sábado, 1 de janeiro de 2011

Todos nós temos uma história para contar...

Muitos são aqueles que contam histórias de relacionamentos pensados e que nunca aconteceram ou então que perduram durante anos. Ou ainda, põem-se a relatar dias x ou dias y. Claro que também tenho momentos desses e não são poucos...

Mas a minha história, penso eu que é diferente.

Devia ter eu pouco mais de três anos, quando o centro comercial mais próximo de onde moro era em Setúbal. Sempre que podia pedia à minha mãe para jantar ou almoçar lá. Mas era sempre a mesma coisa, todas as vezes que comia no restaurante do canto. Apelidava-o assim, porque estava no canto do centro comercial. Nessa altura apenas gostava da perna do frango e como qualquer pessoa daquela idade, o acompanhamento era sempre batatas fritas. Vi uma vez o frango ir para dentro inteiro e vir apenas com as pernas, e eu perguntei à minha mãe - "o que fazem com o resto do frango?". A minha mãe respondeu de forma simples, "juntam para depois darem às outras pessoas".

O meu prato vinha meio-cheio e era mais a quantidade de carne do que de batatas fritas. Já era rotina. Estava eu no cantinho do restaurante do canto sentado, junto ao carro dos tabuleiros, com apetite, até vir uma senhora a pedir dinheiro ou então a pedir para nós comprarmos pensos rápidos. Quando via essas situações e a pessoa que vinha pedir aproximar-se de mim, perdia a fome (coisa que ainda acontece agora). Todo aquele banquete na altura, dentro do prato branco ficava ali. A minha mãe comia o prato dela e mais um pouco do meu prato, e íamos embora. Enquanto não saísse dali e não visse outra coisa que me cativava ficava perdidamente a olhar para a senhora a afastar-se da nossa mesa... E a ser ignorada pela maioria das pessoas que ali estavam a comer.

Depois disto, uns mesitos mais tarde, entrei para a catequese. Foram longos anos em que me sentia tranquilo e em paz. Ia nos primeiros anos à missa ao domingo de manhã. Já era rotineiro e eu gostava. Sentia-me bem com tudo isto. Deixei de ir ao restaurante do canto, em Setúbal. Pedia cada vez que ia ao tal centro comercial para não ir lá, porque ao já ter noção de quanto o dinheiro podia ser difícil de ganhar (desde quando pedi à minha mãe um Game Boy COLOR Verde que custava 16.750$00 e tal senhora me deu a escolher entre um mês de comida ou o Game Boy), não queria deixar comida no prato se visse alguém a pedir.

A catequese. Foi lá que eu fui batizado. Em frente a todos os meninos da paróquia, eu a receber a bênção com dez anos.

Depois disso, até quando vejo pessoas nas ruas me sensibilizo ao ponto de ficar triste bastante tempo. O que me distrai é ver autocarros ou outro meio de transporte ou quando era mais pequeno ver camiões do lixo (sim, porque era fanático por camiões do lixo - e é por isso que não me mete impressão alguns odores, com a idade passou).

E com tudo isto, e dado que não via o meu pai há imenso tempo, a minha mãe era o centro da minha vida. Sempre que podia ligava-lhe, de manhã, à tarde, à noite - era o que eu mais gostava de fazer e apenas dizia olá!

Inevitavelmente continuei a crescer e fiz o ciclo preparatório. Por muito que eu quisesse sempre tentei ajudar os alunos mais necessitados e referenciados por maus tratos ou poucas possibilidades económicas (ainda há pouco tempo quando me perguntaram se eu conseguia angariar alguma pessoa para ir a Roma connosco eu respondi que me dava mais com pessoas que à luz da República Portuguesa tem um estatuto social (que horror de palavra) inferior e que não podiam ir a Roma - disse isto com convicção e fé de algum dia podermos ajudar de forma muito mais justa os mais necessitados!).

Com mais ou menos sorrisos, a minha cara de contentia, com a vida passada, pouco tinha motivos para sorrir. Tinha-me tornado sério. Não tinha vontade mínima de brincar ao que os meus colegas brincavam e acabava por tapar todas as minhas tristezas com trabalhos de ajuda em áreas da escola ou em projetos. E isso ainda acontece agora.

No século XXI, no ano de 2011 que agora começa, pouco há feito, mas muito há a fazer. Não é por existirem mais medidas de austeridade que a sociedade mais se equilibra (apesar de muitos dizerem que as medidas são necessárias). São as pessoas que se têm de entre ajudar. É o povo que se revoltou em 25 de Abril de 1974 contra Marcello Caetano que se tem de mexer e tentar de forma altruística e filantrópica ajudar os outros de forma correta.

Não é com elogios ou palavras doces que me faço de contente. Apesar de adorar ouvi-las, não gosto minimamente que me agradeçam. Porque se eu fiz e por vezes, com muitos custos meus e chatices que passei para ajudar, foi porque quis e consegui. Isso sim dá-me prazer pessoal.

E repito que gosto das palavras queridas que me dizem quando ajudo. Mas não é só aí que eu ou qualquer outra pessoa precisa. São todos os dias. Quando vimos que alguém não está bem, mesmo que já saibamos a causa e possível consequência. E não podemos julgar as pessoas pelo seu exterior. Outra coisa que acontece bastante no nosso país.

Como eu, uma pessoa de personalidade forte, mas de gancho (que chora se for preciso todos os dias, quando se sente ou só ou quando não consegue o que pretende, uma pessoa que tem objetivos e com o país que temos não conseguimos alcançá-los e com a sociedade que existe nunca as possibilidades chegam ao pé de nós) existem mais pessoas, e sim... Nós fazemos parte do grupos das melhores pessoas que andam por aí. A pena que tenho é que tais pessoas não vejam o seu trabalho valorizado. A qualquer nível que seja. Por muitas vezes, o obrigado é mais uma palavra feia, o sorriso é escasso, e o "passou bem" não é claro, além de que as prendas materiais não são boa opção. O sentimento é que conta! E esse sim, é importante para mim e julgo eu que também é importante para pessoas parecidas comigo.

No fim de contas, quem muito tenta ajudar, nunca ou muito tarde vê o reverso da moeda. Isso mói-me imenso. Mesmo bastante e nos últimos tempos ainda mais, mas ao menos ao darmos um murro na mesa podemos dizer que ajudámos tal pessoa. E o que mais nos entristece é não perceber o que os outros fazem por nós!

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