365 dias tinham passados e mais uma quantidade deles tinha eu pela frente. Não me apetecia minimamente ir para um restaurante, vestir um fato e uma gravata, sendo esta última roxa, ter a etiqueta do "bebe por este copo isto" e minimamente queria estar ali naquele ambiente inrespirável.
Estava perto da praia, mas o frio também apertava. Fugi. Saí de ao pé de quem me aturou anos a fio, desde pequeno. Peguei na minha trouxa, corri pela escada abaixo, passei a estrada e sentei-me no areal junto da lagoa.
O mar estava revoltado, nem eu me atreviria ir para junto dele. Ali estava bem, as águas ainda tinham alguma corrente. Lá perto, estava um café cheio de gente. Alguém me viu e me ofereceu um copo de espumante. Enterrei o pé do copo na areia e com os ponteiros do meu relógio gritei sozinho o novo ano. Tinha sido diferente, no escuro, sem lume para me aquecer, sem companhia por livre e espontânea vontade, passei ali naquele sítio o ano. O ano e a década.
Um minuto depois das doze badaladas da igreja da freguesia onde estava, bebi o que estava no flute e levantei-me, atirei o copo para dentro de água com areia, como sinal de ano novo, vida nova, mas acabei por me sentar a apreciar o fogo de artifício que restava.
Por muito que eu mais quisesse fazer, não podia. Estava frio, a Lua mal se via. As nuvens já a cobriam. Ainda com grãos de areia, saí dali a correr, e ao pé do poste da luz, antes da passadeira, voltei-me para lagoa, pisquei-lhe o meu olho esquerdo e subi com a maior rapidez possível a rampa que dava acesso ao outro lado do restaurante chique.
Lá só estive mais meia hora. Dancei um pouco é certo, mas aquele sentimento que tive na praia, bateu recordes! Foi o melhor de todas as passagens de ano. No escuro, sozinho, a festejar uma mudança que é mínima e que traz ao país tantas medidas de austeridade.
No fundo, aquele piscar de olhos era vontade de tanta coisa, mas era escuro... E seria por mais umas tantas horas. Muito não podia fazer eu.
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