Estou em frente a um prédio. Perto de duas galerias comerciais e algumas paragens de autocarro. Ainda no Verão vejo um rapaz, no prédio em frente, mesmo em frente a mim, no primeiro andar.
Por trás do cortinado, estava uma pessoa feliz. Ele sorria, estava no computador com ânimo, tocava no telemóvel novo dele como que fosse a sua riqueza. Algo se passava ali de grande importância. O Inverno foi chegando e o frio foi arrasando, mas sempre eu que olhava para aquela janela estava o rapaz feliz, a sorrir, ou estudava, ou estava no computador sempre a teclar, ou ainda via televisão com o telemóvel ao pé de si.
Quase chegava a Primavera, quando algo se sucedeu. Deixei de ver entusiasmo naquele rapaz. Tal pessoa trocou o encanto dos livros pelo choro em cima da cama, sem televisão, com o telemóvel ao seu lado mas nunca o pegava. Muito raramente. Estive quase para ir falar com ele nesse dia, mas contive-me.
O tempo foi passando, o Verão tinha chegado. E ele estava a ir de férias. Naquele ano eu ia com ele! As férias foram as melhores. Lembro-me que num dia cheguei a falar com quem ele falava ao telemóvel. Parecia ser uma pessoa interessante. Perguntei-lhe se tal pessoa sabia que ele tinha estado dramaticamente em baixo durante tanto tempo e do outro lado ouviu-se um sim, mas com uma relativização, porque não havia sido necessária tanta coisa e tanta amostragem. Respondi àquela mensagem com calmaria. Um texto enorme de mil e tal palavras caracterizando a pessoa que eu via da janela.
A escola voltou a começar. E ele continuou triste. Tinha trocado o choro pela contenção de lágrimas. E a partir daí eu via-o, em momentos felizes e em momentos infelizes. Todos os dias era assim. Tanto o via feliz, como o via infeliz. Tanto o via agarrado aos livros, como o via ali, sozinho na secretária a olhar para o computador sem nada para fazer e falar. Ele mostrava medo de dizer as coisas. Tanto papel que ele gastou em elaborar textos que achava interessantes, mas que acabavam por não passar de desabafos. Uns ele guardou, outros jogou-os fora, e nesta altura já devem ser papéis novos, como por exemplo em jornais.
Naquela altura, o tempo passou a correr. Só o via de vez em quando, a delinear estratégias e um dia cheguei a falar com ele. Ele mostrou-se preocupado. Eu disse-lhe que era de mais, que não valia a pena estar assim tão enérgico e tão amedrontado, porque a preocupação acabaria por passar.
Mas ele nada fez. E chegou o Verão de novo. E a escola voltou a começar. Mas naquelas férias, ele deixou de poder ouvir algumas músicas. Começaram-lhe a fazer impressão.
Deste tal começo escolar, as idas de autocarro têm sido acompanhadas. Eu e ele encontramo-nos sempre na paragem. E eu por vezes meto-me com ele, conversamos um pouco até que chega o autocarro. Quando ele sai para ir para a escola, passou a ver uma pessoa tristonha. Ele não consegue sorrir. Ele acha-se um estorvo em frente ao mundo.
Ele ocupa-se para controlar o medo. Para não incomodar de mais as pessoas. Ele julga-se ser o culpado de tudo e muda a vida para não sentir a rotina diária. Ele acha que toda a gente lhe mente.
Não sei que fazer mais com ele. Quando o vejo da janela do meu quarto ou ele está triste ou ele chora ou ainda, está ao computador com cara normal e séria. Tudo isto deixa-me muito triste. Quem me dera poder ajudá-lo, mas não posso.
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