Carlos continuava no chão à espera que Roberta dissesse algo. Ela não disse. Ela não disse nada. Ele fartou-se. Estava cansado daquela situação. De rompante levanta-se e vai à caixa das memorias. Tinha lá um texto que era de 3 páginas A4 sem verso. Era enorme. Carlos vestiu o robe do banho e pôs-se a ler em voz alta o que tinha escrito... Não tinha entitulado o texto desta vez.
"Pouco antecediam as dez horas e quarenta e cinco minutos da manhã de vinte e dois de Janeiro de mil novecentos e noventa e quatro, nasci. Estava sentado, segundo a minha mãe, assim sendo foi um parto de ceseriana. Acho que tive certos problemas após o nascimento, uma vez que tinha bebido algum líquido amniótico, o que me fragilizou o estômago. Memórias não tenho minhas até aos três anos, ou seja, até ao ano de mil novecentos e noventa e sete.
Até tal data factualizo aqui o que ouvi da boca dos meus avós maternos e da minha mãe; tinha cerca de um ano e meio quando os meus pais se divorciaram. A partir dessa data passei a pernoitar na casa dos meus avós maternos.
Tendo em conta o que me é dito por eles, tenho passagens engraçadas as quais retrato aqui, como a meio de uma viagem para Odeceixe, onde passo férias, parou-se junto a um café na estrada nacional para me darem uma sopa quente. Chego a mil novecentos e noventa e sete. A partir deste ano, com três anos de idade, tenho vagas recordações, como o estar com o meu pai a comer um iogurte e ele não me ligar nenhuma, de estar sentado no braço do sofá da casa dos meus avós a falar com o meu avô e de limpar o sangue que tinha no lábio com a almofada, que agora, após muitas lavagens ainda ostenta uma marca da tenra sanguinidade. Foi também aos três anos que os meus avós me ensinaram a escrever e a ler. Quando começo a escrever repararam que eu utilizava com bastante frequência a mão esquerda. O facto de eu escrever da direita para a esquerda e sob o efeito espelho, bem como o facto de eu colocar os tiles nas palavras ao contrário (coisa que ainda acontece), tinha sido explicado. Foi com tal dedicação dos avós que me habituei ao leite no biberão de hora e meia em hora e meia o que fez esgotar os meus avós. Para além disso a 'bubu', a chucha era apenas utilizada em casa naquela idade. Aos cinco anos, em Odeceixe, habituei-me a beber o leite normal dos adultos, até lá queria sempre beber o leite da Nestlé que, por ter figuras infantis no cartão, eu apelidava tal embalagem de 'leite dos meninos'. Foi também aos cinco anos que diminuiu a companhia do avô nas viagens de autocarro, e também reduzi ou quase que eliminei o fanatismo por carros do lixo; no entanto, o gosto pelos transportes ainda perdura agora.
Em Junho de mil novecentos e noventa e nove, após um ano de ATL no período da tarde e sem qualquer jardim-de-infância e pré-primária, peço à minha mãe para entrar à escola. Aí todas as portas se fecharam por ser pequeno. Fiz testes na psicóloga, que, apenas me lembro de errar na figura das dobradiças da porta. Finalmente, e já com testes feitos à minha mãe para saber se sabia lidar com pessoas como eu e com o apoio reduzido mas precioso da DREL consegui entrar na escola. Foi num colégio privado e aí começaram a surgir problemas. Paralelamente ao colégio andava na ginástica e mais tarde na natação. No primeiro ano era todos os dias 'achapadado' pela minha colega Lara, e além disso, pernas e braços tinham sempre nódoas negras. Relembro-me também de todas as situações caricatas, como ter a responsabilidade de ir tirar fotocópias, chamar os colegas para as aulas, etc.
Com todas as represálias que tinhas com as batidas sofridas, tornei-me mais frágil e mais meu. A restante primária é passada com relativa facilidade, realçando que no primeiro ano, os vómitos que o cérebro induzia e as aulas que me dispensavam. Um facto ainda bastante curioso era o toque do meu telemóvel na altura - quando a minha mãe me ligava o toque do telemóvel fazia-me lembrar a escola. O ser diferente dos outros, já na primária, obrigou-me a ouvir, desde tenra idade, mentiras e boatos acerca da minha orientação sexual.
