Aquele dia está soalheiro. Andava eu atarefado de um lado para o outro como de costume, até que cheguei ao meu amarelo gabinete, com uma faixa verde ao meio da parede e enchi os pulmões de ar - parecia que tinham lavado tal sala luminosa. E de facto tinha acontecido.
Deixo as minhas coisas em cima da mesa e sigo para a porta em frente, falando assim com a chefe dos funcionários, perguntando quem é que tinha limpado o meu gabinete (dado que normalmente sou eu que o limpo!). A funcionária responde que tinha sido um aluno de 12.º ano. Ele estava tão, mas tão triste que acabou por lhe pedir para fazer alguma coisa. Eu, com o meu estado espírito de esponja absorvente, fiquei a pensar e tive de encontrar o aluno!
Assim o fiz. Nesse mesmo dia acabei por conseguir falar com ele e, ao mostrar um ar tão carregado, convidei-o para tomar um café no meu gabinete - o dia já estava no fim, as luzes da rua já estavam acesas e o frio aí vinha.
Ele começou por derramar umas pequenas lágrimas sobre a mesa preta. Dizia, ensoluçado que tinha perdido confiança nele próprio, porque não conseguiu cumprir o que a amiga lhe tinha pedido e ele tinha prometido. Ouvi-o por mais de 10 minutos e acabei por intervir:
- Sabes, não fiques assim. De certeza que ela não fica amargurada por tu não teres resolvido um mistério médico. A amizade é mais do que isso. E até é muito mais do que ir daqui à Lua e voltar.
Ele não se convenceu, porque dava extrema importância à tal rapariga (e, cá para mim.... ele é obcecado por ela) e disse que devia ter posto os medo de lado e enfrentado quem conseguia para saber o que tinha de saber! Eu sorri, mas fiquei triste interiormente. Eu próprio naquela situação não saberia reagir.
O rapaz acabou por beber o café e sair da sala, pedindo um lenço para limpar as salgadas e transparentes lágrimas que derramava constantemente daqueles dois lindos olhos castanhos. Ao sair agradeceu-me o bem que lhe tinha feito falar e pediu-me para eu pedir desculpa à tal rapariga por ele não conseguir ter atingido o objetivo que se tinha proposto.
Para mim, o pobre rapaz não queria desiludir em nada a amiga, mas não conseguiu, porque na nossa sociedade acabamos por encontrar regras e muros dentro de labirintos infinitos.
Já não o via, mas saí a correr da minha sala e dirigi-me a correr para a porta chamando-o. Ele estava ao longe, no fim da outra rua. Quando ele olhou para trás desapareceu. Tinha dado um tropeção na calçada e tinha caído. Por azar do mesmo estava um carro a passar na mesma altura. Ficou ali o pobre rapaz. E eu, a única coisa que podia fazer era chamar o 112! Acabei por chorar o que ele tinha chorado por tudo o que se tinha passado naquele dia. Os meus olhos, as minhas janelas naquele dia, estavam tristes também.