meu gabinete.
Naquela manhã, na estúpida fase em que estamos acordados, mas não nos apetece sair da cama, mas nem sono já temos (onde apenas queremos sonhar mais um bocadinho com o sonho da madrugada ou então sorrir por algo feliz), veio-me à cabeça a palavra paixão.
E sim, de facto estou apaixonado. Mas... Mais uma vez tenho um anjinho no meu ombro esquerdo a pensar coisas e a mandar argumentos e um diabinho no meu ombro direito a influenciar tudo o que o anjinho diz. Se formos a ver, seguiria os conselhos do anjinho, até que os ossos da minha coluna vertebral estão mais para a esquerda do que para a direita e até sou canhoto.
No entanto, não. Apesar de ficar ali a pensar no que fazer, se a paixão é mesmo verdadeira, ou então sou eu a relembrar factos do passado recente e antigo, a conclusão a que chego é que tenho de me despachar e acordar. Com tudo isso, só no meu gabinete quentinho é que volto a pensar no assunto.
De facto, não faz sentido enganarmo-nos. E se está cá um bichinho do amor activo, nada melhor do que o pôr de fora. Como me dizem, o não está sempre garantido. Neste caso, e aplicando conhecimentos de Psicologia, posso associar ainda, uma variável parasita (e atenção que o amor não é nenhuma experiência), o meu grande medo. Desde o meu Ensino Básico que eu fiquei com medo de poder amar livremente. E por isso, o anjinho e o demónio, digo eu.
Então, tenho de pensar. Se não me quero enganar e não me quero medo, o melhor a fazer é ser o mais directo possível, mas ups... Parece que o demónio faz das suas e me faz lembrar das tampas que me deram. E com tudo isso, eu mantenho-me quietinho no meu cantinho, com desculpas estonteantes, crises adolescentícias parvas e caras estúpidas quando penso no amor. Até pode fazer parte da idade, mas é de mais já.
Por muito que possa chorar ou dizer "que estupidez", ninguém vai olhar para mim, eu olho para uma rapariga. Ela é perfeita no meu ponto de vista e é a miúda dos meus sonhos. Mas parece que ela me torce o nariz nisso.
Tentando estar sem anjinho e sem demónio, coisa que é difícil e de coração bem aberto, o mais que posso fazer é ser sincero, verdadeiro e justo, perguntando se ela quer ter algo comigo.
Mas adivinho a resposta, (mau já tenho aqui outra vez os meus maus conselheiros), mas não interessa,
"Do you want it?"
PS: Naquele dia, a neve não derreteu, o dia estava tão frio que quando voltei da escola, peguei num pedaço de neve e esfreguei-o na cara. Estava tão fresco e molhado, mas quando cheguei a casa, já nem disso me lembrava. Tinha os meus maus conselheiros darem-me cabo da cabeça com a história do amor.´
Realmente, que dia este
Realmente, que dia este
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