terça-feira, 9 de novembro de 2010

Da minha janela eu vejo #3...

Uma estação de comboios.

Uma estação de comboios, mas em tudo diferente das outras, onde os comboios chegam com muita frequência e partem de longe e longe. Esta estação já tem uns anos, mas lembro-me da sua construção, já cá estava. Vi ser posto pedra após pedra, ligarem os cabos eléctricos e também a vi ser inaugurada.

Agora, passado esses anos, apenas vejo poucas pessoas na estação, mas a mesma continua a ser rentável para a empresa que a explora, porque os lucros não são os bilhetes, mas sim a emoção. Consoante o humor da pessoa, assim é dado o valor que é debitado na conta da empresa responsável pela estação.

E eu ali, em frente a ela. Raramente ponho lá os pés, prefiro caminhar mais um pouco e utilizar o autocarro, para efectuar o mesmo percurso. Mas hoje, algo me levou a estar mais de uma hora junto à minha janela a ver os comboios. Não porque gostasse deles tanto como gostava dos outros, mas porque algo se estava ali a passar.

Vi alguém ali, na plataforma, sentado no banco, sem bilhete, com uma máscara posta. Via-se ao longe que era uma máscara, de fraca qualidade, mas que era tal e qual a cara do rapaz que ali estava.

Por trás daquele sorriso mascarado, via-se bastante bem também a expressão negativista daquela pessoa. Estive imediatamente para descer e ver o que se passava ali, mas não tive coragem. Fiz outra coisa: liguei para a bilheteira. Tinha conseguido o número, porque numa das vezes que existiu uma greve dos autocarros, pedi o número ao revisor. Vinha eu da escola.

Liguei como disse e perguntei quando é que tinha sido a última vez que o comboio tinha partido. O funcionário não me deu nenhuma resposta com sentido. Apenas um "há pouco tempo".

A noite chegou e eu deixei de poder olhar para a estação. Fiquei com a expectativa de aquele rapaz ter seguido a sua vida.

Na manhã seguinte vou, espreguiçar-me, como de costume à janela, e vejo ainda lá o rapaz. A tremer, a chorar, sem nada por cima e um dos comboios já aí vinham. Mas desde aquela última partida que aquela plataforma não era usada. Ou seja, as pessoas, saiam pelo outro lado, nunca viam o pobre e triste rapaz ali. Já não podia fazer mais nada senão ajudá-lo. Desci as escada do meu prédio a correr e fui, com um cobertor meu à estação. Ele ainda estava com a máscara posta. E trouxe-o. Ele mal subia as escadas do meu prédio. Quando consegui chegar com ele à cozinha, e lhe tirei aquele objecto tão falso, tentei animá-lo com um chá quente, e uma torrada.

Ele continuou calado, mas comeu tudo. E eu estava sem fome. Pareceu que houve transmissão de sentimentos. Depois de ele comer, e já com um aquecedor ligado para que os pés gelados pudessem aquecer, pergunto-lhe o porquê de ele ali estar há dois dias, naquela plataforma de partidas e poucas chegadas. O pobre rapaz respondeu utilizando os braços, simulando um aconchego e de seguida voltou-se para a parede da minha cozinha e direccionou o dedo indicador esquerdo para a estação dos barcos. E eu anotei.

Já se tinha passado mais de 30 minutos e eu ali com ele, na tentativa de ouvir um nome, uma morada, algo que me pudesse levá-lo a casa, ou a alguém que o conhecesse melhor que eu, e de certa forma o pudesse ajudar. Ele levantou-se, após eu dizer que ia o que queria levar ao hospital. Queria fugir, mas eu tentei tranquilizá-lo. Quase de arrasto me levou da estação dos barcos à estação dos comboios e daí a uma rua longe dali. Já eu cansado de andar e ele, já cambaleava e apontou para um prédio. Toquei à campainha e veio uma senhora de meia-idade. Questionei tal senhora acerca do rapaz e a mesma disse que o conhecia há algum tempo. Eu pedi, com muitas desculpas, se ele lá podia ficar. A senhor aceitou. E ele, subiu as escadas mais uma vez.

Lembro-me de no fim das escadas ele me ter feito adeus, e, ainda, me ter vindo ver à janela. A partir daí, não soube mais nada, mas via e continuo a ver, naquele lugar um rapaz, com aquela máscara, à espera que um comboio chegue naquela plataforma de partidas. Um comboio para ele...

Ele está lá, mas já tem uma mantinha, apesar de continuar à espera.

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