sexta-feira, 5 de novembro de 2010

A brincadeira a que se chama morte

Estava uma manhã de Sol. Era Outono. Uma sexta-feira. Ainda cedo, aquele rapaz sai de casa a pé e passa duas estradas perigosíssimas e nada lhe aconteceu. Rapidamente chega ao pé da escola dele. Aí, quando faz a curva no passeio para entrar pelo aberto àquela hora, ups... Olha para trás, porque ouve uma respiração ofegante. Mas não era nada. Ninguém nem nada de diferente ali estava. Apenas um largo campo com buracos fundos e ainda alguns camiões estacionados.

Ao pé do portão da escola, ouve-se um disparo. No instante seguinte, depois de o rapaz ter olhado para a direita, de forma a que pudesse perceber o que se estava a passar, sente algo a entrar no seu corpo e cai no chão. Ninguém ali passou até mais de meia hora depois. Quando a funcionária de um dos pisos da escola ali passa e vê aquele rapaz ali deitado no chão, quase que grita. Ele não tinha nada ao pé dele, nem mala, nem saco, nem carteira, nem tão pouco telemóvel. A senhora com vontade de ajudar o rapaz, já frio e de olhos fechados entra de rompante na escola e começa aos gritos. Liga para os bombeiros e pede que venham com a máxima rapidez.

Poucos minutos depois, começam as sineres a serem ouvidas, todas diferentes, uma ambulância do INEM, um carro da polícia e uma viatura que trazia um dos médicos que poderia ajudar os bombeiros na necessidade de algo mais técnico. A Polícia fecha a estrada. Os alunos apenas podiam circular por metade da escola. A entrada principal estava fechada, ninguém podia sair da escola. Apenas entrar, mas ninguém sabia disso. Alguns professores estacionam o carro do outro lado da escola e entram. Outros, mais curiosos aproximam-se o mais que podem do local e vêm ali um rapaz caído no chão, com pessoas de volta dele, a verificar se aquele corpo ainda vivia. E os minutos passavam... A campainha da entrada tocou e ele não apareceu às aulas. Estava ali deitado no chão, mas nenhum colega, nem professor da turma sabia o que se tinha passado.

A tal funcionária vai ter à sala onde o aluno ia ter aulas e pede para ter uma conversa com a professora de tal aula. Algo rotineiro para a turma e dessa forma ninguém estranhou. Quando a professora daquela hora volta para aula, e onde estava a resolver exercícios de revisão para o teste que seria brevemente, engole a saliva  que tinha na boca e diz que o tal rapaz que era aluno daquela turma tinha morrido.

O corpo dele já estava tapado com a protecção própria e já estava dentro da ambulância a caminho do hospital mais próximo. A turma ficou sem acreditar. A aula continuou apesar de ninguém ter cabeça. Viam-se alunos que sabiam a tabuada de cor a fazer 5 x 3 = 14. No intervalo foi a confirmação. Os burburinhos entre os professores chegaram a alguns alunos e os corredores comentavam aquela morte. A turma está igual, mais triste, mais calada, sem vontade de muito, mas ninguém chorava. Todos eles eram fortes.

O lugar dele continuava vazio. Claro que ele não voltava, estava morto. A aula das 10h serviu para que todos soubessem a situação. Nem todos aguentaram. Apesar de fortes, começaram a chorar. Os lenços que tal rapaz tinha deixado no armário da sala não chegavam. No entanto, as aulas tinham de continuar.

Chegaram a casa os alunos. Ainda o corpo estava a ser autopsiado no hospital. Uma bala certeira e mortífera. Alguns choravam, outros pediam aos pais para estarem junto deles.

A Directora da escola liga aos pais a dar as condolências e ainda algumas palavras de conforto.

Um dia depois o corpo fica em velório. Lembro-me de pessoas que ficaram ali quase o sábado inteiro. Impediam que aquele rapaz pudesse seguir para o crematório. E todos choravam ali.

Ninguém conseguia pensar de outra maneira, mas ele tinha deixado tanta coisa escrita para tantas pessoas que, era explícito que rapidamente encontrariam estabilidade e a falta dele não seria sentida.

Mas continuo a ver pessoas a chorar e já se passou um mês. No fundo, quando atirei aquela coisa nunca pensei deixar as pessoas assim. Carreguei no botão errado à hora errada. E ele ali ficou. E eles ali choraram. E o nós puf.... Foi-se!

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