sábado, 7 de maio de 2011

Trabalho n.º Lx, Encontro n.º R

Mais cedo não podia ser. Eu apenas entrava ao trabalho quando a noite se começava a pôr, quando o Sol já estava a passar os seus lindos e brilhantes raios para o outro hemisfério terrestre.

Sempre às sextas-feiras, quando descia do barco das 19h00, corria que nem um desalmado para poder apanhar um autocarro até ao meu trabalho. É certo que a distância era pouca, mas com o mundo que aí se vê a minha opção era manter a minha segurança. Por mais um dia iria estar a olhar o rio depois de trabalhar, era o que fazia todas as noites de sexta-feira, após a meia-noite: subia até ao último piso do edifício e olhava para aquele belo elemento natural. Cada semana o movimento do rio era diferente e isso deixava-me muito mais entusiasmado: a mudança do natural.

Sentei-me na secretária, abri o portátil que levava comigo, liguei o cabo de rede e pronto, pus-me a engendrar planos para combater a crise e poupar recursos das empresas institucionais de transportes do estado. Era chato como tudo. Tinha de estar a pensar em todas as circulações diárias de todos os modos de transporte, mas só aquele pensamento dava-me um gozo bestial.

Centra-me naquele dia na empresa dos autocarros em Lisboa. Era o meu primeiro desafio rodoviário: não tinha muitas bases. Estava ali por ter uma carta de recomendação e pedir um salário não muito elevado. Tentava sempre seguir o instinto, analisar os dados e prever que em determinada hora de determinado dia poderia perder passageiros se tirasse este ou aquele autocarro e podia ganhar se prolongasse a carreira x ao lugar y, substituindo a z, economizando m litros de gasóleo ou gás natural.

Às 23h já me doia a cabeça de tanto pensar em tantas carreiras que existiam e ali não podia mexer em todas as carreiras (já existiam quase 110 anos de transporte público em Lisboa). Não conseguia mais. Tive de parar. Entretanto entra de rompante pela sala a dentro uma rapariga, dizendo que tinha sido minha colega de escola no Secundário. (Eu cá pensei: Credo, nem aqui?!) Ela falou e acabei por convidá-la por subir ao terraço comigo. Trouxemos umas bebidas quentes e um pãozinho para nos satisfazer a fome e passámos mais do que hora e meia à conversa,  matando as saudades que existiam.

A minha memória continuava a atraiçoar-me. Eu não conseguia de maneira nenhuma lembrar-me de quem era aquela mulher! Pensava, pensava, pensava e acabei por não concluir nada. Pedi para ela me acompanhar à saída, porque tinha acabado o meu turno (e já eram para lá da uma e meia da madrugada). Quando chegámos à saída é que me lembrei: "não eras tu que tinhas alguém que por sua vez tinha no blog o tema do metro?" Ela baixou a cabeça e respondeu que sim. E eu, continuando educado como sempre, tentei reconfortá-la.

- "Corre, corre! Vamos perder o barco!!"
- "Eu não vou", respondeu ela.
- "Vem aqui ter amanhã à mesma hora, acho que precisas de me contar o que se passou", disse eu.

As conversas nunca se finalizam num único encontro. Muitas vezes, elas são intemporais. As pessoas é que têm de ver como abordar as outras de forma correta, a fim de continuar o que ficou inacabado, especialmente quando além de uma relação profissional, se tem uma relação pessoal.