sábado, 5 de março de 2011

A viagem de barco

Passava a mão na testa de cansaço. Era uma sexta-feira à noite. Como qualquer sexta-feira habitual, depois de chegar ao trabalho, visto a famosa bata branca com riscas verdes, e começo a trabalhar com o microscópio ótico. Era o dia da semana em que me calhava fazer a manipulação medicamentosa de substâncias. De todos os meus trabalhos, era o que mais me custava, dado que estava num cubículo fechado durante a manhã toda a estudar ou melhor a preparar material para a segunda-feira seguinte.

Já era rotina. Às 12h33 saía do laboratório e ia almoçar. Depois, saía do meu local de investigação com a bata no braço, meio dobrada com a pasta pequena na mão esquerda e dirigia-me para a faculdade onde dava aulas. Tinham-me colocado ali, e apesar de eu ter aceitado tais grupos turmais - não turma pela sua dimensão - acabava sempre por sorrir para os alunos. Nas sextas-feiras à tarde eles tinham comigo, Fisiologia Terapêutica, a minha especialização.

Chegava sempre ao final da lição derreado, porque tentava lidar com eles bem, mantendo um certo distanciamento, mas sempre com alguma liberdade de movimento e escolha - dado que apenas tínhamos 3 a 4 anos de diferença em média.

Depois disso, acabava por ir para o meu gabinete da faculdade levantar o correio e preparar as aulas para segunda-feira de manhã. A hora do jantar acabava por chegar e lá ia eu, com o chapéu de chuva aberto, até à cantina mais próxima. Ao jantar as pessoas que serviam a comida eram as mesmas, por isso, já que quase me conheciam tu cá, tu lá.

Nessa noite de chuva acabei por voltar ao gabinete, à espera que a chuva diminuísse de intensidade a fim de eu poder apanhar o barco depois do metro, para finalmente chegar a casa. Aquela noite era especial - era a última noite que eu fazia tal viagem. A partir da semana seguinte eu apenas teria de apanhar um autocarro para me deslocar para o laboratório ou então para a faculdade.

A chuva acabou por me atraiçoar os planos e como não "acalmava" decidi meter-me num autocarro que me levava à estação dos barcos. Acabei por apanhar o penúltimo barco do dia e emocionei-me na viagem. Os anos que eu tinha passado dentro deles. Os minutos que eu contava até chegar ao destino. O desejo que muitas vezes eu apresentava para chegar a casa rapidamente. Tudo isso iria ser substituído por uma simples viagem de autocarro. Ao menos, andaria nos amarelinhos todos os dias, serviço de autocarros que sempre gostei.

Apesar de tudo cumprimentei os tripulantes da travessia e agradeci pelo que tinham feito nas várias viagens que me transportaram.

No final de contas, era uma travessia importante para mim, que apesar de tudo o que a ela estava associada, terminou. E em casa acabei por pôr na parede um post it a relembrar as memórias das viagens de 20 minutos.

Sem comentários:

Enviar um comentário