Travo o carro, tiro a chave e tranco o bem dito. Começo a subir a passagem desnivelada em direcção ao terminal. As memórias começam-me a vir à cabeça. Memórias essas mais esquisitas que outras, mas adoráveis. No entanto, todas passadas. Chego ao leitor de bilhetes e valido o meu passe intermodal. O barco estava quase a partir, com todos os atrasos de não haver autocarros tinha chegado mesmo à tira para apanhar o barco do costume. Assim foi. Lugar sentado já não fui. Fiquei um quarto de hora agarrado às partes metálicas do bar do navio, depois de beber um descafeinado, simplesmente porque me apetecia variar um pouco.
Os motores do barco diminuem o seu barulho. A chegada à outra margem estava a poucos minutos de acontecer. Dirijo-me para junto da porta de saída, para que, quando o barco atracasse e abrisse as portas pudesse ser um dos primeiros a sair. Bem dito, bem certo.
Mal o barco atraca e aquela porta abre, começo a correr desalmado pelo pontão acima em direcção ao elevador da estação do metro. Era muito mais rápido ir por lá do que circundar as obras que terminariam no mês seguinte. Cheguei ao piso -2. Validei de novo o passe e dirijo-me ao cais para apanhar o comboio proveniente da tal estação internacional famosa. Entro e fico encostado, como de costume, à estrutura do comboio, do outro lado, onde as portas não abrem. A composição ia a arrancar quando ela, em conjunto com um rapaz, entram. O maquinista vê tal casal e desfaz o pré-aviso de fecho, de forma a eles não ficarem entalados na porta.
Quando a vi entrar no comboio sorrio e mexo-me para me aproximar dela. No entanto, quando vejo o rapaz, mais alto que eu, com os ténis da moda e, com o cabelo como ela gostava, mantenho-me quieto no meu cantinho junto à porta. Observo-os de longe e vejo vários beijos. A minha cara fica triste. Por pouco não chorava.
Eis então que chega a estação em que tínhamos os três de trocar de linha, porque estávamos todos na mesma faculdade. Rapidamente saio daquele comboio, subo as escadas e, aceito o jornal gratuito, que, por estar a chover, distribuíam hoje naquele corredor subterrâneo. Depressa chego ao cais da outra linha. O comboio estava como que à minha espera. Aí, sento-me e vejo as horas. Faltava um minuto e meio para o comboio partir. Mais uma vez à pressa, eles entram no comboio e eu tento disfarçar, lendo o jornal que me tinham dado. Eles sentaram-se à minha frente e, ela não reparou que aquele rapaz era eu. (Bem, também estava mais ocupada com outras coisas.) A estação antes daquela que era a correcta para se ir para a faculdade é anunciada pela voz feminina do metro. Eu coloco os óculos escuros, ponho o boné, e levanto-me do lugar onde estou, fechando o jornal. Dirijo-me para a porta de saída e começo a chorar. Mais e mais e mais, e esse tempo o metro pára na estação e ela olha para mim, já eu estava a tirar o boné e os óculos, fora do metro. Eu vi aquele acena, mas ao mesmo tempo, para ela ver limpei com o lenço que levava os olhos. Subi para a superfície e fui até à faculdade a pé. Lá cheguei e, encontrei-os ao longe. Rapidamente refugio-me numa casa-de-banho masculina e ponho-me junto de uma sanita a chorar, até que reparo que já ia atrasado para a palestra das nove horas. Mas a dor de pensar que eles namoravam era muito maior do que a vontade de ir para as aulas.
terrível como já me senti assim várias vezes :X bolas. está tão real e credível! isto é só o receio do futuro ou alguma novidade do presente que eu ainda não sei?! :O
ResponderEliminaralém de que, agora, estando eu na faculdade, este percurso se torna tão familiar e rotineiro.
ResponderEliminarDupé, Interessante termos uma história semelhante, apesar de se tratar de uma situação oposta (confuso, não?). Sinto que no teu relato, te sentes 'rejeitado'. Faz com que isso não aconteça :T
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