quarta-feira, 17 de agosto de 2011

Por obrigação ou por amor à camisola?

O dia tinha nascido sem quaisquer nuvens no céu, mas com o passar da manhã começaram-se a notar nuvens na nossa querida atmosfera terrestre que avizinhavam chuva. E nada mais certo aconteceu.

Pouco depois de almoçou começou a chover intensamente. Quem diria que de manhã o céu se apresentava azul e naquele momento estava nubladíssimo, carregadíssimo de moléculas de água para molhar imensos humanos que tinham saído de casa sem guarda chuva. Estavámos em pleno início de outono, ou seja, finais de setembro.

Nessa manhã tinha acordado radiantemente radiante, uma vez que iria estar com uma grande amiga que não via desde o fim das férias, a Margarida. Eu conheço a Margarida há 3 ou 4 anos, mas apenas nos víamos nas férias de verão, no Algarve.

Como de costume eu fico triste quando chove, apesar de continuar a fazer a minha vida normalmente. Apanhei o autocarro até à estação dos barcos onde ia buscar a menina "guidinha". Quando lá cheguei, àquele pedaço de metal já um pouco ferrugento e velho, com mais de 15 anos e com paragens de autocarro pintadas frequentemente para não mostrar ferrugem, para não falar no cheiro a lodo, uma vez que a maré estava vazia, corri para junto dela. Dei-lhe um abraço tão grande que quase a sufoquei. Mas aquele abraço era especial, continha saudade, muita saudade! Depois de falarmos um pouco sentados nos bancos que estavam molhados junto às bilheteiras dos barcos decidimos ir para Lisboa: jantávamos lá e acabava por ir ter com a minha mãe que mais tarde me traria para casa. Sem qualquer problema!

O meu passe estava a caducar. Tinha de o carregar. Pus-me na fila das máquinas de venda automática e quando chega à minha vez.... Ups! Como fui fazer o passe a outro operador, este dá-me para fazer o carregamento apenas como passe normal (sem desconto) nas máquinas!

Parei, respirei fundo, pedi à Margarida para esperar mais um pouco e olhei para o céu. Estava cada vez mais carregado, com relâmpagos ao fundo; ouvia-se trovões constantemente, uns ao longe, outros ao perto. 
A noite não se avizinhava nada boa para uma passeata na capital. Depois do passe carregado e de já termos validado a viagem, ficámos parados na sala de espera a ver os quadros maravilhosos que lá mostravam sobre a história dos barcos desde o seu nascimento até aos dias de hoje.

Cerca de 10 minutos depois, chegou o navio que nos levaria a Lisboa: carregado de pessoas para ir para casa, após um dia de trabalho cansativo e de várias viagens de transporte prolongadas e monótonas. Eis senão quanto vislumbro que uma das cordas que estavam a prender o navio estava-se a desfazer e o responsável pela atracagem do navio não se encontrava no cais. O mar estava também tempestuoso. Naquela "baía" que quase nenhumas ondas existiam, via-se onda atrás de onda como se fosse uma praia do sul do país.

De um momento para o outro, o rio agitou-se e o barco ainda a atracar partiu as batentes que eliminariam o encosto violento contra o cais de embarque. Do nada, naquele segundo quando consegui ver que as pessoas lá dentro estavam aflitas, dou um pontapé na porta esquerda que permitia o acesso ao cais e corro sem capucho para o batelão junto ao barco. A corda que segurava o navio ao cais estava por um fio! Sem luvas agarrei no resto da corda e tentei amarrar quando ouço um grito de dento do barco: Era Luísa, uma ex colega minha do Secundário. Enquanto ela gritava eu tentava a todo o custo segurar a dita corda. Estava a dar o meu máximo: a pouco e pouco o barco ia, de novo, se encostando ao cais para permitir as pessoas sairem com a máxima calma.

Pisco os olhos duas vezes, um código que significa olá em mim e a Luísa, que estava junto à porta do navio agora. Ao olhar para a direita vejo uma onda gigante a abater-se sobre o barco: dei um gito e larguei a corda, acenei com a mão para dizer adeus e imitei uma onda com as mãos em sinal de perigo, mas era tarde de mais.

Margarida na sala de espera do terminal deu também um grito e tentou seguir-me, mas as pessoas que ali estavam impediram-na. Num único momento, o perigo da onda, o perigo do barco bater contra o batelão e ferir Luísa e o medo de eu ficar sem vida não entravam cá dentro, na cabeça. Num segundo larguei a corda, o barco parte o batelão, eu dispo a camisola vermelha que vestia e salto para dentro do rio... A onda tinha-me comido e atirado para o teto do terminal; quanto ao barco, tinha ficado destruído e mais de metade das pessoas estavam mortas. Tinha-se salvado apenas Filipe dentro do barco e Margarida no terminal. Eu, seminu, tentei fazer sinal às autoridades para me salvarem dali e ao final de seis horas de completo desespero safei-me com uma fratura exposta na perna direita.

Depois da cirurgia que tive de fazer e que tinha deixado com uma cicatriz do joelho até ao calcanhar perguntei por Luísa e por Margarida. A primeira tinha morrido e a segunda tinha começado a namorar com Filipe. Mais tarde recebi a visita de ambos no quarto e chorei como nunca tinha chorado, com pena da morte e alegria da nova relação! Mas não tinha conseguido salvar Luísa...