Ao entrar para o segundo ciclo do ensino básico, e ao pensar, que todas as bocas desapareciam, estas tornaram-se cada vez piores. A 'salvação' foi ter conhecido três raparigas que, para mim, são as minhas melhores amigas. É também no quinto ano que me propõem dar uma aula de HGP. Aceitei o pedido de imediato e passei a ouvir bocas como o ser graxista, além de todas aquelas sexualistas. Elas duraram até ao final do Ensino Básico. Nem todo o ciclo prepatório foi um mar de rosas.
No sétimo ano toda a gente pôs em causa o meu conhecimento da à parte reprodutora humana. Eu sempre afirmei que uma professora estava grávida e ouvi represálias da própria professora. Confirava-se, um mês mais tarde que a professora estava grávida, mas de gémeos. Acho que nessa altura era uma boa companhia: foi nesse ano que conheci vários colegas que agora são da minha turma: o Jorge, o Diogo, o André, a Ana Raquel, a Satu, a Ana Farinha e relembro a Inês. Acabo o sétimo e chega o oitavo. Pior não podia ter sido...
Não a nível de rendimento escolar, mas foi no oitavo ano que aprendi uma das maiores lições da minha vida. Os outros, aqueles outros em quem nos tínhamos confiança, acabam por ser apenas um género de amigos da onça. Tornei-me muito mais sério do que era, com o que a vida me ensinou. Não poderei esquecer que por um dia toda a minha turma me ignorou. Foi também nestes dois anos (sétimo e oitavo) que retiro a caligrafia da minha professora de CFQ e de História para escrever. Ainda escrevo da mesma maneira que elas.
Passa-se mais um Verão e o último ano do Ensino Básico alberga-me. Não se passou nada de especial, apenas realço que, durante um mês, enviei para uma colega, que segundo eu, eu estaria apaixonado por ela, mas não. Ainda não falei muito na minha vida amorosa, de facto até ao nono ano não tive grande preocupação com as raparigas dessa forma. Apenas acho que tive o tal fraquinho que dizem por um ou outra vez.
Felizmente, consigo, com margem de segurança, a aprovação do 3.º Ciclo. Os exames foram a brincar.
O mais fantástico da minha vida aparece agora. Depois de ter sido ginasta, nadador, árbitro de andebol, delegado de turma, representante dos alunos, sou agora aluno do Secundário.
Parece que foi hoje que conheci novos colegas, mas uma soltou-me à vista. Não quero denominá-la, mas não me engano quando digo que ela é alegre, amiga, feliz, animada, fixe. O resto do primeiro período foi atribulado, porque andava completamente descontrolado amorosamente. É com carinho que me relembro de todas as aventuras, os ciúmes, as palavras, as conversas que tive com ela até hoje. Admito que ela me ensinou muito do que eu hoje sou. Não me posso esquecer, e saliento assim este facto."
Carlos após ler tal enorme texto em voz alta questiona quase aos gritos Roberta se ela tinha percebido a mensagem que ele queria passar. Naquela altura, em dezasseis anos de vida, Carlos apenas tinha conseguido sorrir a partir do 10.º ano por causa de alguém. Ele disse logo que era Roberta. Ele sentia-se longe dela por vezes. Ele pensava que se passava algo com ela. Acabou a conversa e foi-se deitar noutra divisão assim: "Tenho pena que não tenhas percebido a importância que tens para mim. Estou a tentar dizer-te isso há algum tempo".
gostei do texto. acho interessente fazeres a intersecção da história futura com elementos presentes/do passado.
ResponderEliminaro sentimento poderá não ser sempre recíproco, mas aposto que Roberta sabe o que sentes... apesar de só o demonstrar, ela-própria, algumas vezes.
gosto da música
eu já li isso algures, e ainda me lembro bem! um grande beijinho e boa sorte sorte para os exames dudu, estuda muito! Beijinho Carlota
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