quinta-feira, 11 de novembro de 2010

Da minha janela eu vejo #4...

(Hoje a minha janela são os meus olhos...)

Vejo a minha melhor amiga a ser levada por um palhaço para um casebre longe de onde vivemos, dentro de um carro preto. Nada podia fazer, pois poderia estar a colocar a vida dela em risco.

Duas horas mais tarde, apareço no casebre mascarado de carteiro. Aí, quase que mecanicamente me aprisionaram-me. A sala estava vazia, apesar de estar lá palha, ela, eu, uma televisão e o palhaço com as respectivas cadeiras.

Sou forçado a sentar-me numa cadeira antiga, enquanto que o palhaço me amarra e está de cabeça baixa. Durante esse tempo, faço sinais com a cabeça para que a minha amiga saia daquele casebre com a cadeira às costas, fazendo ainda sinal que atrás de uma pedra, onde ela podia partir a cadeira, estava uma nota de dez euros, para que ela pudesse apanhar o autocarro.

Ali poucos autocarros passavam, um de manhã e um à noite. Eu queria que ela fugisse dali. Ainda com medo, de já com a cadeira partida, o palhaço dá pela falta dela e o autocarro já se avizinhava. Ela corre que nem uma louca pela encosta abaixo, apanhando ainda o dito transporte.

E eu ali sentado junto ao palhaço, depois de ele ter regressado. Ele não se importava se fosse eu ou ela que estivéssemos reféns, porque apenas era um desejo dele fazer alguém refém. Apesar disso, ele sabia que nós éramos amigos.

Passaram-se anos e soube pela velhinha televisão que ela se tinha tornado esposa do chefe de governo.

Do nada o palhaço mata-se. E eu continuo ali, agora sozinho a ver um corpo em decomposição.

Ainda preso, mas já maluco da cabeça, consigo pegar num objecto cortante e atirá-lo ao ar. Mas nunca tive jeito para o voleibol, daí a faca se ter espetado junto ao coração. Eu comecei a ver o meu sangue a correr pelos meus braços e a coalhar no chão, e ainda uma faca no meu coração.

Duas mortes em pouco tempo. Porque é que ela não me veio salvar? Eu vim salvá-la, porque não queria que ela sofresse.

Mas não entendo porque é que ela não veio ter comigo. E agora estou morto. Não vivo. E ela, feliz, não sabendo que estou morto.

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