sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

Uma viagem de barco

A partida do barco já estava anunciada, àquela hora, naquele dia daquele ano, a viagem tinha de ser feita. Por mais voltas que o mundo desse, o barco tinha de partir. Havia mercadorias para levar, pessoas para transportar e marinheiros com vontade de trabalhar, de boina branca de risca azul escura e crashás ao peito, junto do coração.

No meio de tal navio, partindo do porto de tal majestosa cidade ia uma pessoa. Aterefada com as suas leituras, com os phones nos ouvidos, não ouvira o apito do barco. E assim começou a viagem sem regresso às terras lusas, com vontade de chorar na partida e furor à chegada no destino.

Outro passageiro acenava às pessoas que estavam a despedir-se de quem ia no navio, apesar de não conhecer ninguém. A estibordo empoleirado nos ferros sorria de forma tal que não se lembrava que não iria regressar a tal terra.

E ainda um terceiro, destemido, a ver por uma porta entreaberta para a ponte do barco todos os mecanismos, as perfeições e as imperfeições, a pensar nos desejos que tinha e nas impossibilidades causadas pela vida. Todos eles tinham no bolso direito do casaco vestido um papel, uma mensagem de quem lhes era entre querido. Por mais que quisessem abrir não podiam. A vontade da outra pessoa era apenas abrirem tal comunicação quando estivessem nas terra do outro lado do oceano.

A viagem era longa, mas o passageiro que estava no camarote nunca saía de lá. Apenas para comer. O passageiro que estava junto à ponte do barco sempre que podia ia para lá espreitar todos os comandos e tomava notas. E o outro, quando não chovia punha-se a estibordo a olhar para o mar infinito.

O último, apaixonado pelo mar, ficava ali perentoriamente a olhar para o mar límpido e completamente profundo. O estudioso que ficava sempre no camarote, tinha enchido as paredes do pequeno espaço com fórmulas e ideias que ninguém as ouvia. E ainda o outro, que tentava sempre ver a ponte foi convidado para manejar o leme por uns minutos. Os três estavam felizes, até que se encontraram certo dia na sala de refeições, sentados à mesma mesa.

As personalidades eram parecidas. Mas ambos tinham maneiras distintas de esquecer os entraves que lhes tinham posto, no entanto, todos tinham saído do país de origem para viver melhor, esquecer pessoas, ver outras cidades e tentar estabelecer uma nova família. Após esse encontro, parecia que o mundo se tinha entornado três vezes. Por mais que eles quisessem pensar doutra maneira, toda a vida já estava delineada nas mãos daqueles três.

E nas três vezes, que três pessoas leram as mãos dos três homens, no trigésimo terceiro dia da terceira viagem daquele navio, todos eles saíram de lá a chorar.

E eu, no canto da sala VIP daquele enorme navio, a bombordo, reparava na felicidade daqueles três. Tinham cada um o tal papel. Todos eles se tinham despedido de quem mais gostava deles. Todos eles partiam à busca de um sonho. No meio do escuro do meu minúsculo camarote dei-me como vencido, sem vontade de muito mais, com o lápis no chão, depois de desenhar uma prateleira com uma flor no jarro que lá estava. A forma do jarro era mais difícil de desenhar que a própria flor em si.

Aqueles três sorriam, diziam piadas, eram perfeitos para o novo país. Mas eu, ao contrário deles, estava no meu canto. Sentava-me na mesa com quem viesse ter comigo, ou onde existisse um lugar. Dizia boa tarde ou boa noite e comia. Depois agradecia a companhia e saía. Além de responder sim ou não consoante a questão que me faziam.

Chegou a altura do desembarque. Os três felizes saíram despediram-se uns dos outros e seguiram rumos diferentes. Eu, a tentar inspirar o ar da minha nova cidade sou empurrado como que uma leve mercadoria para a escada de saída.

Um ao chegar a casa abre o papel e lê.. "Lembra-te de mim". O segundo no autocarro abre e lê "Os meus olhos são assim sempre. Com uma pequena mancha de claridade na parte exterior do que é castanho". Por fim o terceiro abre no dia seguinte e vê um papel em branco. Mas lembra-se que era aquele papel que dizia tudo. Era a primeira folha que ele tinha escrito e onde as letras se tinham sumido.

Quando cheguei a casa tinha correio à minha espera. Não esperava nada. Mas ali estava o tal papel e uma chave verde amarelada escrita com excelentes recordações. Ao derramar uma lágrima, abro a janela do quarto e solto uma lágrima de saudade. Cá em baixo junto à entrada, onde a lágrima caiu estava uma pessoa que ficou com a cabeça molhada. Por mais que eu quisesse pedir desculpa não podia.

Por mais que nós não queiramos, a saudade invade-nos a alma, o hábito cria mágoa e a rotina estraga toda a nossa vivência. As igualdades não são simétricas, os desejos são sonhos e os sonhos, tal como nós, são pó das estrelas.
O silêncio compromete o ser vivo, o choro desgasta-o e a dor mata-o de sofrimento.

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