sexta-feira, 19 de novembro de 2010

Autocarros, escrita e dinheiro....

Levantava-me, ia para a escola, almoçava, vinha da escola, arreava a mala em casa e ia ver autocarros.

Saía de casa depois de comer uma ou duas bolachas, com um papel na mão com uma base rija para que pudesse escrever: o número do autocarro, o serviço, o horário e a carreira. Fazia isto todos os dias úteis. Estivesse chuva ou fizesse Sol, independentemente da estação do ano, estava ali sentado, naquele banco branco, por baixo das árvores, horas infindáveis.

Sem telemóvel, computador ou qualquer outro aparelho tecnológico. Apenas o meu corpo, a minha roupa, os meus sapatos, a minha caneta e o papel com a base rija.

As pessoas passavam apressadas para chegar a casa e eu ali, debaixo daquela árvore que transmite alergias na Primavera e no Outono, e que me cobre o Sol no Verão e não deixa aquecer nada no Inverno.

Tempo e tempo e tempo e tempo. Escrita atrás de escrita atrás de escrita.

Uma vez uma pessoa parou. Tentou perguntar-me as horas e eu respondi. No dia seguinte, um jovem perguntou-me as horas e eu respondi. No terceiro dia uma senhora de idade perguntou-me as horas e eu respondi. Chegámos ao quarto dia, quinta-feira, e um outro rapaz vem-me perguntar as horas e eu expulso-o das minhas proximidades. Longe de mim, parecia uma ave a fugir da boca de um leão.

E continuei naquele dia até à noitinha, a contar autocarros, a ver veículos, a dizer horas. Na outra semana, deixaram moedinhas. No primeiro dia contei um euro, no segundo dois euros e no terceiro cinco euros. Mas eu não queria dinheiro. Guardei aquela quantia que me tinham dado e meti-me no autocarro e fui ao Terminal. Aí passei uma tarde.... Calado como sempre, com um papel com uma base rija por baixo a anotar tudo. Mas nada, nada mais do que a minha roupa, sapatos, caneta e papel.

Apesar de tudo, e da proximidade do mar, um dia saltei para lá para salvar uma pessoa que tinha caído, porque tinha estacionado mal o carro. Depois disso, meti-me em casa e nunca mais saí. Fiquei lá o resto dos dias. E os autocarros puff. Foram-se....

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