Ao pé do portão da escola, ouve-se um disparo. No instante seguinte, depois de o rapaz ter olhado para a direita, de forma a que pudesse perceber o que se estava a passar, sente algo a entrar no seu corpo e cai no chão. Ninguém ali passou até mais de meia hora depois. Quando a funcionária de um dos pisos da escola ali passa e vê aquele rapaz ali deitado no chão, quase que grita. Ele não tinha nada ao pé dele, nem mala, nem saco, nem carteira, nem tão pouco telemóvel. A senhora com vontade de ajudar o rapaz, já frio e de olhos fechados entra de rompante na escola e começa aos gritos. Liga para os bombeiros e pede que venham com a máxima rapidez.
Poucos minutos depois, começam as sineres a serem ouvidas, todas diferentes, uma ambulância do INEM, um carro da polícia e uma viatura que trazia um dos médicos que poderia ajudar os bombeiros na necessidade de algo mais técnico. A Polícia fecha a estrada. Os alunos apenas podiam circular por metade da escola. A entrada principal estava fechada, ninguém podia sair da escola. Apenas entrar, mas ninguém sabia disso. Alguns professores estacionam o carro do outro lado da escola e entram. Outros, mais curiosos aproximam-se o mais que podem do local e vêm ali um rapaz caído no chão, com pessoas de volta dele, a verificar se aquele corpo ainda vivia. E os minutos passavam... A campainha da entrada tocou e ele não apareceu às aulas. Estava ali deitado no chão, mas nenhum colega, nem professor da turma sabia o que se tinha passado.
A tal funcionária vai ter à sala onde o aluno ia ter aulas e pede para ter uma conversa com a professora de tal aula. Algo rotineiro para a turma e dessa forma ninguém estranhou. Quando a professora daquela hora volta para aula, e onde estava a resolver exercícios de revisão para o teste que seria brevemente, engole a saliva que tinha na boca e diz que o tal rapaz que era aluno daquela turma tinha morrido.
O corpo dele já estava tapado com a protecção própria e já estava dentro da ambulância a caminho do hospital mais próximo. A turma ficou sem acreditar. A aula continuou apesar de ninguém ter cabeça. Viam-se alunos que sabiam a tabuada de cor a fazer 5 x 3 = 14. No intervalo foi a confirmação. Os burburinhos entre os professores chegaram a alguns alunos e os corredores comentavam aquela morte. A turma está igual, mais triste, mais calada, sem vontade de muito, mas ninguém chorava. Todos eles eram fortes.
O lugar dele continuava vazio. Claro que ele não voltava, estava morto. A aula das 10h serviu para que todos soubessem a situação. Nem todos aguentaram. Apesar de fortes, começaram a chorar. Os lenços que tal rapaz tinha deixado no armário da sala não chegavam. No entanto, as aulas tinham de continuar.
Chegaram a casa os alunos. Ainda o corpo estava a ser autopsiado no hospital. Uma bala certeira e mortífera. Alguns choravam, outros pediam aos pais para estarem junto deles.
A Directora da escola liga aos pais a dar as condolências e ainda algumas palavras de conforto.
Um dia depois o corpo fica em velório. Lembro-me de pessoas que ficaram ali quase o sábado inteiro. Impediam que aquele rapaz pudesse seguir para o crematório. E todos choravam ali.
Ninguém conseguia pensar de outra maneira, mas ele tinha deixado tanta coisa escrita para tantas pessoas que, era explícito que rapidamente encontrariam estabilidade e a falta dele não seria sentida.
Mas continuo a ver pessoas a chorar e já se passou um mês. No fundo, quando atirei aquela coisa nunca pensei deixar as pessoas assim. Carreguei no botão errado à hora errada. E ele ali ficou. E eles ali choraram. E o nós puf.... Foi-se!
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